Tuesday, February 28, 2006

Só mais cinco minutinhos, por favor

Noite de domingo de Carnaval. Enrolei o máximo que pude p'ra já chegar na cama muito cansada. Deu certo, dormi logo.

Estava uma confusão! Acho que era uma gincana no colégio ou, pelo menos, com pessoas da minha época de colégio. O prédio não era muito alto, uma construção antiga. Eu estava no segundo piso, mas cada piso tinha muito mais altura do que os andares dos prédios de hoje. O amarelo das paredes se soltavam como pele que descasca depois do verão. Eu olhei por uma janela, um jardim. Grande e quadrado.

De repente, já estava num cômodo qualquer que parecia um quarto de hotel. Com certeza não era o mesmo prédio. Eu, uma colega (que parece ter saído da gincana e chegado nesse novo lugar comigo), o Jorge e ela.

Nem lembro sobre o que falávamos, só sei que entre desconversas e sorrisos cheios de "pára-com-isso-que-eu-sou-tímida", percebi o jeito que ela me olhava.

"Last night I dreamt
That somebody loved me"

Ela me via! Não só me olhava, mas me enxergava! Ah, que vontade de ficar naquele olhar. Ficar e só. Ela também percebia em meus olhos o olhar de "quero ficar e só, mas não sei se posso", e ainda assim sorria.

Eu havia me jogado na cama como se ali eu pudesse existir entre ficar e só e nem sequer ficar. Mas, a súbita ausência de Jorge e minha colega dificultou ainda mais meu plano de fugir dos olhos dela.

Sorrindo, vinha em minha direção. Seus cachos se mexiam em câmera lenta. Vermelhos. Sua pele era um convite, quase uma intimação as minhas mãos. Branca.

"Last night I felt
Warm arms around me"

Acordei...

"No hope, no harm
Just another false alarm"

Ah, Morrissey, sing me to sleep! I'll hide from her voice in yours...

Tuesday, February 21, 2006

Tyche p'ra que te quero...

GANHEI!!! GANHEI!!! GANHEI!!!

Pela primeira vez na vida, ganhei alguma coisa em uma promoção! É lindo!

Veja bem, sou de uma família na qual as pessoas participam de bingos com prêmios como televisões e filhotes de cachorros de raça, e ganham um cabide p’ra chapéus e casacos. Sabe como é? Daqueles de colocar junto à ponta. Pois é, eis minha sorte...
Mas, agora esse cenário parece ter mudado. Tyche passou para o meu lado! (Ai, o pedantismo, Ana Carolina...)

E foi tão simples! Só precisei responder duas perguntas: “To which legendary Clare musician has the tune ‘The Otter's Holt’ been attributed to?” e “Which uilleann piper earned the nickname ‘The King of the Pipers’?”

Ah, não se iluda caro leitor (caso você exista, é claro)! P’ra cada pergunta havia três alternativas. E eu, isxperrrrrrta que sou, respondi três vezes, cada vez registrando um e-mail e uma resposta diferente. Momento ideal p’ra citar Sr. Eurípedes Resende: “Sô trôxa? Num sô trôxa!”

Se bem que, eu ainda não recebi o prêmio, o CD "Courtin' the Ginger Lady" da banda King Laoghaire. Por enquanto foi só o e-mail pedindo p’ra eu informar meu endereço p’ra envio.

Só falta eu receber outro e-mail: “Querida, se tu pagar o frete, o prêmio é teu!”


Ah, caso tenha ficado curioso:
1ª Junior Crehan
2ª Leo Rowsome

Monday, February 20, 2006

Turned down serenading fool

"Eu só queria distância da nossa distâcia
Saí por aí procurando uma contramão
Acabei chegando na sua rua
(...)
Atirei uma pedra na sua janela
E logo correndo me arrependi
Foi o medo de te acertar
Mas era pra te acertar
E disso eu quase me esqueci
Atirei outra pedra na sua janela
Uma que não fez o menor ruído
Não quebrou, não rachou, não deu em nada"
("É Mágoa", Ana Carolina)

Eu preocupada em não lhe acertar e nem quebrar o vidro. P’ra quê? Minhas pedras não fazem sequer barulho p’ra você.

Agora, já não tenho mais pedras. Atirei todas que tinha. Se você olhar o chão junto à sua janela, verá um monte delas.

Bleh, você já deve ter visto...

Saturday, February 18, 2006

Sabadão gostoso...

Dois mil e seis. Fevereiro. Dezoito. Sábado. Que beleza!

Uma daquelas noites em que "vanish into oblivion it's easy to do". So easy! Talvez eu devesse recorrer a Johnny Walker Red também.

