Uma silhueta e um ponto vermelho luminoso de um cigarro aceso. A silhueta se mexia pouco e com movimentos secos mas leves e elegantes.
Foi o suficiente p’ra me fazer chorar.
Eram, ainda, os primeiros segundos da peça e eu já chorava como se vivesse um reencontro há muito aguardado.
Simplesmente eu. Clarice Lispector. A peça que descobri por acaso que está em cartaz: fui ao CCBB ver a exposição Saint-Étienne – cite du design e, ao chegar, dei de cara com o cartaz da peça (“10/07 a 02/08”). Fui logo para a bilheteria – difícil explicar essa situação p’ra quem não acredita em destino:
- Os ingressos para a peça Simplesmente eu já estão à venda?
- Todas as sessões já estão esgotadas, mas temos cadeiras extras p’ra hoje.
Independente de acreditar ou não, senti aquela alegria que só um encontro não proposital com uma obra ou um autor/artista nos dá.
A exposição é bem interessante, várias coisas legais (a vontade de ter a poltrona Casulo – ou cadeira-cobertor como o blog do GNT chamou – só aumentou) e tudo organizado de uma maneira bonita. (Tirei várias fotos, só preciso revelá-las)
Ah, teve um momento muito bom também. Um cidadão se aproximou de uma peça e... TOC-TOC... deu-lhe duas batidas como se fosse a porta da casa de um vizinho barulhento.
- Senhor, não é permitido tocar nas obras.
- Mas eu preciso saber do que são feitas! – Tunico bem observou que as letras tamanho 70 na parede não eram suficientes para esse cidadão: CERÂMICAS.
- Mas, senhor, não pode tocar nas obras!
- Eu sou da área, preciso saber do que são feitas.
“Eu sou da área”, a mais nova desculpa para a ignorância!
Em todo caso... Exposição à tarde e Rice à noite.
A peça é linda: um monólogo... Se bem que, discordando de todas as notícias sobre a peça, acho que são monólogoS: o de Clarice e os de suas personagens – as outras Clarices.
São trechos de entrevistas, dos livros Perto do Coração Selvagem e Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres e dos contos Amor e Perdoando Deus. Beth Goulart (absurdamente parecida com Clarice) usa apenas figurinos (muito bonitos) e o sotaque para mudar da fala da autora para as falas de suas criações.
Bom, todos sabem que amo as palavras de Rice, então nem preciso dizer que amei a peça. Talvez nem mesmo precisasse dizer que chorei, mas... quando ouvi o trecho que sabia que ia ouvir (se há Uma Aprendizagem..., tem que haver a famosa oração), o fiz como uma criança que se perde dos pais num shopping em véspera de Natal.
Lindo. Recomendo.
Amém!



