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Friday, February 29, 2008

10 - Wheel

O sol já se despedia de mais um dia e ela ainda passeava seus olhos ora pelo espaço entre as tiras de madeira, ora pelos seus dedos há muito dobrados sobre o toque da madeira, ora pela própria madeira. Pelo menos, era de um tom verde escuro pintado e não aquele marrom, que mesmo molhado, faz pensar em dias secos.

Aliás, havia chovido por alguns minutos. A grama deixava escapar o cheiro da terra molhada sob si, enquanto as nuvens davam ao sol apenas uma fresta para seu “adeus... até amanhã”. Alguns pingos de água resistiam em algumas tiras de madeira. Mas só nas que formavam o assento do banco, pois as que formavam o encosto já estavam secas após tantos deslizes de dedos.

A garota tinha visto o dia começar, o orvalho subir, o sol atingir o meio-dia, a chuva cair e cessar, e um vento suave ir e voltar algumas vezes. Agora, ela via o sol se render ao apelo da lua: a noite chegava. O ar estava um pouco frio, mas não tanto quanto os tecidos que a garota usava. Jeans, meias, camiseta e moletom molhados. Seu capuz verde nunca esteve tão pesado.

Era um meio tom entre a grama e as tiras de madeira. A garota achava engraçado: era uma quase camuflagem, mas sem chegar a misturá-la à paisagem. Mas ainda que a misturasse, o tanto que se mexia arruinaria o disfarce. Ah, a inquietação dos que querem ser encontrados...

E lá estava a garota. Encolhida atrás de um banco, sem conseguir uma posição que não incomodasse seu corpo: suas pernas doíam; suas costas já reuniam suas últimas forças para se manterem eretas; assim como seu pescoço parecia querer desistir de agüentar o peso da cabeça (aumentado pela água no capuz e no cabelo); sua testa e seus dedos já sentiam a textura da madeira mesmo quando não a tocavam. O único que parecia um pouco descansado era seu braço esquerdo que, agora, repousava sobre a mochila também úmida.

Ao contrário, seus olhos eram os mais cansados. Não só por causa dos movimentos de um lado para o outro mas, principalmente, por serem eles os que viam cada uma das pernas apressadas, cada um dos pés arrastados, todas as cabeças distraídas, os braços sincronizados que passavam sem notá-la. Todos os olhos que não pousavam nos seus.

Quando a luz do dia enfraqueceu, finalmente, os olhos passaram seu posto para os ouvidos; e uma nova vigília começou. Cada galho caído e pisado era uma expectativa... logo frustrada. A falta de luz veio acompanhada da falta de movimento, e o estalar das tiras de madeira se comprimindo era o que os ouvidos alcançavam.

A ausência de outro som deixou a garota ansiosa pelo novo dia – quem sabe ele não traria fim à espera? – com seus sons que a noite não tem. E ali a garota, que entrou numa brincadeira de esconde-esconde sem saber onde fica o pique e quem mais está brincando, ficou. Rendida ao cansaço, deitada na grama já menos molhada, com sua mochila fazendo as vezes de travesseiro, e acalentada pelo canto dos pássaros que soava em sua cabeça:

The birds will sing for us but we all die in the end

Tuesday, January 22, 2008

Confissão .1

Tínhamos passado a manhã e a tarde dentro do colégio. Durante o dia, vimos passar os mesmos rostos que passavam na época em que eu estudava por lá. Já à noite, só restávamos nós duas. Nem sei quem ela era. Só sei que estava comigo, nesse dia tão estranho.

O mais estranho em relação a esse dia é que ele só entrou na minha memória, só foi adicionado aos arquivos de minha lembranças quando eu me forcei a lembrá-lo, dias depois. Quando percebi que havia uma lacuna. Faltavam todo um dia e algumas horas antes e depois dele.

Eu sabia qual era o dia e, mais, eu sabia o que eu tinha feito. Eu a tinha matado. Sabia até como – estrangulada com um cadarço vermelho. Mas não me lembrava. Fechava os olhos e não conseguia me ver apertando o fio cor-sangue. Muito menos enxergava o porquê de tê-lo feito.

Foi quando meu irmão quis me provocar, “Aproveita e leva o seu cadarço p’ra polícia examinar”, que senti meu coração chegar ao estômago. A culpa vinha doendo fraca, mas as palavras dele (que nem sabia que havia acertado) me fizeram achar a lacuna e, nela, a culpa cresceu.

Eu precisava lembrar, precisava saber o que havia me levado a matar aquela garota. Aquela que nem sei quem era.


