Tuesday, February 28, 2006

Só mais cinco minutinhos, por favor

Noite de domingo de Carnaval. Enrolei o máximo que pude p'ra já chegar na cama muito cansada. Deu certo, dormi logo.

Estava uma confusão! Acho que era uma gincana no colégio ou, pelo menos, com pessoas da minha época de colégio. O prédio não era muito alto, uma construção antiga. Eu estava no segundo piso, mas cada piso tinha muito mais altura do que os andares dos prédios de hoje. O amarelo das paredes se soltavam como pele que descasca depois do verão. Eu olhei por uma janela, um jardim. Grande e quadrado.

De repente, já estava num cômodo qualquer que parecia um quarto de hotel. Com certeza não era o mesmo prédio. Eu, uma colega (que parece ter saído da gincana e chegado nesse novo lugar comigo), o Jorge e ela.

Nem lembro sobre o que falávamos, só sei que entre desconversas e sorrisos cheios de "pára-com-isso-que-eu-sou-tímida", percebi o jeito que ela me olhava.

"Last night I dreamt
That somebody loved me"

Ela me via! Não só me olhava, mas me enxergava! Ah, que vontade de ficar naquele olhar. Ficar e só. Ela também percebia em meus olhos o olhar de "quero ficar e só, mas não sei se posso", e ainda assim sorria.

Eu havia me jogado na cama como se ali eu pudesse existir entre ficar e só e nem sequer ficar. Mas, a súbita ausência de Jorge e minha colega dificultou ainda mais meu plano de fugir dos olhos dela.

Sorrindo, vinha em minha direção. Seus cachos se mexiam em câmera lenta. Vermelhos. Sua pele era um convite, quase uma intimação as minhas mãos. Branca.

"Last night I felt
Warm arms around me"

Acordei...

"No hope, no harm
Just another false alarm"

Ah, Morrissey, sing me to sleep! I'll hide from her voice in yours...

Tuesday, February 21, 2006

Tyche p'ra que te quero...

GANHEI!!! GANHEI!!! GANHEI!!!

Pela primeira vez na vida, ganhei alguma coisa em uma promoção! É lindo!

Veja bem, sou de uma família na qual as pessoas participam de bingos com prêmios como televisões e filhotes de cachorros de raça, e ganham um cabide p’ra chapéus e casacos. Sabe como é? Daqueles de colocar junto à ponta. Pois é, eis minha sorte...
Mas, agora esse cenário parece ter mudado. Tyche passou para o meu lado! (Ai, o pedantismo, Ana Carolina...)

E foi tão simples! Só precisei responder duas perguntas: “To which legendary Clare musician has the tune ‘The Otter's Holt’ been attributed to?” e “Which uilleann piper earned the nickname ‘The King of the Pipers’?”

Ah, não se iluda caro leitor (caso você exista, é claro)! P’ra cada pergunta havia três alternativas. E eu, isxperrrrrrta que sou, respondi três vezes, cada vez registrando um e-mail e uma resposta diferente. Momento ideal p’ra citar Sr. Eurípedes Resende: “Sô trôxa? Num sô trôxa!”

Se bem que, eu ainda não recebi o prêmio, o CD "Courtin' the Ginger Lady" da banda King Laoghaire. Por enquanto foi só o e-mail pedindo p’ra eu informar meu endereço p’ra envio.

Só falta eu receber outro e-mail: “Querida, se tu pagar o frete, o prêmio é teu!”


Ah, caso tenha ficado curioso:
1ª Junior Crehan
2ª Leo Rowsome

Monday, February 20, 2006

Turned down serenading fool

"Eu só queria distância da nossa distâcia
Saí por aí procurando uma contramão
Acabei chegando na sua rua
(...)
Atirei uma pedra na sua janela
E logo correndo me arrependi
Foi o medo de te acertar
Mas era pra te acertar
E disso eu quase me esqueci
Atirei outra pedra na sua janela
Uma que não fez o menor ruído
Não quebrou, não rachou, não deu em nada"
("É Mágoa", Ana Carolina)

Eu preocupada em não lhe acertar e nem quebrar o vidro. P’ra quê? Minhas pedras não fazem sequer barulho p’ra você.

Agora, já não tenho mais pedras. Atirei todas que tinha. Se você olhar o chão junto à sua janela, verá um monte delas.

Bleh, você já deve ter visto...

Saturday, February 18, 2006

Sabadão gostoso...

Dois mil e seis. Fevereiro. Dezoito. Sábado. Que beleza!

Uma daquelas noites em que "vanish into oblivion it's easy to do". So easy! Talvez eu devesse recorrer a Johnny Walker Red também.

Vanishing into oblivion...

Ainda assim, estou empolgada. Na próxima quinta-feira embarco em busca de minha sanidade, em busca de mim mesma. Sempre que perco a direção e me esqueço pelo caminho, sei bem onde me reencontrar. É p'ra lá que estou indo!

Ansiedade. Quero tanto fazer desses dias os melhores que vocês poderão ter ao meu lado que acho que p'ra isso terei que saber falar sobre óperas de Verdi, aprender a sapatear, imitar o Pato Donald e comer 15 cachorrões em dois minutos!

Ahá, já viram o que NÃO farei com vocês, né? Viram, não será tão ruim assim.

...

Deus existe! Dias após escrever aquela bobagem de "SAC divino", encontrei uma música por acaso: John Mayer cantando "Lover, You Should Have Come Over". John Mayer cantando Jeff Buckley num show! O mais interessante é que ele diz que tinha prometido a si mesmo nunca fazer isso. Maior prova que essa só se eu estivesse nesse show. Taí, coisa que nunca vai acontecer, né?

Mick Jagger, seu namorado Keith Richards e os outros dois divertem milhões. John me chama, a gravidade me puxa p'ra baixo. Tento me segurar com o máximo de força possível com meus braços envolta de seu pescoço. Ah, gravidade, leave me be!

