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Tuesday, July 01, 2008

Tão depois de pouco depois de depois do Sol

O garoto começou uma viagem que levaria seus truques p’ra longe. E a garota voltou p’ra sua torre. O buraco que há pouco emoldurava um jardim dançante agora exibia em sua tela o garoto se afastar num grande pássaro branco. A garota ficou. Assistindo. Até que pássaro deixou de ser um minúsculo ponto e desapareceu – como se fosse mais um truque.

Dentro da torre, a garota tinha dificuldade em manter as canções soando. Ela se mexia tanto que o som mais alto era sua inquietação. As flores dançavam numa mistura de recordação e medo: mesmo soando baixo agora, na lembrança as canções ainda tinham volume alto; mas será que demorariam a voltar a ser mais que lembrança?

A garota olhava para as flores e sentia preguiça de dançar. Preguiça não, desânimo. Não queria que o jardim ficasse quieto, só queria ela mesma ficar. Sentou-se no chão, abraçou seus joelhos, como de costume, e desejou que houvesse mais para abraçar do que suas próprias pernas.

Cansada de olhar para a tela vazia, deitou-se junto às flores e tentou não pensar no quase silêncio. Olhava para o chão e para os caules tão verdes que se mexiam num ritmo agradável. A garota sorriu: as canções ainda soavam, no eco protegido pelos paralelepípedos da sua torre.

Sem se esticar muito, a garota levou sua mão à parede. Não havia o frio de pedra, mas um tremor ritmado e quente – mais um truque do garoto, ela teve certeza.

Saturday, March 08, 2008

Pouco depois de depois do Sol

(ou Depois do Sol - 2)


O garoto continuava a fazer seus truques, agora já mais calmo – já não tão convencido de que fosse sua a responsabilidade de deixar tudo certo. Cada carta tirada do baralho vinha seguida por um sorriso da garota, que começava a se sentir como uma assistente.

Ela acabou por descer do muro para o lado de fora, mas não se afastou de sua torre: continua sentada abraçada aos seus joelhos e tem as costas apoiadas pelo quente – tempos atrás frio – contato com alguns paralelepípedos. Até mesmo para participar dos truques do garoto ela não perde o toque das pedras. Estica, o quanto for necessário, um braço e puxa uma carta. Aliás, quando é preciso esticar os dois braços ela chega a hesitar, curvada sob a força da insegurança.

Mas ainda assim, com o garoto sentindo o peso das responsabilidades a mais e a garota com a sensação de que há excesso de ar sem um maior bloqueio de sua torre, eles seguem com os truques e os sorrisos. Os dias passam fáceis e a grama em torno deles parece ilhá-los da chuva que cai e deixa ensopados os humores.

Ao menos era essa a impressão que a garota tinha. O garoto faz o que pode p’ra não deixar o cinza chegar. Ele preenche os dias dela com truques que ela nunca antes tinha visto. E não são só feitos com cartas. Aliás, seus preferidos não envolvem muita coisa: um pouco mais que palavras.

A garota esperava ansiosa pelos momentos em que as manhãs começavam, as tardes se encurtavam e as noites se dissolviam nas palavras que eles trocavam. O garoto sentava ao seu lado (às vezes chegava a, também, se apoiar na torre da garota) e a conversa percorria o curto caminho de sua miopia. E as mãos da garota, por vezes, soltavam seus joelhos, p’ra encontrar os dele.

O garoto parecia falar em versos. Suas palavras, ainda que nem sempre rimadas, pareciam formar poemas. Ou melhor, canções. E enquanto falava, o garoto realizava mais um de seus truques: uma pauta surgia diante de seu rosto, como se por efeito especial, e levava em suas notas as sílabas ditas por ele. A garota seguia a música diante de seus olhos como uma criança que vê, pela primeira vez, uma roda-gigante: num quase equilíbrio entre o medo que afasta e o encanto que atrai.

Em resposta, o garoto ouvia as palavras da garota, que soavam como se tivessem absorvido o frio anterior da torre. Ou, pelo menos, era como ele as sentia. Palavras fora de pauta, sem melodia ou tom próprio. Era o que ele via sair da garota: palavras e sorrisos vacilantes e gestos inseguros, que pouco saíam de sua zona de segurança.