O prédio em formato de L, com suas paredes revestidas com pastilhas onduladas, num tom de amarelo anêmico. À noite, o lugar tinha ainda menos vida. A iluminação era digna de cena de reconstituição de crime em seriados investigativos. Ao invés do concreto frio, o pátio tinha areia misturada com terra – não sei como ou por quê.

Eu sabia dizer quem havia estado ali horas antes conosco, ainda tinha seus rostos na lembrança tão recente e me sentia indiferente a eles. Eu estava com ela. Quem era ela afinal? Ela que caminhava comigo, no escuro e no silêncio, pelas minhas lembranças. Mesmo sem tê-las vivido, ela se lembrava comigo. E o silêncio que ajudava a manter tornava desnecessárias as palavras.

Caminhávamos sem precisar combinar a direção. Estávamos em sincronia e em paz. Isso foi o mais difícil em meu ato de lembrar esse dia: lembrar do sossego que havia entre nós, e saber que em poucos minutos ele seria quebrado. Junto com o sopro de alegria que saía daquela moça e chegava até mim.

A linha que nos unia se estreitou num nó ainda mais forte: nos demos as mãos. Nossos dedos se entrelaçaram com tal força que eu sentia o sangue pulsando em sua veia, entre sua pele e um dos metacarpos. Como se já não estivéssemos numa cena clichê o suficiente, sorríamos como numa propaganda de margarina.

E foi com alguma frase boba como essa, que fazia piada da nossa situação, que a trouxe p’ra ainda mais perto de mim. Começou assim uma seqüência de tapinhas e empurrões. Por um tempo, foram golpes limitados, já que cada uma só tinha uma mão disponível. Mas não demorou muito até que ela soltasse minha mão para poder acertar um golpe mais eficiente.

Com um tapa, um movimento de pernas e um sorriso enorme, ela me derrubou sobre ela, na terra. O chão era fofo e o ar a nossa volta ficava mais denso, com grãos de areia pulando e caindo a cada novo golpe que dávamos uma na outra. Na verdade, golpe já não explica bem. Caídas sob a areia, nos mexíamos numa mistura de brincadeira infantil e desejo ainda não experimentado.

Seus cabelos longos balançavam como se não estivessem pesados, com areia e terra. Seu sorriso era de quem incentiva e provoca. Suas mãos brincavam de prender-querendo-soltar as minhas. E todo seu corpo se mexia ditando o ritmo do meu. Nós duas sabíamos que o momento do beijo se aproximava, e não sentíamos vontade de apressá-lo. Ele aconteceria.

Mas não foi assim.


A lacuna ainda existe, e toma forma de precipício. Para onde o ar escorrega, me deixando sufocada.

Perco o ar, como a fiz perder também. Não lembro do cadarço saindo de meu bolso, nem de seus olhos pedindo p’ra que eu parasse. Nem sequer lembro como passamos de pernas entrelaçadas, para nó no pescoço.

Algo borrado, sobre um arranhão acidental, surge em minha visão. Mas não consigo acreditar que foi isso que me moveu. Eu a matei. E não sei por quê.

Aperto entre os dedos de minha mão, em meu bolso, o pedaço de linhas vermelhas. Tudo o que sinto são essas linhas, a falta de ar e a culpa. A certeza de não ser descoberta amplifica tudo isso.

Abro meus olhos para a claridade do dia. Só ela pode trazer luz ao precipício...

Wednesday, September 05, 2007

O Varal

Mais um prendedor em mais um papel em seu Varal de Fracassos.

Neste estavam algumas poucas palavras: os primeiros parágrafos de um livro. A estória de uma garota que vivia em um só cômodo. Seu quarto, seu mundo, sua vida.

Com um sorriso de uma criança que, ao ver seu brotinho de feijão morrer no algodão, se lembra dos momentos verdes que teve, ela olhou seu varal. Contou de relance, sem querer exatidão e chegou à marca de uma parede cheia!

Livros começados, filmes velados, cartas não acabadas, fotos tremidas. Suas idéias mais íntimas, todas enfileiradas, lado a lado, se seguravam ao barbante. Com uma resistência descuidada, elas se mantinham firmes – muito mais do que jamais estiveram quando eram ainda só idéias em sua cabeça.

O primeiro de todos, um filme asa 400 completamente preto. Ela riu, lembrando que o erro, dessa vez, foi tão tolo que fez nascer a idéia do varal: um lembrete das tolices que estragam as coisas. Aqui nasceu o Varal do Fracasso. Numa dessas noites iguais a tantas outras: o canto das cigarras ensurdecia e trazia a mente técnicas de tortura (pingos de água na testa, músicas do Barney, episódios de novelas das seis, tudo isso ad nausea), a chuva ameaçava mas não caía, o vizinho fumava junto à janela e a fumaça subia, é claro, até sua sala. Dessa situação só poderia sair uma grande idéia mesmo...