Já nem sei se ainda estou escorregando ou se já me acostumei a essa sensação.

Ana Carolina, já disse p'ra você só assistir "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" quando estiver bem!

Sunday, February 12, 2006

Revisão sobre mim mesma

Ontem reli as postagens que já coloquei aqui e cartas e textos inacabamos de meses, anos atrás. Sem dúvida essa última, "SAC Divino", é a pior de todas. Mas, no geral não sei dizer o que acho de minhas palavras.

Ora penso que algumas das minhas frases são daquelas que eu iria adorar encontrar em algum livro; ora elas soam como pedantes, piegas, previsíveis, comuns, "mamãe, quero ser fofa", "mamãe, quero ser querida", "mamãe, eu me acho talentosa"... Mamãe, me tira daqui?

Além disso, achei bem patético perceber que não consigo escrever sobre outra coisa a não ser EU mesma (coisa que estou fazendo nesse exato momento. Tsic, tsic, tsic...). Mesmo quando não sou uma das personagens, eu estou lá: em gestos, manias, preferências, sonhos. Fica ainda pior quando tento inventar personagens. Parto de algo que aconteceu comigo com a intenção de, pelo menos na ficção, tomar decisões diferentes, mas acabo com a reprodução dos fatos mascarada por nomes quaisquer.

Glau disse que eu deveria escrever um livro, eu argumentei que não tenho talento e nem disciplina p'ra tal e ainda disse que não há nada demais no que escrevo porque são só formas de contar coisas tolas dos meus dias, não são grandes idéias, são só transcrições. Ela disse algo legal sobre isso ser uma coisa boa, ela quase me convenceu (quase porque sou muito teimosa) de que coisas da vida são as melhores idéias p'ra se escrever algo.

Gostaria de lembrar o que foi que ela disse...

Wednesday, February 08, 2006

SAC divino

- Para saber seu saldo, tecle 1; para obter informações sobre os serviços oferecidos, tecle 2; ou então aguarde na linha para falar com um de nossos atendentes. (...) Sua ligação está sendo transferida, em breve um de nossos atendentes vai estar falando com você. A paciência é uma virtude, lembre-se do exemplo dado por Jó.

“Pelos prados e campinas verdejantes eu vou
É o Senhor que me leva a descansar”

- Tenha calma, no momento todos nossos atendentes estão ocupados. Tão logo uma das linhas esteja ficando disponível, você estará sendo atendido. Não perca a paciência para não acabar como Maria Madalena... arrependida.

“Juntos às fontes de águas puras repousantes eu vou
Minhas forças o Senhor vai animar”

- Aguarde um momento, sua ligação estará sendo atendida em breve. Isabel aguardou muito mais tempo até finalmente engravidar.

“Tu és, Senhor, o meu pastor
Por isso nada em minha vida faltará”


- Bom dia, no quê posso estar ajudando?
- Bom dia, eu gostaria de falar com o Chefe.
- Desculpe?
- Por favor, passa minha ligação para Ele, o Senhor. Quero falar direto com Ele.
- No momento Ele se encontra muito ocupado, a senhora não pode estar falando p’ra mim qual é o problema?
- Poder, eu até posso, mas não fará diferença. É sobre um pedido. E é só Ele quem pode resolver. Por favor, passe minha ligação.
- Ele é, como a senhora bem sabe, muito ocupado e...
- Mas, é urgente.
- Sim, senhora, imagino. Todas as ligações são.
- Eu sei que todos devem dizer isso, mas é urgente mesmo.
- Com quem eu falo, por favor?
- Com a filha D’Ele!
- Sim, todos somos, querida.
- Ah, será que você não entende que...

- Minha filha, o que está acontecendo?
- Ãh, alô?
- Pois diga, minha filha, o que é tão urgente assim?
- O Senhor veio me atender mesmo...
- Claro! Quando ouvi que era você quem me chamava, vim correndo. Você me chamar depois de tanto tempo, só pode ser urgente mesmo. Diga, estou lhe ouvindo.
- Bem, é sobre um pedido que fiz.
- Entregaram errado? Recebeu o pedido de outra pessoa?
- Não, não. Na verdade, não é UM pedido, são pedidos acumulados.
- Entendo, entendo... Você, pelo jeito, ligou p’ra reclamar desde a pasta de dente que sempre quis, quando criança, mas nunca pôde usar, até o formato das suas coxas e seu quadril. Hunf...
- Não, não vou tão longe assim. Mas, é melhor não me dar idéias.
- E preciso dar?...
- É o seguinte: eu acho que nunca pedi demais, nunca pedi algo tão difícil assim. Nem mesmo pedi p’ra ganhar nas vezes em que joguei na loteria! Uma pessoa a menos, numa fila de milhões, eu sei. Mas, já era uma a menos.
- Sim, eu a...
- Então, pedidos simples, muitos eram de manutenção e não de grandes reviravoltas.
- Sim, a...
- Mas, já não consigo mais engolir quieta. Dessa vez vou reclamar!
- Dessa vez?! Que vez, minha cara? Há muito você não me pede algo, há muito você deixou de se voltar a mim. Você costumava reservar pelo menos alguns minutos p’ra mim todas as noites, antes de dormir, mas faz tempo que...
- Não, não, não. Eu não deixei de procurar o Senhor, muito pelo contrário: eu percebi que não preciso pedir licença p’ra Lhe falar, não preciso anunciar a conversa,...
- Sim, isso é muito bom, minha filha. Mas, mesmo assim,...
- Eu percebi que não preciso de gestos involuntários, palavras decoradas, pedidos e confissões prontas,...
- Muito bem, mas você partiu de um extremo para outro: de repetições ao silêncio.
- Será possível que o Senhor, onisciente, não tenha percebido minhas palavras, meus sinais? Aquele pedido que fiz a uma estrela cadente em 1998, o Senhor se lembra? Poucas horas depois de eu ter quase morrido afogada naquela represa, pois é, eu achei que ia morrer. Mais tarde, mais calma, eu estava olhando o céu daquela noite, talvez a mais bonita que já vi. Eram tantas estrelas que não dava p’ra fixar os olhos num pedaço de céu, havia a vontade de não perder nenhuma luzinha sequer. Cada vez que olhava p’ra uma das muitas, milhares de estrelas, enxergava que ao lado havia outras, e outras e outras. Quanto mais eu via, mais queria ver. No carro, voltando p’ra casa, vi a estrela cadente. Lembrei ter ouvido falar que, ao vermos uma, temos direito a um pedido. Assim fiz. Fechei meus olhos, para não ser distraída pelos muitos pontinhos que ainda brilhavam como se quisessem minha atenção, e pedi. Não foi à estrela que pedi. Apesar de encantada por seu rastro de fogo, não foi com ela que falei.
- Ah, minha filha, eu ouvi sua voz!
- Ouviu? E por acaso não entendeu o pedido?
- Querida, não é assim...
- E todas as vezes em que fiz pedidos, disputando na sorte com alguém, com cílios nas pontas do dedos? Foi ao Senhor....
- Filha, ouça...
- Ah, quer saber? Estamos conversando diretamente agora, não tem desculpa p’ra não me ouvir ou não entender: não foram só os pedidos, que mesmo repetidos não foram atendidos, foram as conversas. Assim como Bilac, converso com as estrelas; vou além, inclusive, converso com tudo que desperta meu espanto, tudo que prende meus olhos, pois sei que é nessas coisas que posso Lhe achar.
- É isso mesmo!
- Conversas que, ao que parece, só foram prazerosas a um dos envolvidos. Tentei ser paciente, mas não dá. Eu quero meu pedido realizado! Também quero a viagem com as amigas, um precipício, a aurora boreal, o sol da meia-noite, lomos – várias, show do John Mayer (e ele tocando cover do Jeff Buckley, hein!), uma música composta p’ra mim,... Vou apelar: quero mico-leão dourado fora da lista de animais em perigo de extinção, quero o fim da fome no mundo,... E quando estiver cuidando do desenvolvimento e adaptações das espécies, trate de fazer com que os aranhas tenham um veneno imediato. Odeio ver insetos agonizando nas teias!