Vanishing into oblivion...

Ainda assim, estou empolgada. Na próxima quinta-feira embarco em busca de minha sanidade, em busca de mim mesma. Sempre que perco a direção e me esqueço pelo caminho, sei bem onde me reencontrar. É p'ra lá que estou indo!

Ansiedade. Quero tanto fazer desses dias os melhores que vocês poderão ter ao meu lado que acho que p'ra isso terei que saber falar sobre óperas de Verdi, aprender a sapatear, imitar o Pato Donald e comer 15 cachorrões em dois minutos!

Ahá, já viram o que NÃO farei com vocês, né? Viram, não será tão ruim assim.

...

Deus existe! Dias após escrever aquela bobagem de "SAC divino", encontrei uma música por acaso: John Mayer cantando "Lover, You Should Have Come Over". John Mayer cantando Jeff Buckley num show! O mais interessante é que ele diz que tinha prometido a si mesmo nunca fazer isso. Maior prova que essa só se eu estivesse nesse show. Taí, coisa que nunca vai acontecer, né?

Mick Jagger, seu namorado Keith Richards e os outros dois divertem milhões. John me chama, a gravidade me puxa p'ra baixo. Tento me segurar com o máximo de força possível com meus braços envolta de seu pescoço. Ah, gravidade, leave me be!

Já nem sei se ainda estou escorregando ou se já me acostumei a essa sensação.

Ana Carolina, já disse p'ra você só assistir "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" quando estiver bem!

Sunday, February 12, 2006

Revisão sobre mim mesma

Ontem reli as postagens que já coloquei aqui e cartas e textos inacabamos de meses, anos atrás. Sem dúvida essa última, "SAC Divino", é a pior de todas. Mas, no geral não sei dizer o que acho de minhas palavras.

Ora penso que algumas das minhas frases são daquelas que eu iria adorar encontrar em algum livro; ora elas soam como pedantes, piegas, previsíveis, comuns, "mamãe, quero ser fofa", "mamãe, quero ser querida", "mamãe, eu me acho talentosa"... Mamãe, me tira daqui?

Além disso, achei bem patético perceber que não consigo escrever sobre outra coisa a não ser EU mesma (coisa que estou fazendo nesse exato momento. Tsic, tsic, tsic...). Mesmo quando não sou uma das personagens, eu estou lá: em gestos, manias, preferências, sonhos. Fica ainda pior quando tento inventar personagens. Parto de algo que aconteceu comigo com a intenção de, pelo menos na ficção, tomar decisões diferentes, mas acabo com a reprodução dos fatos mascarada por nomes quaisquer.

Glau disse que eu deveria escrever um livro, eu argumentei que não tenho talento e nem disciplina p'ra tal e ainda disse que não há nada demais no que escrevo porque são só formas de contar coisas tolas dos meus dias, não são grandes idéias, são só transcrições. Ela disse algo legal sobre isso ser uma coisa boa, ela quase me convenceu (quase porque sou muito teimosa) de que coisas da vida são as melhores idéias p'ra se escrever algo.

Gostaria de lembrar o que foi que ela disse...

Wednesday, February 08, 2006

SAC divino

- Para saber seu saldo, tecle 1; para obter informações sobre os serviços oferecidos, tecle 2; ou então aguarde na linha para falar com um de nossos atendentes. (...) Sua ligação está sendo transferida, em breve um de nossos atendentes vai estar falando com você. A paciência é uma virtude, lembre-se do exemplo dado por Jó.

“Pelos prados e campinas verdejantes eu vou
É o Senhor que me leva a descansar”

- Tenha calma, no momento todos nossos atendentes estão ocupados. Tão logo uma das linhas esteja ficando disponível, você estará sendo atendido. Não perca a paciência para não acabar como Maria Madalena... arrependida.

“Juntos às fontes de águas puras repousantes eu vou
Minhas forças o Senhor vai animar”

- Aguarde um momento, sua ligação estará sendo atendida em breve. Isabel aguardou muito mais tempo até finalmente engravidar.

“Tu és, Senhor, o meu pastor
Por isso nada em minha vida faltará”


- Bom dia, no quê posso estar ajudando?
- Bom dia, eu gostaria de falar com o Chefe.
- Desculpe?
- Por favor, passa minha ligação para Ele, o Senhor. Quero falar direto com Ele.
- No momento Ele se encontra muito ocupado, a senhora não pode estar falando p’ra mim qual é o problema?
- Poder, eu até posso, mas não fará diferença. É sobre um pedido. E é só Ele quem pode resolver. Por favor, passe minha ligação.
- Ele é, como a senhora bem sabe, muito ocupado e...
- Mas, é urgente.
- Sim, senhora, imagino. Todas as ligações são.
- Eu sei que todos devem dizer isso, mas é urgente mesmo.
- Com quem eu falo, por favor?
- Com a filha D’Ele!
- Sim, todos somos, querida.
- Ah, será que você não entende que...

