(ou Depois do Sol - 2)
O garoto continuava a fazer seus truques, agora já mais calmo – já não tão convencido de que fosse sua a responsabilidade de deixar tudo certo. Cada carta tirada do baralho vinha seguida por um sorriso da garota, que começava a se sentir como uma assistente.
Ela acabou por descer do muro para o lado de fora, mas não se afastou de sua torre: continua sentada abraçada aos seus joelhos e tem as costas apoiadas pelo quente – tempos atrás frio – contato com alguns paralelepípedos. Até mesmo para participar dos truques do garoto ela não perde o toque das pedras. Estica, o quanto for necessário, um braço e puxa uma carta. Aliás, quando é preciso esticar os dois braços ela chega a hesitar, curvada sob a força da insegurança.
Mas ainda assim, com o garoto sentindo o peso das responsabilidades a mais e a garota com a sensação de que há excesso de ar sem um maior bloqueio de sua torre, eles seguem com os truques e os sorrisos. Os dias passam fáceis e a grama em torno deles parece ilhá-los da chuva que cai e deixa ensopados os humores.
Ao menos era essa a impressão que a garota tinha. O garoto faz o que pode p’ra não deixar o cinza chegar. Ele preenche os dias dela com truques que ela nunca antes tinha visto. E não são só feitos com cartas. Aliás, seus preferidos não envolvem muita coisa: um pouco mais que palavras.
A garota esperava ansiosa pelos momentos em que as manhãs começavam, as tardes se encurtavam e as noites se dissolviam nas palavras que eles trocavam. O garoto sentava ao seu lado (às vezes chegava a, também, se apoiar na torre da garota) e a conversa percorria o curto caminho de sua miopia. E as mãos da garota, por vezes, soltavam seus joelhos, p’ra encontrar os dele.
O garoto parecia falar em versos. Suas palavras, ainda que nem sempre rimadas, pareciam formar poemas. Ou melhor, canções. E enquanto falava, o garoto realizava mais um de seus truques: uma pauta surgia diante de seu rosto, como se por efeito especial, e levava em suas notas as sílabas ditas por ele. A garota seguia a música diante de seus olhos como uma criança que vê, pela primeira vez, uma roda-gigante: num quase equilíbrio entre o medo que afasta e o encanto que atrai.
Em resposta, o garoto ouvia as palavras da garota, que soavam como se tivessem absorvido o frio anterior da torre. Ou, pelo menos, era como ele as sentia. Palavras fora de pauta, sem melodia ou tom próprio. Era o que ele via sair da garota: palavras e sorrisos vacilantes e gestos inseguros, que pouco saíam de sua zona de segurança.
Mas não era só isso que ela lhe dava.
Por dias, a garota pensou. Já não suportava ver os olhos do garoto à procura de algo além de suas palavras. Queria mostrar algo, encher seus olhos. Mas... o quê?! Não adiantava tentar fazer truques – ela sabe que não tem talento p’ra eles. Além disso, não acredita em gestos repetidos. Somente após alguns dias de relutância, a garota cedeu a sua coragem.
Era uma manhã daquelas que luta p’ra ficar clara. A garota respirou fundo, levantou e se afastou do muro: só por alguns segundos! Correu até o garoto e, o acordando, puxou-o pela mão até a torre. Sem dizer uma palavra, ela apontou para um espaço vazio, do qual um paralelepípedo fora tirado. Não muito seguro do que ia ver, o garoto aproximou seu rosto...
protegido pelo muro, um pequeno jardim florido, no qual todas as flores dançavam ao som das canções que só o garoto entoava.
O garoto continuava a fazer seus truques, agora já mais calmo – já não tão convencido de que fosse sua a responsabilidade de deixar tudo certo. Cada carta tirada do baralho vinha seguida por um sorriso da garota, que começava a se sentir como uma assistente.
Ela acabou por descer do muro para o lado de fora, mas não se afastou de sua torre: continua sentada abraçada aos seus joelhos e tem as costas apoiadas pelo quente – tempos atrás frio – contato com alguns paralelepípedos. Até mesmo para participar dos truques do garoto ela não perde o toque das pedras. Estica, o quanto for necessário, um braço e puxa uma carta. Aliás, quando é preciso esticar os dois braços ela chega a hesitar, curvada sob a força da insegurança.
Mas ainda assim, com o garoto sentindo o peso das responsabilidades a mais e a garota com a sensação de que há excesso de ar sem um maior bloqueio de sua torre, eles seguem com os truques e os sorrisos. Os dias passam fáceis e a grama em torno deles parece ilhá-los da chuva que cai e deixa ensopados os humores.
Ao menos era essa a impressão que a garota tinha. O garoto faz o que pode p’ra não deixar o cinza chegar. Ele preenche os dias dela com truques que ela nunca antes tinha visto. E não são só feitos com cartas. Aliás, seus preferidos não envolvem muita coisa: um pouco mais que palavras.
A garota esperava ansiosa pelos momentos em que as manhãs começavam, as tardes se encurtavam e as noites se dissolviam nas palavras que eles trocavam. O garoto sentava ao seu lado (às vezes chegava a, também, se apoiar na torre da garota) e a conversa percorria o curto caminho de sua miopia. E as mãos da garota, por vezes, soltavam seus joelhos, p’ra encontrar os dele.
O garoto parecia falar em versos. Suas palavras, ainda que nem sempre rimadas, pareciam formar poemas. Ou melhor, canções. E enquanto falava, o garoto realizava mais um de seus truques: uma pauta surgia diante de seu rosto, como se por efeito especial, e levava em suas notas as sílabas ditas por ele. A garota seguia a música diante de seus olhos como uma criança que vê, pela primeira vez, uma roda-gigante: num quase equilíbrio entre o medo que afasta e o encanto que atrai.
Em resposta, o garoto ouvia as palavras da garota, que soavam como se tivessem absorvido o frio anterior da torre. Ou, pelo menos, era como ele as sentia. Palavras fora de pauta, sem melodia ou tom próprio. Era o que ele via sair da garota: palavras e sorrisos vacilantes e gestos inseguros, que pouco saíam de sua zona de segurança.
Mas não era só isso que ela lhe dava.
Por dias, a garota pensou. Já não suportava ver os olhos do garoto à procura de algo além de suas palavras. Queria mostrar algo, encher seus olhos. Mas... o quê?! Não adiantava tentar fazer truques – ela sabe que não tem talento p’ra eles. Além disso, não acredita em gestos repetidos. Somente após alguns dias de relutância, a garota cedeu a sua coragem.
Era uma manhã daquelas que luta p’ra ficar clara. A garota respirou fundo, levantou e se afastou do muro: só por alguns segundos! Correu até o garoto e, o acordando, puxou-o pela mão até a torre. Sem dizer uma palavra, ela apontou para um espaço vazio, do qual um paralelepípedo fora tirado. Não muito seguro do que ia ver, o garoto aproximou seu rosto...
protegido pelo muro, um pequeno jardim florido, no qual todas as flores dançavam ao som das canções que só o garoto entoava.

3 comments:
...
Muito lindo, garotinha...
:-)
...
Uau!
Quando eu disse "uau" o que eu quis fizer foi "UAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAUUUUUU!"
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