Friday, February 03, 2006

Escrevi p'ra você

- Ah, mãe, ver fotos é nossa tradição de aniversário. Uma foto p’ra cada ano de vida, eu tomo cuidado p’ra não serem sempre as mesmas. Por que você reclama todo ano?
- Por que você sempre dá um jeito de reforçar que estou ficando ainda mais velha?
- Quanto mais velha melhor: mais anos de vida, mais fotos tiradas, mais fotos p’ra vermos, menos chances de repetirmos alguma.
- Pois é, como já estou chegando aos 70, haja fotos...
- E essa, mãe, quem é?
- Ah, essa é a Ana. Nossa, a Ana... O que será que aconteceu com ela?




Hoje tenho 40 anos. Confesso que nunca tive certeza de que chegaria até aqui. Nunca tive comportamentos que comprometessem minha saúde (nada de cigarros, drogas, bebida em excesso, promiscuidade descuidada) mas, também não posso dizer que me esforcei para cuidar dela.

Num primeiro momento achei que seria difícil demais resumir os meus últimos 20 anos, mas agora, sentada com o teclado a minha frente, com as letras ao meu alcance, vejo que poucas palavras bastarão. Esses 20 anos foram como os 20 primeiros: por vezes, vazios.

Terminei a faculdade, do mesmo jeito que comecei: frustrada e torcendo pelo dia em que ia encontrar algo que despertasse paixão. Ela chegou, a paixão que tenho até hoje; na verdade, ela já tinha chegado mesmo antes, eu é que não tinha percebido. Só percebi seus sintomas depois de me formar, quando pude ter mais contato, mais informações sobre tudo o que sempre achei interessante e acreditava que encontraria na faculdade.

A faculdade: overrated, so overrated! Onde estavam os grandes amigos que faria? E as melhores festas da minha vida? (Bleh, nunca fui muito boa com festas mesmo). As grandes descobertas e experiências? Será que esconde-esconde era uma parte da graça?!

Foi normal – ainda se lembra do valor que normal tem p’ra mim? – normal até demais. Cinco anos pensando: “O que estou fazendo aqui mesmo?”

Ah, mas essa pergunta é a minha essência. Só pode ser. Depois de tanto tempo, afinal são 40 anos, é ela ainda que me persegue e, de um jeito às vezes torturante, me faz continuar.

Desculpe, perdi a linha de raciocínio. Falava de faculdade e de paixão.

Saí da faculdade e fui estudar História da Arte. Pois é, finalmente. Consegui uma especialização em Florença e por aqui fiquei. Foi aí que percebi a paixão. Meus dias se resumiam a leitura, pesquisa e observação de afrescos, esculturas, manuscritos; mas eu não me cansava, não sentia falta de outra coisa. Acho que me tornei uma daquelas especialistas chatas (redundância?) que só pensam, falam, vivem uma coisa e nem percebem.

Não demorou muito até que a euforia passasse. Como em toda paixão, o tesão inicial se acalmou e eu voltei a ter outras coisas na cabeça além das mulheres de Delacroix, os homens de Michelangelo e os trituradores de vacas de Leonardo da Vinci.

A essa altura, eu já trabalhava na La Galleria degli Uffizi. É maravilhoso, o ambiente de um museu me comove mais do que sebos, livrarias e cinemas. E trabalhar cercada por Caravaggio, Leonardo da Vinci, El Greco, Raffaello Sanzio (que me ganhou quando eu tinha apenas 11 aninhos; foi “Il Primo Bacio”, o meu primeiro), e tantos outros... Não há palavras.