Curioso: o Varal dos Fracassos parece ser sua única idéia que não fracassou. Curioso e quase poético. Talvez chegue a poético numa noite de terça-feira.

Mas, não era terça...

Ela continuou a olhar o varal, mas agora olhava também com os dedos: uma folha tão fina que ao toque lembrava um lençol e ao olhar deixava suas linhas e a letras quase indistintas do fundo branco. Quase não se sentia, quase não se enxergava. Mais uma vez, o riso foi inevitável: essa era a sua lista “Se souber responder essas questões, é você”. Agora, as questões não passavam de traços leves que não mudavam mais nem mesmo a folha na qual estavam escritas.

verba volant, scripta manent... Mas, até quando?

Alguns passos e estava diante de um conjunto de fotos. Pregadas aos pares, elas ocupavam pouco espaço físico, mas muito visual: eram o centro do varal e também, mas não por isso, o ponto que puxava os olhos tão logo se entrava no quarto.

Eram borrões em papel fotográfico. Cortes rápidos e brilhantes. Corpos que se mexiam deixando um rastro. “P’ra onde?” e seus olhos continuavam lá. Talvez fosse a impossibilidade de se enxergar o que pretendiam retratar, mas algo nessas fotos pareciam lançar um desafio de resistência; uma vez aceito o desafio, os olhos eram vencidos, mas as manchas indefinidas continuavam a passar rápidas pela mente.

Modo reprise. Fotos, páginas, letras, idéias agora passavam por sua cabeça como um filme de Jorge Furtado. Seus olhos corriam pelos prendedores, suas mãos estalavam seus dedos até estes se trançarem, seus pés marcavam o ritmo de sua excitação... Estava longe de uma ilha de flores, mas ainda assim sorria:

uma parede cheia, um varal cheio. Um varal cheio de fracassos. E ela não conseguia olhá-los sem sentir seu peito se encher do ar da realização.

Wednesday, August 29, 2007

Conversa com o mar

Um conchinha branca acizentada. Seria pedir demais? Pelo jeito, era!

Nunca gostou muito de praia, mas onde encontrar conchas, certo? Ainda não tinha chegado ao lamentável estágio de resignação. A garota acreditava que ia encontrar. E sua tola crença era reforçada a cada concha branca azulada, a cada brilho entre curvas de nácar, a cada eco de ar vindo correndo por espirras... Se estas conchas a fascinavam por alguns instantes, mal podia esperar até encontrar sua branca acizentada!

Caminhava, havia meses, com grande freqüência pela praia, chegando até a ir a praias que ainda não conhecia – quem sabe seria lá? Seus pés já sentiam os grãos de areia mesmo quando descansando sobre o perfume de lençóis recém-lavados. O cheiro de sal e o som do mar já faziam parte de seus dias, mesmo quando respirava em meio ao concreto. O sol se deitava sobre o azul que balançava, levava a luz, mas não conseguia levar as esperanças da garota. E seus dias passavam.

Dizer “e seus dias passavam” chega a ser uma mentira. Os dias se arrastavam com menos pressa que a maré, as horas escoavam como grãos de areia entre os dedos, os minutos iam embora mais rápido que o eco triste do grasnar das gaivotas. Toda noite, a cada lâmpada de poste que se acendia, a garota não conseguia evitar o pensamento “Mais um dia se foi. Meu tempo está indo embora”.

O tempo ia e a garota ficava. Sempre à espera. Uma espera preta que queria se dissolver em branco e cinza.


O cinza chegou, mas em forma de névoa.

O dia amanheceu nublado e a garota, pela primeira vez em muito tempo, não tinha vontade de sentir grãos sob os pés. Seus olhos pediam algo novo. Algo que parecesse mais puro que água com areia e sal.


Quase não se via o verde por baixo da mistura densa de clara neblina cinza com forte amanhecer amarelo. Fazia frio, mas a garota não conseguiu resistir: tirou seus tênis e meias. Seus pés agora experimentavam uma sensação de maciez que praia alguma no mundo poderia oferecer. As pequenas folhas da grama faziam cócegas, a terra úmida amortecia e o orvalho da manhã lavava suas solas calejadas de areia.

Estes passos pareciam os primeiros após anos. Os primeiros que não doíam. Amortecida pelo frio, pela umidade e pela luz, que crescia sem a violência de um pôr-de-sol sobre o mar, a garota caminhava como se soubesse que ia chegar a algum lugar mágico.