- Minha filha, o que está acontecendo?
- Ãh, alô?
- Pois diga, minha filha, o que é tão urgente assim?
- O Senhor veio me atender mesmo...
- Claro! Quando ouvi que era você quem me chamava, vim correndo. Você me chamar depois de tanto tempo, só pode ser urgente mesmo. Diga, estou lhe ouvindo.
- Bem, é sobre um pedido que fiz.
- Entregaram errado? Recebeu o pedido de outra pessoa?
- Não, não. Na verdade, não é UM pedido, são pedidos acumulados.
- Entendo, entendo... Você, pelo jeito, ligou p’ra reclamar desde a pasta de dente que sempre quis, quando criança, mas nunca pôde usar, até o formato das suas coxas e seu quadril. Hunf...
- Não, não vou tão longe assim. Mas, é melhor não me dar idéias.
- E preciso dar?...
- É o seguinte: eu acho que nunca pedi demais, nunca pedi algo tão difícil assim. Nem mesmo pedi p’ra ganhar nas vezes em que joguei na loteria! Uma pessoa a menos, numa fila de milhões, eu sei. Mas, já era uma a menos.
- Sim, eu a...
- Então, pedidos simples, muitos eram de manutenção e não de grandes reviravoltas.
- Sim, a...
- Mas, já não consigo mais engolir quieta. Dessa vez vou reclamar!
- Dessa vez?! Que vez, minha cara? Há muito você não me pede algo, há muito você deixou de se voltar a mim. Você costumava reservar pelo menos alguns minutos p’ra mim todas as noites, antes de dormir, mas faz tempo que...
- Não, não, não. Eu não deixei de procurar o Senhor, muito pelo contrário: eu percebi que não preciso pedir licença p’ra Lhe falar, não preciso anunciar a conversa,...
- Sim, isso é muito bom, minha filha. Mas, mesmo assim,...
- Eu percebi que não preciso de gestos involuntários, palavras decoradas, pedidos e confissões prontas,...
- Muito bem, mas você partiu de um extremo para outro: de repetições ao silêncio.
- Será possível que o Senhor, onisciente, não tenha percebido minhas palavras, meus sinais? Aquele pedido que fiz a uma estrela cadente em 1998, o Senhor se lembra? Poucas horas depois de eu ter quase morrido afogada naquela represa, pois é, eu achei que ia morrer. Mais tarde, mais calma, eu estava olhando o céu daquela noite, talvez a mais bonita que já vi. Eram tantas estrelas que não dava p’ra fixar os olhos num pedaço de céu, havia a vontade de não perder nenhuma luzinha sequer. Cada vez que olhava p’ra uma das muitas, milhares de estrelas, enxergava que ao lado havia outras, e outras e outras. Quanto mais eu via, mais queria ver. No carro, voltando p’ra casa, vi a estrela cadente. Lembrei ter ouvido falar que, ao vermos uma, temos direito a um pedido. Assim fiz. Fechei meus olhos, para não ser distraída pelos muitos pontinhos que ainda brilhavam como se quisessem minha atenção, e pedi. Não foi à estrela que pedi. Apesar de encantada por seu rastro de fogo, não foi com ela que falei.
- Ah, minha filha, eu ouvi sua voz!
- Ouviu? E por acaso não entendeu o pedido?
- Querida, não é assim...
- E todas as vezes em que fiz pedidos, disputando na sorte com alguém, com cílios nas pontas do dedos? Foi ao Senhor....
- Filha, ouça...
- Ah, quer saber? Estamos conversando diretamente agora, não tem desculpa p’ra não me ouvir ou não entender: não foram só os pedidos, que mesmo repetidos não foram atendidos, foram as conversas. Assim como Bilac, converso com as estrelas; vou além, inclusive, converso com tudo que desperta meu espanto, tudo que prende meus olhos, pois sei que é nessas coisas que posso Lhe achar.
- É isso mesmo!
- Conversas que, ao que parece, só foram prazerosas a um dos envolvidos. Tentei ser paciente, mas não dá. Eu quero meu pedido realizado! Também quero a viagem com as amigas, um precipício, a aurora boreal, o sol da meia-noite, lomos – várias, show do John Mayer (e ele tocando cover do Jeff Buckley, hein!), uma música composta p’ra mim,... Vou apelar: quero mico-leão dourado fora da lista de animais em perigo de extinção, quero o fim da fome no mundo,... E quando estiver cuidando do desenvolvimento e adaptações das espécies, trate de fazer com que os aranhas tenham um veneno imediato. Odeio ver insetos agonizando nas teias!