Inclusive, por mais clichê que pareça, foi diante de “A Primavera”, de Botticelli, que conheci Ian. Era meu horário de almoço e, como de costume, comi rapidinho p’ra aproveitar o resto do tempo olhando p’ra uma obra. Já estava sentada, sozinha, em silêncio, admirando, por uns 30 minutos quando percebi que não era impressão minha, havia mesmo alguém ao meu lado. Era ele. Também sentado, sozinho, calado e absorvido.

Enxerguei-o de canto de olho, não conseguia desviar meus olhos da parede, até:
- Ela vai jogar suas pétalas sobre nós, não? - tive que olhá-lo.
- Vai, e elas vão nos chamar p’ra participar da dança.

Nossa, isso foi há quase 16 anos. Nem sei dizer como ou o quê aconteceu, mas agora mesmo, enquanto escrevo no quarto, posso ouvi-lo ao piano, na sala, tocando a música que compôs logo que viemos morar juntos. É a sua canção preferida p’ra dias de tranqüila falta de obrigações, de calma oportunidade de se aproveitar o dia.

Caso acreditasse em sorte diria que foi isso que trouxe Ian até mim. E já se foram 15 anos. Como você pode imaginar, esses anos de convivência não foram ininterruptos, mas quem diria? A maior parte dos méritos é dele. Metade da menor parte dos méritos é minha, a outra metade é da felicidade de concordarmos nas coisas essenciais de um relacionamento.

De novo, me desviei do assunto. Falava do meu trabalho.

Comecei como assistente de assistente, cheguei a curadora de exposições em parcerias, em galerias pequenas. Você precisava ter visto a exposição de Havaianas que fizemos. Sim, as legítimas! Foi uma exposição de calçados pelo mundo.

Lá estavam os clichês como aquele sapatinho japonês que atrofiava os pés das mocinhas; os tamancos holandeses; as botas com correntes que impedem escorregões no gelo da Rússia; tênis que, bem, nem preciso dizer que dominaram o planeta, né? E numa sala exclusiva, elas, as Havaianas. Tá, eu nunca fui muito fã delas (sempre arrebentava ou tropeçava, ou as duas coisas), mas não posso negar que elas carregam a marca de um país, os traços de uma maneira de vida. Foi divertido.

Fizemos também uma exposição muito legal, “Sentidos”. O nome ficou parecendo uma daquelas coisas pós-modernas ou, pior, reportagem especial do Fantástico, mas a idéia, sem falsa modéstia, foi boa: uma exposição que mexesse com mais de um sentido.

Dividimos um pequeno galpão em espaços, cada um foi decorado, climatizado e aromatizado de um jeito. Em cada um, fotos sobre um mesmo tema, uma temperatura, um cheiro e uma música sendo tocada.

Numa das “salas”, logo ao entrar sentia-se o frio de uma manhã de neve fraca caindo e o cheiro de pinheiros úmidos, e viam-se duas fotos ocupando toda uma parede, deixando as imagens pouco maior que a cena original. Nas duas fotos, que tinham aquele tom azulado que o frio tem, havia um rapaz numa plataforma de trem.

Numa o rapaz aparece de costas e nem sinais restam do trem. Percebe-se que há muito havia partido. Na outra, o rapaz de frente, seus olhos úmidos estão presos a algo já muito distante e seus braços caídos de qualquer jeito parecem deixar rastros de um “tchau” sofrido e ainda não convencido.

Seu rosto é da brancura que o inverno nos dá; seu nariz, um pouco vermelho, é a única parte que ainda parece viva nesse rosto. Sua pele morta sem sangue, seus olhos sem vida com lágrimas. O aroma dos pinheiros nos aproximava do frio. O frio trazia essa despedida para nosso corpo enquanto, no centro da sala, Ian tocava piano e cantava uma de suas músicas.

“tanto quanto o adeus é inevitável
é minha vontade de tentar”


Uma pena você não ter visto, gostaria de ter ouvido sua opinião. No dia de abertura da exposição voltei a tentar o velho truque da comunicação por telepatia. Não demorou muito p’ra que eu lembrar que ele nunca funcionou.

E não foi só nesse dia que lembrei de você. Foram muitos dias em que desejei ouvir um comentário seu, muitas as coisas que quis dividir com você. Comecei por dizer que esses 20 anos foram vazios por vezes, mas o vazio veio de você. Ou melhor, da falta de você.

Tantas coisas que eu quis contar, mostrar. Tantas conquistas, tantos fracassos. Estudos, trabalhos, exposições, mudanças, projetos, fotos, músicas, filmes, dias, anos. Imagino que você também deve ter passado por muitas coisas das quais eu gostaria de ter feito parte.

Por que mesmo você deixou de fazer parte dos meus dias?

Há um texto de muitos anos atrás, que circulou pela internet, no qual um soldado pede permissão para ir a procura de um amigo seu, ferido em combate. Mesmo sem a autorização de seu superior, o rapaz vai. Quando ele encontra seu já agonizante amigo só há tempo de ouvir “Eu sabia que você viria”.

Gostaria de poder dizer que é por isso que escrevo, mas caso o fizesse estaria fingindo uma confiança que não tenho. Não sei se você virá. Só espero que venha. Após tanto tempo, só me resta a mesma coisa: esperar.

Florença, 20 de julho de 2026

Sunday, January 29, 2006

Prismas

Uma tarde de sábado. Um garoto e uma garota. Céu cinzento. Uma feira daquelas onde se encontra de tudo. Vento. Pingos de chuva que se atrasaram e chegam sozinhos. Um mirante numa torre. Fotos. Algodão-doce.

Suas mãos não encontram descanso. Seus braços gesticulam como numa dança de má improvisação. Seus olhares se evitam tentando conter o embaraço que já os toma. Mexem em lembrancinhas, lêem camisetas, brincam com chapéus.

Ligeiros, os pés se mantêm tão secos quanto conseguem através das poças. Os passos começam a tentar acompanhar a velocidade das palavras. Palavras quaisquer. Não importa, são só p’ra abafar o silêncio que inquieta ainda mais.