Caminhava devagar p’ra aproveitar cada passo e, também, p’ra prolongar esta espera – tão mais doce que a outra a qual estava acostumada (presa). Olhava p’ra frente confiante de que entre o cinza e o amarelo iria encontrar algo, mesmo sem saber o quê.

Sua expectativa era tão alegre e amena que seu pé direito parou de súbito ao sentir algo duro e mais frio, que contrastava em muito com o tapete verde que vinha pisando. Abaixou-se, rendida à curiosidade. Sua cabeça chegou até onde a visão não é amortecida pela névoa – podia ver perfeitamente.

Parecia uma letra D: quase reta em um lado e no outro, uma curva que se encaixava perfeitamente no dedo indicador da garota quando curvado. Preto com detalhes azuis na curva. Um brilho fosco que prendeu seus olhos.

Já nem lembrava como terminou a caminhada sobre a grama úmida, ou mesmo a que horas o sol venceu a neblina. A caminhada agora era em direção à praia. A vontade de areia voltara, mas não era de senti-la embaixo de seus pés.

Pisou na areia e nem a sentiu arranhar suas solas – toda sua sensibilidade estava no contato entre seu dedo e a pedra, entre sua pele e aquela massa sólida e lisa que não escorregava de sua mão . Deu alguns passos até estar próxima de onde as pequenas ondas da manhã quebravam, mas não o suficiente p’ra se molhar. Sentou-se, deixou cair seus tênis, meias e mochila, e olhou o mar.

Pela primeira vez, a garota conseguiu enxergá-lo não como quem traria aquilo que ela tanto esperava, aquilo branco acinzentado que a encantaria. O mar era p’ra ser visto e ouvido. E como enchia olhos e ouvidos! Há quanto tempo a garota não notava isso?

Tirou a mão do bolso, e com a pedra, como extensão de seu dedo, escreveu:

LONGA ESPERA

Poucas ondas depois, só havia areia. Agora deslizante como papel sob pincel e tinta.

Monday, June 04, 2007

I

O ar tem tons pastéis. Muitos pés e pernas brigando por espaço. A calçada é um cinza frio. Gritos:

- Eu a conheço! Quero falar com ela! Não. Me solta!

Um braço uniformizado a segura pela cintura, a disputa de forças é tamanha que os pés abaixo da cintura chegam a flutuar por alguns segundos.


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De um ponto no centro, a claridade aumenta. Branco completo...
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A garota abre a janela e senta na cama diante da vista. Abre seu caderno e com um sorriso

A viagem foi mais tranqüila do que eu esperava: a ansiedade não me tomou, perdeu lugar para a irritação – mais uma comédia sobre um homem que se disfarça de mulher gorda usando pele de borracha? Atravessar o oceano a nado seria mais engraçado!


Lembrete pessoal: atravessar qualquer coisa que seja a nado nunca é engraçado quando é você quem deve atravessar e você não sabe nadar!
Ok,
não esquecerei...

­­­

Já no táxi conseguia sentir o gosto de um novo começo – eu anunciei o endereço desejado, e sabia que demorarei a anunciar o caminho de volta.

O frio de fim de inverno aceitou meu pedido e será meu guia em meus primeiros dias. Pela janela vejo boa parte do que sei que vou encontrar, mas é o que essa janela não me mostra que mais me entusiasma e assusta. Uma última fechada de olhos, respiro fundo e... saio!


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Por um instante, a porta esconde a luz. Mas tão logo ela se fecha, pela janela, a claridade entra sem esforços e toma tudo
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Com passos lentos, a garota parecia saborear cada centímetro de concreto, cada milímetro de vitrine, cada corrente de vento em cada esquina, todas as folhas caídas e o ar que gelava suas narinas e saía de sua boca sem nem agradecer por ter sido aquecido. Eram os passos que há muito vinha ensaiando.

Em menos de cinco minutos já se encontrava dividida pela consciência de sua pequenez diante de anos de vida e obras da humanidade e pela sensação da grandeza de sua curiosidade – o peso da História contra a força motora da paixão. O melhor conflito já experimentado.

Seu corpo ainda tropical a levou a um café: era preciso algo quente, líquido e vapor

Mais bonitos e aconchegantes, parecem mais limpos e tudo que é servido parece delicioso. Que boba! Até os cafés me encantam! Que prazer a vista sob o véu do início de um amor...

Um chocolate quente e um croissant que duraram vários minutos

Casais em passeios pela manhã buscam proteção contra o vento gelado e encontram, além de cafés quentes, mesas pequenas que justificam a proximidade pré-planejada. O burburinho é baixo e cadenciado, sugerindo diálogos clichês que só interessam às bocas que os pronunciam, a menos de um palmo de distância umas das outras.

