Thursday, August 03, 2006

Vestido azul

Uma roda gigante brilha em vermelho e azul. Um vento gelado faz seus joelhos tremerem, ou será que é o medo? A noite parece mais escura do que de costume e... Olha para a direita, para a esquerda e para trás: está sozinha.

Não sabe p’ra onde seus pais foram. Sentiu-os soltarem suas mãos, mas só agora percebe que eles se afastaram. “P’ra onde?” Não se atreve a sair a sua procura, está assustada: muitas crianças passam correndo, gritando, se divertindo; as luzes brilham fortes demais, os brinquedos são barulhentos demais, os gritos, altos demais.

Bate as pontas dos sapatinhos brancos que ganhou horas antes – o primeiro dos presentes de aniversário, o segundo é a visita ao parque. Olha p’ra baixo e se vê: sapatos novos, seu melhor vestido, um azul bem claro com uma fita na cintura. Lembra-se de sua imagem refletida no espelho antes de saírem de casa: o cabelo bem preso num rabo-de-cavalo alto com uma fita de cetim azul pouco mais escura que o vestido; os brincos de cruz que a avó havia lhe dado pouco antes de morrer. “Uma princesinha!”, disse sua mãe juntando as mãos sob o queixo e sorrindo.

Seus sapatinhos começam a perder o brilho com a poeira que sobe de suas batidas de pés e dos passos de tantos estranhos que passam. “Como o parque está cheio. Será que todas essas crianças também estão fazendo aniversário?”

Olha a sua volta mais uma vez. “Quem sabe eles estão voltando com um ursinho de pelúcia como aquele que vi naquela barraca...” Um ombro dentro de uma camisa xadrez bate em seu rosto tirando seu equilíbrio. Ela cai sentada em meio a nuvens de poeira.

“Sujei meu vestido. Sujei minhas mãos. Meus sapatinhos... Mamãe vai brigar comigo!” Começa a chorar de medo. Medo por estar sozinha rodeada por tantos estranhos, por não saber onde seus pais estão e nem quando vão voltar e agora, mais ainda, por saber que sua mãe irá ralhar.

Chora sentada no chão abraçando as pernas, olha ao redor. Quer que seus pais voltem, mas não quer que eles a vejam suja como está. Suas mãos ardem, estão raladas por causa da queda. Quer que seu pai as sopre, mas não quer que ele brigue com ela por vê-la sentada no chão sujo.

Com as costas da mão, interrompe as lágrimas. Por acaso, percebe que perdeu o brinco que usava na orelha direita. “O brinco da vovó”. Seu choro aumenta – adorava os brincos, eram sua única lembrança da avó.

Sentada no chão, é invisível: as crianças continuam a passar, gritar e sorrir, não a vêem. Entre gritos, passos e poeira, ergue a cabeça: a roda gigante ainda brilha em vermelho e azul, mas a noite é ainda mais escura.

Não sei...

Seus braços doíam, não sabia porquê. Bem na região onde se costuma tirar sangue. Doíam esticados, doíam dobrados. Não havia posição que melhorasse e, por isso, não conseguia relaxar.

Estava sentado numa cadeira de plástico laranja. Daquelas que parecem gritar “ANOS 80”. Apoiava os cotovelos nos apoios p’ra braços e... doíam. O lugar era mal iluminado e fedia, como rodoviárias. Mesmo sabendo que o vai-e-vem de pessoas era intenso, não via ninguém. Sua vista estava reduzida a um quadrado de limites: os apoios p’ra braços de sua cadeira na largura, e a altura ia de seus pés até seu tórax.

Quando erguia a cabeça, além de sentir uma forte dor no pescoço, não enxergava nada! Escuridão. Ficava cego. O mesmo acontecia quando olhava para os lados. Seus pés, suas pernas, seu tórax, seus braços – era só isso que via.

Pensou em levantar, mas seus pés permaneciam imóveis. Seu cérebro mandava o comando, mas eles não obedeciam. Desesperou-se: sentia, sabia que tentava mexer seus pés, fazia força, mas os enxergava inertes, como se a o outro pertencessem.

Quis gritar! Num reflexo, ergueu a cabeça – escuridão. Abriu a boca, mas nada saiu. Pensou em mexer seus braços, gesticular até chamar a atenção de algum dos que passavam (sabia que não eram poucos). Mas, agora, doíam ainda mais.Olhou para a única área que enxergava e percebeu seus braços também imóveis. Dobrados em “V” como nos manequins de vitrine.

O grito que não saía o sufocava a garganta, seu corpo todo paralisado, seu desespero preso a um quadrado de vista. Os passos, o grito, os gestos, o socorro...

Das bordas, um contorno escuro foi crescendo em direção ao centro do quadrado. Sobrava um círculo de visão que ia diminuindo, diminuindo,...

O grito sufocando, os braços doendo,...

...diminuindo, diminuindo,...

Os olhos cheios de medo...

Escuridão!

Tuesday, August 01, 2006

Sobre a mentira

- Eu te ligo!

- Eu te liguei a noite toda, mas só dava ocupado.

- Eu ia te chamar, mas não deu tempo.

- Eu queria que você tivesse ido.

- Pensei em te chamar, mas achei que você nem ia querer ir.

- Pode deixar que eu vou.

- Eu fiquei trabalhando.

- Não tem nada a ver com você.

- Eu não fico inventando desculpas!

- Eu sei que fiz mal.

- Eu não mentiria p’ra você!

- Eu te ligo.