Não se tocam. Nem mesmo seus ombros se esbarram. A distância entre eles é visivelmente proposital. Assim, não concordam quanto que direções tomar. Ele assume seu papel e aponta o lado escolhido. Ela segue.

Não sabem o que fazem. Nem o que devem fazer. Não sabem. Não fazem.

O que falta p’ra eles? Precisam que alguém os diga o que todos já sabem? Será preciso mostrar o que todos vêem?

Mas, o que eles vêem?

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Uma tarde de sábado. Um garoto e uma garota. Céu cinzento. Uma feira daquelas onde se encontra de tudo. Vento. Pingos de chuva que se atrasaram e chegam sozinhos. Um mirante numa torre. Fotos. Algodão-doce.

Braços que se cruzam. Ombros que se encolhem. Mãos que fogem para os bolsos. Olhos que se escondem por trás de camisetas, bonés, canecas. “Eu gravo sua mensagem num chaveiro na hora, é só escolher.”

Os pés desviam das poças, restos da água que há pouco parecia querer derrotar quem se atrevesse a caminhar sob ela. “Foi bom, diminuiu o calor que estava demais.” Palavras que saem como se viessem dos pensamentos de outras pessoas que não deles.

Um dedo indicador aponta a direção. Corpos que não se conhecem, não sabem andar lado a lado. Por vezes parecem querer seguir por lados opostos – talvez queiram. Os passos são medidos. Não há ritmo, só inércia.

Modo automático. Modo educado. Modo distante. Modo ausente em plena presença.

Friday, January 20, 2006

O começo da batalha

Existe um "ensinamento" mundialmente famoso: "Plante uma árvore. Escreva um livro. Tenha um filho." Resolvi segui-lo, fazendo pequenas adaptações, é claro. Ficou assim: "Aprenda um idioma esdrúxlo. Escreva um roteiro legal. Aprenda tudo o que puder sobre tudo o que quiser."

Estou decidida a (pelo menos tentar) aprender islandês. Vou passar a escrever as idéias que tenho, ao invés de abandoná-las no segundo dia. Vou ler, pesquisar, perguntar, descobrir o máximo que conseguir sobre coisas que me interessam (fotografia, arte, cinema, literatura,...).

Ok, sei que a qualquer momento o despertador vai tocar, vou acordar, encarar meu reflexo no espelho do banheiro e ainda não saber como se diz idiossincrasia em irlandês, nem como tirar uma foto mostrando a sombra de meus cílios sobre o rosto de alguém, nem como reconhecer um andante numa obra de Mozart, muito menos quais os temas preferidos de William Blake,...

Pior, nem preciso de um despertador, tenho a mim mesma! Sou o grande "lembrete" de que minhas chances são mínimas. Começa agora uma batalha entre eu e eu mesma! Infelizmente, não há torcida. Nem eu mesma acredito e torço por mim.

Nem minha mãe! Minhas últimas idéias não merecem mais do que um "Tá bom, filha" (dito no mesmo tom de "Sim, eu sei que você vai ganhar na loteria um dia. Agora, passa o controle da TV, vai.")

Vou aprender, conhecer, saber muitas novas coisas. Acredite se puder, Ana Carolina!

Toda essa confiança só vai ajudar...
"...þetta er ágætis byrjun"
(isso é um bom começo)

Thursday, January 05, 2006

Um site, eu descrita!

Hoje, sem querer, encontrei um site que me descreve. Ok, não só ME descreve, descreve muita gente.

Teoria Pedestáltica

Eu não sabia se ria ou chorava ao ler alguém, que nem sei quem é, narrar situações que já vivi, idéias e sensações que tive. Será que ele esteve me observando? Será que me ouviu falar sozinha p’ra saber tantas coisas?

As músicas citadas... Ai, ai. A cada quadradinho escuro eu ria mais. Tirando os que não gosto, U2 (eca) e Oasis (argh! A exceção: “Wonderwall”, eles tinham que fazer algo decente, não?), e Whitesnake, Maybees e algumas do Travis, do Radiohead e do Guns que não conhecia, eu já conhecia e ouvia todas. E me identifico com elas. Muito!

Ler esse site foi como ler páginas que nunca escrevi, percorrer parte da minha lista de mais tocadas, reviver dias e momentos que são exibidos continuamente em alguma sala de projeção na minha memória.

Quanto ao fim... Ainda não cheguei lá.

Tuesday, January 03, 2006

O que tem ecoado em mim

Bleh, tenho reflexões de ano novo, mas enquanto não as concluo deixo aqui algo que acho muito bonito.

Nothing Better - The Postal Service

Will someone please call a surgeon
Who can crack my ribs and repair this broken heart
That you're deserting for better company?
I can't accept that it's over...
I will block the door like a goalie tending the net
In the third quarter of a tied-game rivalry

So just say how to make it right
And I swear I'll do my best to comply

Tell me am I right to think that there could be nothing better
Than making you my bride and slowly growing old together

I feel I must interject here you're getting carried away feeling sorry for yourself
With these revisions and gaps in history
So let me help you remember.
I've made charts and graphs that should finally make it clear.
I've prepared a lecture on why I have to leave

- So please, back away and let me go
- I can't, my darling, I love you so...

Oh, oh

Tell me am I right to think that there could be nothing better
Than making you my bride and slowly growing old together
Don't you feed me lines about some idealistic future
Your heart won't heal right if you keep tearing out the sutures

I admit that I have made mistakes and I swear
I'll never wrong you again
You've got a lure I can't deny,
But you've had your chance so say goodbye
Say goodbye

Sunday, January 01, 2006

O último do ano

Maringá, 31 de dezembro de 2005 (4 da manhã)

Primeiras horas do último dia do ano. Como não consegui dormir optei pelo papel e pela caneta. Uma tentativa de voltar a escrever com certa frenqüência, recuperar minha válvula de escape.