A um palmo de minha boca, meu último pedaço de croissant. Volto p’ra rua, vou travar diálogos com os fantasmas de séculos e séculos...


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O sol de uma manhã de sábado nublado furou as nuvens e alcançou a cidade que respirava o último golpe do inverno.
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Iluminada pelas luzes falsas de postes, a vista intimidava a garota, fazia parecer mais difícil. Ela fechou as cortinas e se jogou na cama para repassar em sua cabeça o dia vivido, como se fosse preciso guardar cada detalhe na memória para que não perdessem a qualidade de reais

Lembrete pessoal: croissant e chocolate quente não contam como refeição completa!


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A claridade da manhã de domingo ignorou as cortinas – talvez se não fossem brancas...
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A garota finalmente pôde vestir a roupa que havia escolhido (e planejado usar na primeira ocasião que tivesse) antes mesmo de comprar seu bilhete de embarque. Parecia uma bonequinha de pano, ou melhor, uma bonequinha de tecidos pesados e resistentes a baixas temperaturas, mas, ainda assim, uma boneca sorridente à procura de uma menina tão desejosa de companhia quanto ela mesma

O primeiro homem a encontrar o túmulo de Tutankamon, Amélie ao encontrar os tesouros de infância de Dominique Brodeteau e eu ao entrar na Biblioteca Nacional.

Não passo de uma criança e este é o maior parque de diversões onde já estive. Direita ou esquerda? Subo ou desço as escadas? E se eu me perder?! Quanto tempo até que eu decida que é melhor ser encontrada?

O tempo agora se divide em dois: o do mundo lá fora e o da vida aqui dentro. O primeiro é o de sempre, já conhecido e não exatamente interessante. Eu me deixarei ficar com o segundo. Tiro meu relógio e o coloco no bolso junto com essas minhas palavras – elas querem se esconder diante de tantas outras tão mais bonitas.


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O brilho fosco do ouro de brochuras tornava turva a visão
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Minha intenção era chegar até a sala de leitura com o sortudo que tinha escolhido, mas nem sequer me afastei da prateleira: tão logo me virei, a vi...

Traços saídos de um Delacroix, a palidez dos que têm mais horas no quarto do que amigos para celebrar, o brilho vermelho do cabelo que dança mesmo sem vento. Eu senti: era a liberdade que veio me guiar.

- Anais Nïn? – apontou para o livro que sofria o aperto de meus braços que não sabiam o que fazer – Henry Miller – ergueu a mão esquerda – fazemos um par!

Quanto tempo demorei a reagir àquele sorriso? Tempo suficiente p’ra desejar que eu pudesse me acomodar em meu bolso junto ao meu relógio.

Monday, May 21, 2007

Nanda em uma foto

Se eu tivesse que descrever você de uma maneira artística (não original, infelizmente):

Tuesday, April 24, 2007

Ensaiando

Você me deixava angustiada. Você é daquelas pessoas que nos fazem querer muito tê-las em nossa vida mas, ao mesmo tempo, deixam muito medo porque não sabemos até quando estarão nela.

Você era tudo que eu não gostava. Tá, tão logo bati os olhos em você fiquei fascinada – foi aquela certeza que sentimos de que vamos aprender muita coisa com uma pessoa, e não consegui não me aproximar. E já no início de nossa convivência tive a impressão de você ser a projeção, a imagem do tipo de pessoa que eu não gostava. Você era suicida, que estimava e agendava a data de morte com drogas e desistência, e eu...eu era um bichinho assustado numa redoma de vidro.

Feliz o dia em que você, com toda sua ignorância, sua falta de jeito, quebrou minha redoma. Você me tirou do medo em que vivia, me ensinou, na verdade, me obrigou a ter coragem – não só em relação à vida, às decisões, mas em situações palpáveis que... nunca vamos esquecer, tenho certeza.

Com você cada inspiração passou a ter um cheiro e cada palavra um gosto. E de todos os cheiros e gostos que descobri com você, os meus preferidos ainda são: o toque da sua mão puxando a minha e o som da sua voz dizendo “vem”.

Você adora dizer que eu salvei sua vida pelo menos umas 4 vezes. Isso é só mais uma prova do tamanho da sua teimosia.

Eu só precisei ser salva por você uma!

Friday, March 23, 2007

PROCURA-SE



Apesar da aparência inocente, esta garota representa grande perigo à sociedade: quando ela some, dá saudade. E muita!

Thursday, November 02, 2006

As paredes ouvem...

...e deixam ouvir


Acordei e logo ouvi um dos meus dois bons-dias de sempre.

