Friday, February 29, 2008

10 - Wheel

O sol já se despedia de mais um dia e ela ainda passeava seus olhos ora pelo espaço entre as tiras de madeira, ora pelos seus dedos há muito dobrados sobre o toque da madeira, ora pela própria madeira. Pelo menos, era de um tom verde escuro pintado e não aquele marrom, que mesmo molhado, faz pensar em dias secos.

Aliás, havia chovido por alguns minutos. A grama deixava escapar o cheiro da terra molhada sob si, enquanto as nuvens davam ao sol apenas uma fresta para seu “adeus... até amanhã”. Alguns pingos de água resistiam em algumas tiras de madeira. Mas só nas que formavam o assento do banco, pois as que formavam o encosto já estavam secas após tantos deslizes de dedos.

A garota tinha visto o dia começar, o orvalho subir, o sol atingir o meio-dia, a chuva cair e cessar, e um vento suave ir e voltar algumas vezes. Agora, ela via o sol se render ao apelo da lua: a noite chegava. O ar estava um pouco frio, mas não tanto quanto os tecidos que a garota usava. Jeans, meias, camiseta e moletom molhados. Seu capuz verde nunca esteve tão pesado.

Era um meio tom entre a grama e as tiras de madeira. A garota achava engraçado: era uma quase camuflagem, mas sem chegar a misturá-la à paisagem. Mas ainda que a misturasse, o tanto que se mexia arruinaria o disfarce. Ah, a inquietação dos que querem ser encontrados...

E lá estava a garota. Encolhida atrás de um banco, sem conseguir uma posição que não incomodasse seu corpo: suas pernas doíam; suas costas já reuniam suas últimas forças para se manterem eretas; assim como seu pescoço parecia querer desistir de agüentar o peso da cabeça (aumentado pela água no capuz e no cabelo); sua testa e seus dedos já sentiam a textura da madeira mesmo quando não a tocavam. O único que parecia um pouco descansado era seu braço esquerdo que, agora, repousava sobre a mochila também úmida.

Ao contrário, seus olhos eram os mais cansados. Não só por causa dos movimentos de um lado para o outro mas, principalmente, por serem eles os que viam cada uma das pernas apressadas, cada um dos pés arrastados, todas as cabeças distraídas, os braços sincronizados que passavam sem notá-la. Todos os olhos que não pousavam nos seus.

Quando a luz do dia enfraqueceu, finalmente, os olhos passaram seu posto para os ouvidos; e uma nova vigília começou. Cada galho caído e pisado era uma expectativa... logo frustrada. A falta de luz veio acompanhada da falta de movimento, e o estalar das tiras de madeira se comprimindo era o que os ouvidos alcançavam.

A ausência de outro som deixou a garota ansiosa pelo novo dia – quem sabe ele não traria fim à espera? – com seus sons que a noite não tem. E ali a garota, que entrou numa brincadeira de esconde-esconde sem saber onde fica o pique e quem mais está brincando, ficou. Rendida ao cansaço, deitada na grama já menos molhada, com sua mochila fazendo as vezes de travesseiro, e acalentada pelo canto dos pássaros que soava em sua cabeça:

The birds will sing for us but we all die in the end

Friday, February 15, 2008

Feliz...


...dia de São Valentim p'ra todos!

Vá lá, um dia de atraso não é nada...

Wednesday, February 13, 2008

Terrorismo é uma coisa, estupidez é outra

Ricardo Araújo Pereira

Os serviços secretos de Espanha andam a brincar connosco. Há uns séculos, os espanhóis levaram uns bofetões de uma profissional da indústria da panificação, e não deve passar um dia em que não pensem na vingança. Na semana passada comunicaram-nos que a Al Qaeda ameaça praticar actos terroristas em Portugal. E nós, parvos, acreditámos. Até onde chega a credulidade dos portugueses... Primeiro acreditámos no Sócrates, e agora nos espanhóis. Há que aprender a lição.