"Oh, my heart can't carry much more
It's really, really aching and sore"*

Estou me acostumando a estar em Maringá e a idéia de voltar p'ra Brasília não se mostra muito tentadora. Aqui os dias têm passado sem eu nem perceber. Contribuindo para que eu consiga deixar de existir aos poucos.

É minha vontade atual (volúvel pouco, não?): desaparecer aos poucos, como o Michael J. Fox em "De Volta Para o Futuro", enquanto ele está tocando guitarra num baile, ou ainda como o cara no clipe do Cold Play, "God Put a Smile Upon Your Face".

Lembrando agora, por esses exemplos, desaparecer assim deve ser desesperador. Mas, sei lá. Do jeito que eu imagino é indolor e tranqüilo. Não é muito rápido e nem muito demorado. Conforme vou sumindo, vou me sentindo aliviada. Não paro p'ra pensar na minha vida mediocremente vivida (coisas que fiz, deixei de fazer; coisas que falei, que calei; "o beijo de amor que nunca roubei"; as confissões que só me deixaram mais vulnerável;... nada!). Não penso em nada. A cada parte que desaparece, meu sorriso se completa. É libertação.

Desde quando eu sou do tipo que deseja liberdade? Bleh, conceitos vazios. Por que vocês têm feito sentido p'ra mim?

Ah, falando em fazer sentido...
Tantas músicas, tantos versos que eu sempre achei lindos. Nunca quis que eles fizessem sentido, mas agora eles fazem.

"My heart don't beat like before
It's never been this slow"*

É tão bobo. Eu, já há algum tempo, deixei de esperar "p'ra sempre", entendi e aceitei que as coisas, as relações, os sentimentos mudam e até acabam. E agora estou aqui, lamentando uma mudança (ou será um fim?).


Pfff... Tanto tempo p'ra ter certeza do que sinto e agora... "Ops, hora de mudar"?!

A verdade é que já mudou. Só não sei o que, nem como, o que sobrou... Mas sei uma coisa: não quero passar mais tempo tentando entender, agora, esse novo sentir. Não dá, eu não vou agüentar se tiver que passar por isso de novo.

Bleh, p'ra que me preocupar com isso agora? Acredito que daqui uns dias (muitos talvez, mas já não conto os segundos) vou poder ver "a quantas" as coisas ficaram.

"But you couldn't care less, could you?"*


* "Couldn't Care Less" - The Cardigans

Thursday, December 29, 2005

Dating Ancient Ghosts

Dia 24 à noite, ceia de Natal com o velhinho, barbudo e barrugudo... Ok, ele emagreceu bastante e nem é tão velho assim. Papai. Bem, ao menos agora ele sabe que há uns 5 meses já não moro aqui em Maringá. Antes tarde que mais tarde, não?
Ele continua o mesmo: teimoso, repetitivo, relapso, sabichão, dono da verdade,... Não, não estou reclamando. Muito pelo contrário, essa é a imagem que tenho de pai. Ele ainda se encaixa nela. Bom ver que algumas coisas não mudam (ao menos as coisas que não precisam mudar).

Trabalho de História do Brasil 2 p’ra terminar até amanhã. Tudo bem, já escrevi umas 30 linhas. Uhuuu! “Que sucesso!”, diria Nanda. Mas, como posso fazer uma análise de um documento do período imperial estando de volta ao meu habitat natural?!

O apartamento no qual morei 213 dos meus 236 meses de vida. Estranhamente, ele parece menor, todos os cômodos parecem menores do que eram há 5 meses. Mesmo assim, tudo continua seguro, acolhedor, fofo. Os móveis (desenhados por mamãe) de madeira fresca e forte ainda são melhores que as cadeiras.
Subo nas estantes p’ra pegar livros. Lembro que precisava subir numa cadeira p’ra depois alcançar a primeira prateleira, achava alto e ainda tinha que me esticar muito, com perigo de cair de costas, p’ra conseguir pegar o exemplar que queria. A graça está: que livro será que eu aos 6, 7 anos poderia querer?! Seria Garcia Márquez ou Balzac?
Hoje, quando subi, quis consultar Poe. A altura já não me diverte, já nem considero altura mesmo. Tão decepcionante re-experimentar coisas que eram “sacos de risadas” e perceber que, como uma bexiga, esse saco se esvaziou.
Não quero mais bexigas! Quero uma bola de látex bem grosso e resistente. Daquelas que vemos em praias e ficamos com vontade de ter uma, mesmo tendo a certeza de que não brincaremos com ela em outras ocasiões. É, essas duram. Não nos divertem mas duram.

Bleh, o que é melhor: uma bexiga que aproveitamos ao máximo por saber que vai murchar ou bola de praia que dura mas não diverte? Quero os dois, essa é a verdade. Quero aproveitar cada fôlego da bexiga e depois poder contar com a duração da bola de praia.
Acho que é por isso que estou me sentindo tão bem aqui em Maringá: é minha bola de praia! Aqui descanso da sensação de fracasso por não estar aproveitando minha bexiga, Brasília.
Não estou tão bem assim... Pelo menos, não tanto quanto gostaria.
A cada porta desse apartamento tão seguro dou mais um passo em direção aos meus 16 anos. A cada cômodo lembro de um sonho que ficou esquecido em alguma gaveta que só agora volto a abrir; cada canto traz de volta as lembranças que me prendiam numa sensação que eu julgava ser boa; cada armário aberto me mergulha novamente em expectativas que me afogam;...
Lembro de quem eu era e o que esperava ser. Olho para o que me tornei. SOCOR.... NÃO! Não vou pedir socorro! Não vou gritar. Gritar p’ra quem? P’ra eles? Nem precisei gritar p’ra eles virem me encontrar.
Um pegou minha mão e o outro passou o braço por sobre meu ombro. Ah, que saudade de caminhar com essa “escolta”. Em poucos segundos já estamos caminhando pelas ruas de Florença, decidimos tomar sorvete naquela sorveteria perto de casa.
Lá um amigo e uma amiga nos encontram. Os cinco saem em direção ao cinema. Depois, lanchonete, bar e, muito mais tarde, casa. No dia seguinte, marcas de unhas nas costas e pescoços, risadas e confissões durante o café da manhã. À tarde saio p’ra caminhar aproveitando o frio do inverno e o vento que de tão gelado parece querer me lembrar de que estou viva.