Curioso que o volume era baixo. Não sabia dizer se já tinha se passado o momento auge dos gritos ou se este ainda nem tinha começado. Na cozinha, peguei um copo e uma colher sem fazer barulho. Não queria que percebessem que eu estava ali – elas já estavam desconfortáveis o suficiente só as duas, lembrar que há outras pessoas tão perto não ajudaria em nada.

Mas, uma voz masculina tirou minha sensação de reconhecimento da cena. E, quando outras duas vozes masculinas soaram, eu já não sabia o que esperar. Apenas uma porta nos separava mas, será que era suficiente? Por alguma razão que não sei qual é, não me sentia segura.

Meu coração batia num misto de pena e medo – por sentir que a porta poderia, a qualquer momento, se dissolver no ar e minha voz, ser somada ao coro que agora me assustava.

Elas continuavam a discutir, vez ou outra um grito, vez ou outra a participação de um dos homens: a gravidade não era só por se tratar de um homem falando, havia gravidade nas palavras, na entonação.

Minha insegurança crescia na mesma proporção que meus batimentos se aceleravam. A porta começava a se dissolver. Por desespero, abandonei o copo, a colher e a idéia do café-da-manhã sobre a bancada, e tentei manter meu escudo: as mãos espalmadas e a cabeça apoiada pediam, por favor, para que a matéria não me deixasse.

Meu pedido silencioso foi interrompido pela gravidade das palavras. Respirei (me senti respirar), consegui abrir os olhos e posicionar um deles diante do olho-mágico. O diâmetro tão pequeno emoldurou um tecido preto com bordado branco, POLÍCIA.

Uma porta já não bastava. O volume agora era mais alto. Como sempre, uma delas gritava; como sempre, seus gritos eram finos mas sufocavam os ouvidos, transformando o silêncio na saudade mais dolorida que se pode ter e num desejo que derruba.
Precisava me encolher como se isso diminuísse minha capacidade de ouvir. Voltei para o meu quarto – meu quarto, meu mundo, certo? Pois meu mundo tem vista para o final da discussão.

Meus ouvidos queriam que eu me encolhesse ainda mais, mas meus olhos queriam me fazer acreditar. Olhos vencedores, fui até a janela. Puxei um canto da cortina e me deparei com janelas dotadas de vidros, metais e cabeças. Três andares abaixo, o carro, as três vozes graves (agora já caladas de impaciência), a voz baixa aconselhando e a voz alta resistindo.

Uma entrou no banco de passageiros, a outra, ainda resistindo, pareceu se perder por instantes e olhou para seus pulsos – seus olhos também queriam fazê-la acreditar –, eram algemas. Da descrença, seu olhar passou para o medo: a porta traseira fora aberta. A impaciência que calara as vozes, agora movia os braços que empurravam, mesmo ela insistindo em ir sozinha.

Dois: um de cada lado, um p’ra cada braço, ela foi colocada – sem delicadeza – no “bagageiro”:

- Eu não consigo respirar aqui!

O último grito. O baque seco da porta traseira. E, finalmente, ganhei de volta o silêncio.

Mas já não era como antes...

Thursday, August 03, 2006

Vestido azul

Uma roda gigante brilha em vermelho e azul. Um vento gelado faz seus joelhos tremerem, ou será que é o medo? A noite parece mais escura do que de costume e... Olha para a direita, para a esquerda e para trás: está sozinha.

Não sabe p’ra onde seus pais foram. Sentiu-os soltarem suas mãos, mas só agora percebe que eles se afastaram. “P’ra onde?” Não se atreve a sair a sua procura, está assustada: muitas crianças passam correndo, gritando, se divertindo; as luzes brilham fortes demais, os brinquedos são barulhentos demais, os gritos, altos demais.

Bate as pontas dos sapatinhos brancos que ganhou horas antes – o primeiro dos presentes de aniversário, o segundo é a visita ao parque. Olha p’ra baixo e se vê: sapatos novos, seu melhor vestido, um azul bem claro com uma fita na cintura. Lembra-se de sua imagem refletida no espelho antes de saírem de casa: o cabelo bem preso num rabo-de-cavalo alto com uma fita de cetim azul pouco mais escura que o vestido; os brincos de cruz que a avó havia lhe dado pouco antes de morrer. “Uma princesinha!”, disse sua mãe juntando as mãos sob o queixo e sorrindo.

Seus sapatinhos começam a perder o brilho com a poeira que sobe de suas batidas de pés e dos passos de tantos estranhos que passam. “Como o parque está cheio. Será que todas essas crianças também estão fazendo aniversário?”

Olha a sua volta mais uma vez. “Quem sabe eles estão voltando com um ursinho de pelúcia como aquele que vi naquela barraca...” Um ombro dentro de uma camisa xadrez bate em seu rosto tirando seu equilíbrio. Ela cai sentada em meio a nuvens de poeira.