Como é evidente, só um terrorista muito estúpido é que vem exercer a profissão para cá. Com a vigilância que existe, hoje em dia, nos aeroportos, os terroristas só podem entrar no País de carro. E vir andar de carro para as nossas estradas
é das decisões mais obtusas que uma pessoa pode tomar. É verdade
que eles são suicidas, mas não exageremos. Vai uma grande diferença entre ser suicida e ser burro.

Por outro lado, os terroristas que tiverem a infeliz ideia de entrar no País terão de construir a bomba cá. Não se faz uma viagem Paquistão-Portugal com um engenho explosivo debaixo do braço. Há que ir a uma loja comprar peças. E é aqui que as chatices começam. «Esta peça, só mandando vir do estrangeiro, chefe. Daqui a duas semanas mete-se o Carnaval, por isso agora só em Março.»

Se o explosivo levar combustível, pior ainda. Eles que vejam o preço a que está a nossa gasolina, a ver se continua a apetecer-lhes rebentar coisas. É muito fácil apanhar terroristas em Portugal. São os tipos de turbante que estão nas bombas da Galp a chorar. Os que lá andam a chorar sem turbante somos nós.

E depois temos as contingências inerentes a uma actividade tão perigosa como é o fabrico de um engenho explosivo. O terrorista corre inúmeros riscos, o maior dos quais é ir parar a um hospital português. Basicamente, o sistema de saúde português oferece-lhe três hipóteses: pode morrer no caminho, pode morrer na sala de espera e pode morrer já dentro do hospital. É certo que o esperam 71 virgens no Paraíso, mas aposto que, para morrer num hospital português, o terrorista fica em lista de espera até as virgens serem septuagenárias, altura em que a virgindade perde muito do seu encanto.

Quando, finalmente, os terroristas conseguem reunir condições para construir a bomba, o prédio que tinham planeado mandar pelos ares já explodiu há dois meses, ou por mau funcionamento da canalização do gás, ou porque o esquentador de quatro ou cinco condóminos está instalado na casa de banho. Portugal pode ser um bom destino turístico, mas para fazer terrorismo não tem condições nenhumas.

Friday, February 01, 2008

Gavetas - ou poços de desejos

Quando se limpa gavetas se encontra de tudo.

Entre cédulas de cruzados novos, cartões postais e telefônicos, fotos de pessoas de quem já nem lembro o nome, provas de ensino religioso e História da quinta série, livros da série “E Agora Você Decide” e cartas de “seu eterno amigo”, cuja amizade não durou mais que uma linha, encontrei algumas coisas que trouxeram aquele calorzinho gostoso no coração.

Há fotos que me dão a certeza de eu estar muito bonita hoje! – comparativamente há anos atrás... Estou um sucesso! Há sobras de minha fase pseudo-típica-adolescente-fã – eu coleciono e jogo fora. Sempre fui assim. O que me lembra que preciso reassistir ao “Adaptação” de Charlie Kaufman. Há, também, provas do alto consumo de Bollycao entre eu e meus irmãos – adesivos, álbuns, brindes... tudo vinha dentro do pacote, junto com os quatro pãezinhos recheados com chocolate. Supernutritivo!

Mas as lembranças mais interessantes aparecem em forma de papel: um bilhete, uma carta e um rascunho de discurso.

O Bruno vai mesmo repetir? Nem sei, mas acho q/ ele só passa por conselho de classe. Então, ele vai ficar pra trás. Não chora. Você vai ter que aprender a viver sem ele. Há Há, eu só perguntei pq ele tá c/ cara de burro. A cara de burro é a mesma de sempre. Ele pra burro só falta asa. (...) Tem um monte de gente para se falar mal, pegue uma. (...) To com fominha! Eu to com fomona. E muito sono.

Minutos depois, encontrei uma carta que, cronologicamente vem antes, mas não tem problema.