Mas não era só isso que ela lhe dava.

Por dias, a garota pensou. Já não suportava ver os olhos do garoto à procura de algo além de suas palavras. Queria mostrar algo, encher seus olhos. Mas... o quê?! Não adiantava tentar fazer truques – ela sabe que não tem talento p’ra eles. Além disso, não acredita em gestos repetidos. Somente após alguns dias de relutância, a garota cedeu a sua coragem.

Era uma manhã daquelas que luta p’ra ficar clara. A garota respirou fundo, levantou e se afastou do muro: só por alguns segundos! Correu até o garoto e, o acordando, puxou-o pela mão até a torre. Sem dizer uma palavra, ela apontou para um espaço vazio, do qual um paralelepípedo fora tirado. Não muito seguro do que ia ver, o garoto aproximou seu rosto...

protegido pelo muro, um pequeno jardim florido, no qual todas as flores dançavam ao som das canções que só o garoto entoava.

Thursday, November 22, 2007

Depois do Sol

Eram três garotos e uma garota.

Era uma vez um garoto que sonhava navegar até o amor. Ele tentou reunir uma tripulação que o ajudasse, pois achava que sabia como seriam as travessias. No entanto, o garoto partiu numa viagem solitária: construiu um barco com suas próprias idéias, o qual direcionava com suas próprias visões, enquanto remava com suas próprias desculpas. Era uma embarcação simples, feita de papel e palavras. Somente o timão era de material diferente: um metal comum, mas que facilmente é confundido com um nobre. Uma pena para o garoto: toda luz que deveria nortear sua jornada, caía sobre seu timão, ofuscando sua visão.

Era uma vez um garoto que cantava e dançava como se ninguém estivesse olhando. Num momento de carência, ele tentou um novo repertório. Não durou uma canção. Mas foi num momento de tristeza que o garoto errou na dança e caiu no passado. Canções e passos que ele já sabia de cor, voz e corpo agindo no automático, só reagindo. Na coreografia repetida tantas vezes, o riso do garoto se desfez.

Era uma vez um garoto que esperava, num passe de mágica, roubar, ou melhor, furtar o coração de uma garota. Mas, infelizmente p’ra ele, num raro momento de pouca sorte, seus truques caíram sobre um muro. A sorte, ainda que pouca, estava no fato de que sobre o muro estava uma garota.

Era uma vez uma garota sentada sobre um muro. Mas não era um muro qualquer, era o seu muro. Mais que isso: um conjunto de paralelepípedos escuros que formavam uma pequena torre. Sentada sobre o muro, a garota olhava para os chãos – o de dentro do muro, de um verde escuro à sombra; e o de fora, verde forte, reflexo do sol – com cara de quem tentava lembrar “onde eu estava mesmo?”. Mas logo desistia, mudava a cara p’ra “fazer o quê, né?” e abraçava seus joelhos. O tempo passava.

Por um tempo os quatro estiveram juntos, planejando uma aventura. Mas ainda eram dois garotos e um garoto e uma garota. Nos planos, eles se preocupavam: “preciso construir meu barco. Bom é que já sei como e já tenho um timão”; “quais canções vou cantar? Quero algo novo... mas as letras antigas não saem da minha cabeça”; “eu vou descer... mas p’ra qual lado?”; “qual é mesmo o truque p’ra manter tudo certo?”.

Num dia de muito sol, a garota se amedrontou. Antes de pular de volta p’ra segurança de sua torre, deu uma olhada: um garoto levantava âncora, partindo com o sol às suas costas; um garoto entoava versos como um robô programado.

Ajoelhada à sombra, com a mão contra o muro, a garota puxou um dos paralelepípedos e pediu, num tom que quase não se escuta: “Eu quero sair, eu vou sair. Eu só preciso de alguns instantes aqui”.

Um garoto: não aplaudiu o número musical e pediu por algo novo; escreveu uma carta com instruções de como conseguir ajuda, fechou-a e lançou-a ao mar; ficou (do ponto de vista da garota, emoldurado como numa micro-tela de cinema) ao lado do muro, treinando seus truques, tentando lembrar aquele que faz tudo voltar a ficar bem...