“Sujei meu vestido. Sujei minhas mãos. Meus sapatinhos... Mamãe vai brigar comigo!” Começa a chorar de medo. Medo por estar sozinha rodeada por tantos estranhos, por não saber onde seus pais estão e nem quando vão voltar e agora, mais ainda, por saber que sua mãe irá ralhar.

Chora sentada no chão abraçando as pernas, olha ao redor. Quer que seus pais voltem, mas não quer que eles a vejam suja como está. Suas mãos ardem, estão raladas por causa da queda. Quer que seu pai as sopre, mas não quer que ele brigue com ela por vê-la sentada no chão sujo.

Com as costas da mão, interrompe as lágrimas. Por acaso, percebe que perdeu o brinco que usava na orelha direita. “O brinco da vovó”. Seu choro aumenta – adorava os brincos, eram sua única lembrança da avó.

Sentada no chão, é invisível: as crianças continuam a passar, gritar e sorrir, não a vêem. Entre gritos, passos e poeira, ergue a cabeça: a roda gigante ainda brilha em vermelho e azul, mas a noite é ainda mais escura.

Não sei...

Seus braços doíam, não sabia porquê. Bem na região onde se costuma tirar sangue. Doíam esticados, doíam dobrados. Não havia posição que melhorasse e, por isso, não conseguia relaxar.

Estava sentado numa cadeira de plástico laranja. Daquelas que parecem gritar “ANOS 80”. Apoiava os cotovelos nos apoios p’ra braços e... doíam. O lugar era mal iluminado e fedia, como rodoviárias. Mesmo sabendo que o vai-e-vem de pessoas era intenso, não via ninguém. Sua vista estava reduzida a um quadrado de limites: os apoios p’ra braços de sua cadeira na largura, e a altura ia de seus pés até seu tórax.

Quando erguia a cabeça, além de sentir uma forte dor no pescoço, não enxergava nada! Escuridão. Ficava cego. O mesmo acontecia quando olhava para os lados. Seus pés, suas pernas, seu tórax, seus braços – era só isso que via.

Pensou em levantar, mas seus pés permaneciam imóveis. Seu cérebro mandava o comando, mas eles não obedeciam. Desesperou-se: sentia, sabia que tentava mexer seus pés, fazia força, mas os enxergava inertes, como se a o outro pertencessem.

Quis gritar! Num reflexo, ergueu a cabeça – escuridão. Abriu a boca, mas nada saiu. Pensou em mexer seus braços, gesticular até chamar a atenção de algum dos que passavam (sabia que não eram poucos). Mas, agora, doíam ainda mais.Olhou para a única área que enxergava e percebeu seus braços também imóveis. Dobrados em “V” como nos manequins de vitrine.

O grito que não saía o sufocava a garganta, seu corpo todo paralisado, seu desespero preso a um quadrado de vista. Os passos, o grito, os gestos, o socorro...

Das bordas, um contorno escuro foi crescendo em direção ao centro do quadrado. Sobrava um círculo de visão que ia diminuindo, diminuindo,...

O grito sufocando, os braços doendo,...

...diminuindo, diminuindo,...

Os olhos cheios de medo...

Escuridão!

Sunday, June 11, 2006

Efeito Young

Terça-feira, 06 de junho de 2006. Pela manhã, meu professor profetizou: "Seis, do seis do seis. Um bom para nascer o Anti-Cristo... ou para algum louco fazer alguma grande bobagem."

Se nasceu o Anti-Cristo, o pró-Cristo, se algum louco fez alguma bobagem (grande ou pequena), se algum bobo fez alguma loucura (grande ou pequena) não sei, só sei que... Fernanda Young.

Passei o dia esperando às 6 e meia chegar p'ra pegar o táxi (maldita cidade projetada p'ra pessoas com carro). Chegou... mas o táxi não! O ponto estava vazio. Em minha cabeça uma vozinha sacana repetia: "Murphy, Murphy, Murphy..." E eu sabia que ela não falava do Robocop! Felizmente, meu pessimismo foi derrotado ("quem acha que perder é ser menor na vida"? Perdi com gosto). Em poucos minutos, após superarmos o trânsito de volta p'ra casa, cheguei a Caixa Cultural. Ah, caso um dia estejam em Brasília e quiserem ir a Caixa Cultural, digam ao taxista que vai a Caixa Ecônomica, eles não sabem que o teatro fica na mesma área.

Logo que entrei no prédio: fones brancos no ouvido (provavelmente um IPod. Bundão!), camiseta do "Laranja Mecânica", óculos com armação grossa retangular e escura, All Star pretos com estrelas brancas e aquela cara de tédio, tudo no melhor estilo "mamãe, quero ser cult". Sentei na proltona vaga, ao lado deste ser "indie".

