Wednesday, August 29, 2007

Conversa com o mar

Um conchinha branca acizentada. Seria pedir demais? Pelo jeito, era!

Nunca gostou muito de praia, mas onde encontrar conchas, certo? Ainda não tinha chegado ao lamentável estágio de resignação. A garota acreditava que ia encontrar. E sua tola crença era reforçada a cada concha branca azulada, a cada brilho entre curvas de nácar, a cada eco de ar vindo correndo por espirras... Se estas conchas a fascinavam por alguns instantes, mal podia esperar até encontrar sua branca acizentada!

Caminhava, havia meses, com grande freqüência pela praia, chegando até a ir a praias que ainda não conhecia – quem sabe seria ? Seus pés sentiam os grãos de areia mesmo quando descansando sobre o perfume de lençóis recém-lavados. O cheiro de sal e o som do mar faziam parte de seus dias, mesmo quando respirava em meio ao concreto. O sol se deitava sobre o azul que balançava, levava a luz, mas não conseguia levar as esperanças da garota. E seus dias passavam.

Dizer “e seus dias passavam” chega a ser uma mentira. Os dias se arrastavam com menos pressa que a maré, as horas escoavam como grãos de areia entre os dedos, os minutos iam embora mais rápido que o eco triste do grasnar das gaivotas. Toda noite, a cada lâmpada de poste que se acendia, a garota não conseguia evitar o pensamentoMais um dia se foi. Meu tempo está indo embora”.

O tempo ia e a garota ficava. Sempre à espera. Uma espera preta que queria se dissolver em branco e cinza.


O cinza chegou, mas em forma de névoa.

O dia amanheceu nublado e a garota, pela primeira vez em muito tempo, não tinha vontade de sentir grãos sob os pés. Seus olhos pediam algo novo. Algo que parecesse mais puro que água com areia e sal.


Quase não se via o verde por baixo da mistura densa de clara neblina cinza com forte amanhecer amarelo. Fazia frio, mas a garota não conseguiu resistir: tirou seus tênis e meias. Seus pés agora experimentavam uma sensação de maciez que praia alguma no mundo poderia oferecer. As pequenas folhas da grama faziam cócegas, a terra úmida amortecia e o orvalho da manhã lavava suas solas calejadas de areia.

Estes passos pareciam os primeiros após anos. Os primeiros que não doíam. Amortecida pelo frio, pela umidade e pela luz, que crescia sem a violência de um pôr-de-sol sobre o mar, a garota caminhava como se soubesse que ia chegar a algum lugar mágico.

Caminhava devagar p’ra aproveitar cada passo e, também, p’ra prolongar esta esperatão mais doce que a outra a qual estava acostumada (presa). Olhava p’ra frente confiante de que entre o cinza e o amarelo iria encontrar algo, mesmo sem saber o quê.

Sua expectativa era tão alegre e amena que seu direito parou de súbito ao sentir algo duro e mais frio, que contrastava em muito com o tapete verde que vinha pisando. Abaixou-se, rendida à curiosidade. Sua cabeça chegou até onde a visão não é amortecida pela névoa – podia ver perfeitamente.

Parecia uma letra D: quase reta em um lado e no outro, uma curva que se encaixava perfeitamente no dedo indicador da garota quando curvado. Preto com detalhes azuis na curva. Um brilho fosco que prendeu seus olhos.

nem lembrava como terminou a caminhada sobre a grama úmida, ou mesmo a que horas o sol venceu a neblina. A caminhada agora era em direção à praia. A vontade de areia voltara, mas não era de senti-la embaixo de seus pés.

Pisou na areia e nem a sentiu arranhar suas solastoda sua sensibilidade estava no contato entre seu dedo e a pedra, entre sua pele e aquela massa sólida e lisa que não escorregava de sua mão . Deu alguns passos até estar próxima de onde as pequenas ondas da manhã quebravam, mas não o suficiente p’ra se molhar. Sentou-se, deixou cair seus tênis, meias e mochila, e olhou o mar.

Pela primeira vez, a garota conseguiu enxergá-lo não como quem traria aquilo que ela tanto esperava, aquilo branco acinzentado que a encantaria. O mar era p’ra ser visto e ouvido. E como enchia olhos e ouvidos! Há quanto tempo a garota não notava isso?

Tirou a mão do bolso, e com a pedra, como extensão de seu dedo, escreveu:

LONGA ESPERA

Poucas ondas depois, havia areia. Agora deslizante como papel sob pincel e tinta.

2 comments:

Thiago_chvs said...

Haha! Achei! depois me ensina a escrever? Muito bom! :D

John Fromage said...

"...as horas escoavam como grãos de areia entre os dedos..."

Ah moça, você se entrega em cada linha que escreve...

Ficou muito bom, parabéns! =)