...

- Carolina, vá dormir! – sem saber, com essa palavras minha mãe parou o vento, afastou o frio e me trouxe de volta.

É, foi só mais um sonho. Dos melhores, daqueles de olhos abertos. Já que “acordei” dele, vou dormir.

Fiquem bem

Sunday, December 18, 2005

Bloqueio criativo

Ai, ai... Arrumar mala dá tanta preguiça. Principalmente quando penso nas mais de 20 horas que vou passar no ônibus. Preciso fazer um curso de teletransporte. Urgente!

Comecei a escrever uma estorinha p'ra pôr aqui, mas pelo jeito vai virar uma macro-série com direito a anexos. O problema é escrever. Bloqueio criativo. Idéias presas na cabeça. Parecem formar uma animação digna da Pixar. Inclusive, eu fiquei muito fofa na versão animada. Só falta escrever as descrições, já que não sei desenhar e nem "animar".

Em todo caso... Amanhã, dor nas pernas. Terça-feira, caminhada pelas calçadas e ruas que conheço bem e que tanto fazem falta.

Fiquem bem... e, me passa a garrafa, por favor.

Friday, December 16, 2005

Parece tão familiar...

Hmmm... Isso me lembra alguém. Quem será? Bleh, deixa p'ra lá...

Erase/Rewind
(The Cardigans)

Hey, what did you hear me say
You know the difference it makes
What did you hear me say
Yes, I said it's fine before
But I don't think so no more
I said it's fine before

I've changed my mind I take it back
Erase and rewind
'Cause I've been changing my mind
I've changed my mind

So where did you see me go
It's not the right way, you know
Where did you see me go
No, it's not that I don't know
I just don't want it to grow
It's not that I don't know

I've changed my mind I take it back
Erase and rewind
'Cause I've been changing my mind

Erase and rewind
'Cause I've been changing my mind
(...)
I've changed my mind

Em todo caso, mini-ceia de Natal hoje à noite. Estou até esperando uma noite boa. Tomara...

Fiquem bem

Wednesday, December 14, 2005

Mulher com cabeça de homem

Ontem à noite “reencontrei”, via msn, um ex-colega de UEM. Trocamos frases educadas: como vai?; o que tem feito?; faz tempo que não nos falamos; que pena que você foi embora;...

Aí, surgiu o seguinte diálogo:

M: Tá passando em tudo?
A: Por enquanto ainda não saiu nenhum resultado, mas tem uma matéria que estou preocupada. A professora é exigente demais.
M: Você é inteligente.
A: Obrigada pelo elogio, mas você não conhece a mulher.
M: Nenhum homem conhece uma mulher.
A: Verdade! E nem as mulheres se conhecem. A gente só finge!
M: Por isso que eu sempre gostei de você, Ana. É um pena você ter ido embora. Você é muito verdadeira. Você é mulher com cabeça de homem. Mulher ideal para se casar.

Ok, ok, o resto da conversa foi de insinuações inocentes, promessas de casamento, lasagnas e alegria. Poupo-nos disso. Mas, citei a conversa porque acho muito engraçado como esses garotos me vêem.

Na verdade, são grupos diferentes: o que ficam impressionados, mas não querem me pegar; os que ficam assustados e, por isso, não me levam a sério; e os que ficam tão surpresos que acham que querem me pegar.

O 1º grupo: eles ficam impressionados por ouvir uma garota admitir que mulher é tudo bicho falso mesmo (“Até você, Ana?” “Sei ser bem mulher quando quero. Principalmente, perto de outra mulher – riso cínico”); que mulher faz coisas só p’ra chamar atenção (“Sim, rapazes, ela não mexe a colher no café daquele jeito por acaso. Ela sabia que vocês estavam olhando”); que mulher não sabe o que quer (“Querer, ela quer. Só não sabe o quê!”);... Esses rapazes, normalmente, acham que eu posso ajudá-los a entender as mulheres. Por favor, né? Só porque eu reconheço uma ou duas atitudes típicas não quer dizer que eu as entenda! Sou uma espécie de dicionário para o universo feminino tão estranho p’ra eles.

O 2º grupo: são os que me ouvem falar bobagens e acham que é tudo discurso. Ora feminista, ora lésbico, ora por falta do que fazer, ora só mais um de uma mal comida,... Bleh, rio com essas coisas. São esses que me acham muito chata, implicante, impaciente, intolerante, blá blá blá. Pois é, eles até me conhecem bem, mas através de impressões erradas. Não gostam de mim, por isso mal falam comigo. Oh, quase chorei por pensar nisso agora. Pfffff...

O 3º grupo: talvez o que mais me intriga, mas fica empatado com o primeiro no quesito diversão. Por ser um grupo ainda muito seleto, não tenho base o suficiente p’ra traçar um perfil detalhado (vejam bem, poucos são os que convivem comigo e ainda assim se atrevem). O que posso dizer é que só porque ouço, falo e respondo baixarias sem ficar vermelha, os garotos já acham que eu sou “diferente de todas as garotas que eu já conheci”. Viu, Maria Luiza? Eis o princípio básico p’ra minha teoria de conquista: não ser/agir como mulher. É tão incoerente que chega a ser hilário. Eles se interessem por mim exatamente pela minha falta de atitude “mulherística”. Fato este que só ajuda a minha teoria de que garotos que gostam de mim são gays em formação. Ai, vida, oh ironia...

A questão é: como é fácil parecer interessante a quem nos conhece pouco, não? Grandes méritos...