Quinze para às sete. "Que horas vai abrir?", "Às sete", "Obrigado". Por que as pessoas falam tão alto? Por que eu ainda cometo esse erro tolo de sair de casa sem fones no ouvido??? (pretos, viu?). Cinco p'ra sete. "Que horas vai abrir?", "Às sete", "Ah, então falta pouco". Sete e dois. "Que horas vai abrir?", eu olhei no relógio e pensei: o quão cretino será ele responder "Às sete"? E o quão mais cretino será eu retrucar "Então vai daqui a dois minutos atrás!"? "Às sete". Bleh... Deixei passar.

Sentei na terceira fileira, mas a câmera apontada p'ra mim me fez re-escolher meu lugar. Acabei ao lado de uma garota que não sabe ler. Só pode não saber! Entrou com um saco do McDonalds e comeu dentro do teatro logo após passar pelo aviso: "Proiba a entrada com bebidas e alimentos". Hmmm, o "porteiro" além de atrasado é cego? Ou será incompetente mesmo?

Falando em competência, às sete e meia (horário marcado p'ra começar o programa) descobriram que uma das câmeras precisava ser trocada. Troca daqui, troca de lá, troca lente, troca toda a câmera... Claro, voltaram a primeira e ela foi a escolhida.

Pffff... E ainda tive que assistir um videozinho da Caixa falando sobre seus projetos culturais com a última frase: "O melhor do Brasil é o brasileiro". Por isso que o país está como está...

Dez para às oito. A prostituição em Minas Gerais na época do auge da exploração mineradora no Brasil Colonial foi, finalmente, deixada de lado. "Vamos começar?". Tem coisa mais irritante que ficar esperando alguém e quando esse alguém chega pergunta "Então... Podemos ir?". "NÃO, INFELIZ! Quero continuar esperando p'ra ver quanto tempo leva até aparecer OUTRO idiota como você!" P'ra peida...

"Blá blá... Roteirista, escritora, blá blá blá... Fernanda Young"

É ela! Um sorriso de desconforto que só os tímidos que já atravessaram palcos sabem fingir ser espontâneo (malditas formaturas). Um andar rápido de quem sente que sentado a área exposta é menor e, logicamente, a proteção contra tantos olhares é maior. É mesmo ela.
- Boa noite. Desculpem o atraso, não fui eu quem atrasou. EU ODEIO ATRASOS! - É ela, definitivamente.

As caras e bocas, as viradas de olhos, as pausam imprevistas tentando encontrar a melhor palavra, os braços em revolução (no sentido original da palavra, queridas, da astronomia, com ênfase na noção de irresistibilidade), o tom de voz oscilante entre a certeza já muito refletida e a afirmação interrogativa (aquela falada tão logo surge e que, por isso mesmo, pede, em silêncio, concordância,confirmação), ... É ela.

Ela. Aquela personagem criada p'ra aparecer na televisão e impressionar as pessoas com sua tranqüilidade, sua imunidade ao mundo, as pessoas, a vida e suas pequenices. Ok, viu essa personagem? Então, olhe de novo. Não há imunidade, não há o brilho e os sorrisos de "Caras" e "Tititi".

Não sei dizer o quanto a vontade de me reconhecer atrapalha minha visão ("A identificação traz conforto"), mas esses braços com coreografia própria, as alternâncias entre convicção e suspeita (a primeira muito mais freqüente, mas ainda assim...), as "frases de efeito" (repetição causa conforto, dizem no mundo da propaganda) e brincadeiras várias,...

Senti um conforto daqueles de conversa de madrugada que começa na televisão e chega a cor preferida de fogos de artifício. Conforto de verso perfeito na música recém descoberta, de frase de filme que se assiste sozinha quando nenhuma companhia pode salvar sua noite, de página aberta ao acaso num livro descoberto entre as muitas prateleias de uma biblioteca ("É esse que vou levar!"),...

Engraçado. Ela sempre diz que se sente/sentiu deslocada, e suas palavras trazem conforto, através da identificação, p'ra milhares de pessoas. Hoje, pude ver algumas dessas milhares, todas se levantaram ao fim do programa com um brilho como o da personagem cega de "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" quando chega a banca de jornal após ser conduzida pela protagonista.

Se ela é deslocada e nós todos nos reconhemos nela, não seremos nós locados? Mesmo sendo muitos, ainda nos sentimos "diferentes" mas, pelo menos, já não estamos sozinhos nisso.

Diante da escada do metrô, ela solta nossos braços. Já podemos ir.