Friday, February 03, 2006

Escrevi p'ra você

- Ah, mãe, ver fotos é nossa tradição de aniversário. Uma foto p’ra cada ano de vida, eu tomo cuidado p’ra não serem sempre as mesmas. Por que você reclama todo ano?
- Por que você sempre dá um jeito de reforçar que estou ficando ainda mais velha?
- Quanto mais velha melhor: mais anos de vida, mais fotos tiradas, mais fotos p’ra vermos, menos chances de repetirmos alguma.
- Pois é, como já estou chegando aos 70, haja fotos...
- E essa, mãe, quem é?
- Ah, essa é a Ana. Nossa, a Ana... O que será que aconteceu com ela?




Hoje tenho 40 anos. Confesso que nunca tive certeza de que chegaria até aqui. Nunca tive comportamentos que comprometessem minha saúde (nada de cigarros, drogas, bebida em excesso, promiscuidade descuidada) mas, também não posso dizer que me esforcei para cuidar dela.

Num primeiro momento achei que seria difícil demais resumir os meus últimos 20 anos, mas agora, sentada com o teclado a minha frente, com as letras ao meu alcance, vejo que poucas palavras bastarão. Esses 20 anos foram como os 20 primeiros: por vezes, vazios.

Terminei a faculdade, do mesmo jeito que comecei: frustrada e torcendo pelo dia em que ia encontrar algo que despertasse paixão. Ela chegou, a paixão que tenho até hoje; na verdade, ela já tinha chegado mesmo antes, eu é que não tinha percebido. Só percebi seus sintomas depois de me formar, quando pude ter mais contato, mais informações sobre tudo o que sempre achei interessante e acreditava que encontraria na faculdade.

A faculdade: overrated, so overrated! Onde estavam os grandes amigos que faria? E as melhores festas da minha vida? (Bleh, nunca fui muito boa com festas mesmo). As grandes descobertas e experiências? Será que esconde-esconde era uma parte da graça?!

Foi normal – ainda se lembra do valor que normal tem p’ra mim? – normal até demais. Cinco anos pensando: “O que estou fazendo aqui mesmo?”

Ah, mas essa pergunta é a minha essência. Só pode ser. Depois de tanto tempo, afinal são 40 anos, é ela ainda que me persegue e, de um jeito às vezes torturante, me faz continuar.

Desculpe, perdi a linha de raciocínio. Falava de faculdade e de paixão.

Saí da faculdade e fui estudar História da Arte. Pois é, finalmente. Consegui uma especialização em Florença e por aqui fiquei. Foi aí que percebi a paixão. Meus dias se resumiam a leitura, pesquisa e observação de afrescos, esculturas, manuscritos; mas eu não me cansava, não sentia falta de outra coisa. Acho que me tornei uma daquelas especialistas chatas (redundância?) que só pensam, falam, vivem uma coisa e nem percebem.

Não demorou muito até que a euforia passasse. Como em toda paixão, o tesão inicial se acalmou e eu voltei a ter outras coisas na cabeça além das mulheres de Delacroix, os homens de Michelangelo e os trituradores de vacas de Leonardo da Vinci.

A essa altura, eu já trabalhava na La Galleria degli Uffizi. É maravilhoso, o ambiente de um museu me comove mais do que sebos, livrarias e cinemas. E trabalhar cercada por Caravaggio, Leonardo da Vinci, El Greco, Raffaello Sanzio (que me ganhou quando eu tinha apenas 11 aninhos; foi “Il Primo Bacio”, o meu primeiro), e tantos outros... Não há palavras.

Inclusive, por mais clichê que pareça, foi diante de “A Primavera”, de Botticelli, que conheci Ian. Era meu horário de almoço e, como de costume, comi rapidinho p’ra aproveitar o resto do tempo olhando p’ra uma obra. Já estava sentada, sozinha, em silêncio, admirando, por uns 30 minutos quando percebi que não era impressão minha, havia mesmo alguém ao meu lado. Era ele. Também sentado, sozinho, calado e absorvido.

Enxerguei-o de canto de olho, não conseguia desviar meus olhos da parede, até:
- Ela vai jogar suas pétalas sobre nós, não? - tive que olhá-lo.
- Vai, e elas vão nos chamar p’ra participar da dança.