Ana,
Muito obrigada pela sua amizade sempre tão sincera, pelas muitas vezes em que você me estendeu sua mão e me emprestou seu ombro.
(...)Acredito que a única razão de eu ter me mudado foi pra te encontrar(...)
Por tudo isso, eu te agradeço do fundo do meu coração e da minha alma.
(...)E quero que você lembre disso; quando estiver triste ou precisando de um amigo saiba que estarei sempre ao seu lado, mesmo que distante estarei lá para você. Nunca irei te abandonar.
Parabéns pelo canudo. Feliz Natal e um ótimo Ano Novo!!!

E mais uma vez Muito Obrigada
Com muito amor,
Gláucia
14/12/200

Vocês podem achar que é só uma carta fofa entre meninas de quatorze anos, mas... Tentem imaginar uma folha com Frajola e Piu-Piu desenhados no canto inferior direito, e todas as palavras escritas uma letra em rosa e a seguinte em dourado (TODAS as palavras!).

Não é só uma carta de uma menina p’ra outra. É algo feito pela Gláucia. É uma daquelas coisas que se eu visse em qualquer lugar, acharia “coisa de menininha”. Mas quando vem da Gláucia... Droga, eu acho lindo!

O que me leva ao rascunho do discurso que fiz à mesa, no jantar de baile de formatura do terceiro ano do ensino médio.

“Ai,... meu... Deus! Putz, ela vai falar de mim. Que fracassada”Você é a mais pura das pessoas que conheço, o mundo é tão bonito quando descrito por você. Você é aquela pessoa que vê beleza nas coisas, aquela que acha tudo bonitinho, fofinho, uma gracinha... Se o mundo tivesse um cagagéssimo da beleza que você tem, eu não seria tão amarga quanto sou. Você faz comentários ótimos, você é engraçada – algo que não é de família, como podemos perceber. Você é inteligente, talentosa e insegura. E por tudo isso, e também por você ser a mais nova defensora de Maringá, eu amo você. P’ra terminar, a já clássica e ainda significativa frase que é só nossa: nunca estamos sozinhos quando sabemos que ocupamos um lugar no coração de alguém

-x-

Puta meu! A primeira vez que te vi, pensei: “Pai Eterno! Essa menina tem tudo que eu mais abomino”. Aí, eu te conheci e não mudei de idéia. Agora falando sério. Eu nunca imaginei que eu fosse ser amiga de alguém tão, tão, tão... Barbie. Mas, quem mandou cuspir p’ra cima? Você é aquele lado desequilibrado que todo mundo tem, só que ao extremo. Você é fresca – mais que eu, você é frágil – mais que eu, você é anti-social – menos que eu, você tem uma coração enorme – muito maior que o meu, e é muito talentosa. E pelo conjunto da obra: eu te amo. Eu nunca quero fazer pacto de sangue com ninguém. Não porque vocês são especiais, mas porque dói muito. Minhas irmãs.


Pois é, tão bobo. Tão pouco. (E tão injusto com a Gláucia! Desculpe, querida!)

Limpar a casa é chato. Esvaziar gavetas é muito chato. Mas ajuda a lembrar.
Lembrar quem éramos, quem passamos a ser (graças a esses pedacinhos de papel e às pessoas que estão neles) e quem queríamos ser. São peças que montam quem quero ser.

Quero o abraço (com grito e tudo) da Gláucia, depois de quase um ano sem nos vermos; dias regidos pela risada de Coca-Cola da Nanda; tardes de “relembrar é viver – e chorar de rir”, seguidas de sonhos com o futuro – do qual não riremos tanto, porque não haverá outros tempos tão ridículos quanto os que deixamos p’ra trás.

Quero noites num playground, olhando as estrelas e ouvindo o mar, enquanto o resto do mundo corre atrás das horas, tentando “aproveitar ao máximo”; quero manhãs, num carro às cinco horas, de relatos de vitórias e fracassos que cabem numa noite – músicas, bebidas, lugares, bocas e línguas; quero tardes no sofá da sala de TV, com conversas interrompidas pelo velho companheiro, o sono da Gláucia.

Quero as estampas de camisetas, os filmes e as vidas que faremos juntas.

Quero a vida com vocês...