Um conchinha branca acizentada. Seria pedir demais? Pelo jeito, era!
Nunca gostou muito de praia, mas onde encontrar conchas, certo? Ainda não tinha chegado ao lamentável estágio de resignação. A garota acreditava que ia encontrar. E sua tola crença era reforçada a cada concha branca azulada, a cada brilho entre curvas de nácar, a cada eco de ar vindo correndo por espirras... Se estas conchas a fascinavam por alguns instantes, mal podia esperar até encontrar sua branca acizentada!
Caminhava, havia meses, com grande freqüência pela praia, chegando até a ir a praias que ainda não conhecia – quem sabe seria lá? Seus pés já sentiam os grãos de areia mesmo quando descansando sobre o perfume de lençóis recém-lavados. O cheiro de sal e o som do mar já faziam parte de seus dias, mesmo quando respirava em meio ao concreto. O sol se deitava sobre o azul que balançava, levava a luz, mas não conseguia levar as esperanças da garota. E seus dias passavam.
Dizer “e seus dias passavam” chega a ser uma mentira. Os dias se arrastavam com menos pressa que a maré, as horas escoavam como grãos de areia entre os dedos, os minutos iam embora mais rápido que o eco triste do grasnar das gaivotas. Toda noite, a cada lâmpada de poste que se acendia, a garota não conseguia evitar o pensamento “Mais um dia se foi. Meu tempo está indo embora”.
O tempo ia e a garota ficava. Sempre à espera. Uma espera preta que queria se dissolver em branco e cinza.
O cinza chegou, mas em forma de névoa.
O dia amanheceu nublado e a garota, pela primeira vez em muito tempo, não tinha vontade de sentir grãos sob os pés. Seus olhos pediam algo novo. Algo que parecesse mais puro que água com areia e sal.
Quase não se via o verde por baixo da mistura densa de clara neblina cinza com forte amanhecer amarelo. Fazia frio, mas a garota não conseguiu resistir: tirou seus tênis e meias. Seus pés agora experimentavam uma sensação de maciez que praia alguma no mundo poderia oferecer. As pequenas folhas da grama faziam cócegas, a terra úmida amortecia e o orvalho da manhã lavava suas solas calejadas de areia.
Estes passos pareciam os primeiros após anos. Os primeiros que não doíam. Amortecida pelo frio, pela umidade e pela luz, que crescia sem a violência de um pôr-de-sol sobre o mar, a garota caminhava como se soubesse que ia chegar a algum lugar mágico.
Caminhava devagar p’ra aproveitar cada passo e, também, p’ra prolongar esta espera – tão mais doce que a outra a qual estava acostumada (presa). Olhava p’ra frente confiante de que entre o cinza e o amarelo iria encontrar algo, mesmo sem saber o quê.
Sua expectativa era tão alegre e amena que seu pé direito parou de súbito ao sentir algo duro e mais frio, que contrastava em muito com o tapete verde que vinha pisando. Abaixou-se, rendida à curiosidade. Sua cabeça chegou até onde a visão não é amortecida pela névoa – podia ver perfeitamente.
Parecia uma letra D: quase reta em um lado e no outro, uma curva que se encaixava perfeitamente no dedo indicador da garota quando curvado. Preto com detalhes azuis na curva. Um brilho fosco que prendeu seus olhos.
Já nem lembrava como terminou a caminhada sobre a grama úmida, ou mesmo a que horas o sol venceu a neblina. A caminhada agora era em direção à praia. A vontade de areia voltara, mas não era de senti-la embaixo de seus pés.
Pisou na areia e nem a sentiu arranhar suas solas – toda sua sensibilidade estava no contato entre seu dedo e a pedra, entre sua pele e aquela massa sólida e lisa que não escorregava de sua mão . Deu alguns passos até estar próxima de onde as pequenas ondas da manhã quebravam, mas não o suficiente p’ra se molhar. Sentou-se, deixou cair seus tênis, meias e mochila, e olhou o mar.
Pela primeira vez, a garota conseguiu enxergá-lo não como quem traria aquilo que ela tanto esperava, aquilo branco acinzentado que a encantaria. O mar era p’ra ser visto e ouvido. E como enchia olhos e ouvidos! Há quanto tempo a garota não notava isso?
Tirou a mão do bolso, e com a pedra, como extensão de seu dedo, escreveu:
LONGA ESPERA
Poucas ondas depois, só havia areia. Agora deslizante como papel sob pincel e tinta.
2 comments:
Haha! Achei! depois me ensina a escrever? Muito bom! :D
"...as horas escoavam como grãos de areia entre os dedos..."
Ah moça, você se entrega em cada linha que escreve...
Ficou muito bom, parabéns! =)
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