Nossa, isso foi há quase 16 anos. Nem sei dizer como ou o quê aconteceu, mas agora mesmo, enquanto escrevo no quarto, posso ouvi-lo ao piano, na sala, tocando a música que compôs logo que viemos morar juntos. É a sua canção preferida p’ra dias de tranqüila falta de obrigações, de calma oportunidade de se aproveitar o dia.

Caso acreditasse em sorte diria que foi isso que trouxe Ian até mim. E já se foram 15 anos. Como você pode imaginar, esses anos de convivência não foram ininterruptos, mas quem diria? A maior parte dos méritos é dele. Metade da menor parte dos méritos é minha, a outra metade é da felicidade de concordarmos nas coisas essenciais de um relacionamento.

De novo, me desviei do assunto. Falava do meu trabalho.

Comecei como assistente de assistente, cheguei a curadora de exposições em parcerias, em galerias pequenas. Você precisava ter visto a exposição de Havaianas que fizemos. Sim, as legítimas! Foi uma exposição de calçados pelo mundo.

Lá estavam os clichês como aquele sapatinho japonês que atrofiava os pés das mocinhas; os tamancos holandeses; as botas com correntes que impedem escorregões no gelo da Rússia; tênis que, bem, nem preciso dizer que dominaram o planeta, né? E numa sala exclusiva, elas, as Havaianas. Tá, eu nunca fui muito fã delas (sempre arrebentava ou tropeçava, ou as duas coisas), mas não posso negar que elas carregam a marca de um país, os traços de uma maneira de vida. Foi divertido.

Fizemos também uma exposição muito legal, “Sentidos”. O nome ficou parecendo uma daquelas coisas pós-modernas ou, pior, reportagem especial do Fantástico, mas a idéia, sem falsa modéstia, foi boa: uma exposição que mexesse com mais de um sentido.

Dividimos um pequeno galpão em espaços, cada um foi decorado, climatizado e aromatizado de um jeito. Em cada um, fotos sobre um mesmo tema, uma temperatura, um cheiro e uma música sendo tocada.

Numa das “salas”, logo ao entrar sentia-se o frio de uma manhã de neve fraca caindo e o cheiro de pinheiros úmidos, e viam-se duas fotos ocupando toda uma parede, deixando as imagens pouco maior que a cena original. Nas duas fotos, que tinham aquele tom azulado que o frio tem, havia um rapaz numa plataforma de trem.

Numa o rapaz aparece de costas e nem sinais restam do trem. Percebe-se que há muito havia partido. Na outra, o rapaz de frente, seus olhos úmidos estão presos a algo já muito distante e seus braços caídos de qualquer jeito parecem deixar rastros de um “tchau” sofrido e ainda não convencido.

Seu rosto é da brancura que o inverno nos dá; seu nariz, um pouco vermelho, é a única parte que ainda parece viva nesse rosto. Sua pele morta sem sangue, seus olhos sem vida com lágrimas. O aroma dos pinheiros nos aproximava do frio. O frio trazia essa despedida para nosso corpo enquanto, no centro da sala, Ian tocava piano e cantava uma de suas músicas.

“tanto quanto o adeus é inevitável
é minha vontade de tentar”


Uma pena você não ter visto, gostaria de ter ouvido sua opinião. No dia de abertura da exposição voltei a tentar o velho truque da comunicação por telepatia. Não demorou muito p’ra que eu lembrar que ele nunca funcionou.

E não foi só nesse dia que lembrei de você. Foram muitos dias em que desejei ouvir um comentário seu, muitas as coisas que quis dividir com você. Comecei por dizer que esses 20 anos foram vazios por vezes, mas o vazio veio de você. Ou melhor, da falta de você.

Tantas coisas que eu quis contar, mostrar. Tantas conquistas, tantos fracassos. Estudos, trabalhos, exposições, mudanças, projetos, fotos, músicas, filmes, dias, anos. Imagino que você também deve ter passado por muitas coisas das quais eu gostaria de ter feito parte.

Por que mesmo você deixou de fazer parte dos meus dias?

Há um texto de muitos anos atrás, que circulou pela internet, no qual um soldado pede permissão para ir a procura de um amigo seu, ferido em combate. Mesmo sem a autorização de seu superior, o rapaz vai. Quando ele encontra seu já agonizante amigo só há tempo de ouvir “Eu sabia que você viria”.

Gostaria de poder dizer que é por isso que escrevo, mas caso o fizesse estaria fingindo uma confiança que não tenho. Não sei se você virá. Só espero que venha. Após tanto tempo, só me resta a mesma coisa: esperar.

Florença, 20 de julho de 2026