Fiquem bem


P.S.: Alguém aí gostaria de se casar com uma mulher com cabeça de homem ou um homem com cabeça de mulher? Hermafrodita, p'ra mim, só em livro de biologia, por favor!

Tuesday, December 13, 2005

Pequenos prazeres de atos maquinados

Chuva. Céu escuro. Chuva forte. Céu cinza. Chuva fininha. Pé-d'água. Eu caminhando. Ana Carolina, "Eu Te Amo". Gramado entre blocos. Crianças. Supermercado. Prateleiras. Brócolis. Pão. Sem colesterol. Frango. Coca-Cola. Caixa. Até dez volumes. Demora. Chuva fraca. Eu voltando. Maia Sharp, "Willing to Burn". Eu mudando de direção. Caminho mais longo. Wendy Rene, "After Laughter". Eu entre blocos que nem sei se são L,M,X ou Z. O CD acabou. Sacolas na mão esquerda. Abro a bolsa. Play. Brian Eno, "By This River". Chuva engrossa. Passos mais lentos. Droga. Cheguei.

Bolso direito. Molho de chaves nº1. Chave com formato mais reto. Portaria. Chave redonda. Correio. "Jornal do Senado". Mais um que ele não vai ler. P'ra mim? Nada. Nove degraus. Esquerda. Nove degraus. Primeira porta. Boliviana feia e sem educação grita com projeto de boliviano com menos educação ainda. Esquerda. Oito degraus. Esquerda. Oito degraus. Oba, dessa vez o DVD não é do Belo. Esquerda. Oito degraus. "Olá, queridos. Fazia tempo, não? Fiquem bem". Barulho leve de asas ainda mais leves. Mas, eles não voam. O casal continua na vidraça. Penas escuras, peito branco. Esquerda. Oito últimos degraus. 306. Uhuu! A pseudo-revoltada está ouvindo e gritando Marcelo D2, como sempre. 305. Molho de chaves nº1. Mão direita, chave dourada. Força o buraco meio emperrado. Chaveiro nº2. Mão esquerda, chave tetra. Entra no buraco meio emperrado. Empurrão com força. Porta meio presa. Tapete. Duas vezes pé direito. Duas vezes pé esquerdo. Entrei.

Monday, December 12, 2005

''In italiano"

Oggi mi sono svegliata “in italiano”. Per chè? Non lo so. Mi sono alzata e subito già estavo a urlare: “Non ti devi preoccupare, me la saprò cavare”.

Mi manca sentire qualcosa dolce come: l’anima, gli occhi, senza (non so dire perchè mi piace tanto una parola che sembra vuota), stringersi, dimenticarsi, riuscire, pioggia,... Sì, sì, so che non hanno mai detto qualcosa dolce a me, ma... Credo che il giorno di parlare e sentire si avvicina da me.

Mentre aspetto questo giorno, penso sul alcuni versi che sono “legati per non slegarsi mai” ai miei pensamenti:
(Vorrei che potestre sentire la pronuncia)

“C'è un tempo per i primi sospiri tesi insicuri,
finchè l'imbarazzo va via,
col sincronismo dei movimenti, coi gesti lenti
conosciuti solo in teoria,
come nelle favole,
fin sopra alle nuvole,
convinti che quell'istante durerà
da lì all'eternità
(…)
C'è un tempo per qualcosa sul viso, come un sorriso
che non c'era ieri e oggi c'è
sembrava ormai lontano e distante, perso per sempre,
invece è ritornato con te,
con te che fai battere
il cuore che fai vivere”

Lo Strano Percorso - 883

E, c’è ancora "La Mia Storia Tra Le Dita" di Gianlucca Grignani, ma... Non riesco scegliere i versi. Sono tutti perfetti!

“Ora che fai
Cerchi una scusa
Se vuoi andare, vai
Tanto di me
Non ti devi preoccupare
Ne la saprò cavvare
Stasera scriverò una canzone
Per soffocare dentro una esplosione
Senza pensare troppo alle parole
Parlerò di quel sorriso
Di chi ha già deciso
Quel sorriso che una volta
Mi ha aperto il paradiso”


Vocês não fazem idéia da dificuldade que tive p'ra escrever esse textículo. Seis meses sem aulas e já esqueci quase tudo. Hmmm... É... Ãh... Alguém aí vai apontar os vários erros que devo ter cometido? Vai ficar feio! Foi um tentativa de praticar, esquecer menos e... Bleh, nada de desculpas. Lembrar do mais novo lema: "le scuse puoi infilarle gentilmente dove preferisci tu". (T. Ferro)

Sunday, December 11, 2005

Cai um dos últimos pilares da resistência!

Pois é, até eu, minhas caras!

Diário. Nunca tive um. Quando era mais nova achava inútil perder tempo escrevendo sobre as coisas ao invés de vivê-las. Pensava: "Escrever sobre o quê? Já que escrevo e não vivo". Cresci, ou melhor, envelheci e percebi duas coisas: escrever é uma forma de se viver (uma das mais gostosas, inclusive) e nem sempre querer é o suficiente para se viver. Ah, o tempo traz coisas... E leva outras.

Quanto a blog minhas opiniões eram ainda piores: coisa de gente sem vida que tenta impressionar os amigos também sem vida; coisa de gente com mania de aparecer; a última tentativa de ter seus 15 minutos de fama; blá blá blá. É, ainda acho tudo isso, mas já tive oportunidade de encontrar agradáveis exceções a regra.

Não quero ser uma agradável exceção, não quero impressionar vocês (seres sem vida!), não busco meus minutos de fama (já os tive. Jô Soares em 2001! Pffffffff...). O que quero? - perguntinha recorrente, hein. Quero tentar me levar até vocês. E, se vocês aceitarem, vou ficar. Vou ficando até que canse e deixe de lado. Será mais um projeto abandonado. Mais um. Só.

Sem crises. Começo.

Fiquem bem (p'ra garantir que sou eu mesmo quem escreve)