Monday, June 04, 2007

I

O ar tem tons pastéis. Muitos pés e pernas brigando por espaço. A calçada é um cinza frio. Gritos:

- Eu a conheço! Quero falar com ela! Não. Me solta!

Um braço uniformizado a segura pela cintura, a disputa de forças é tamanha que os pés abaixo da cintura chegam a flutuar por alguns segundos.


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De um ponto no centro, a claridade aumenta. Branco completo...
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A garota abre a janela e senta na cama diante da vista. Abre seu caderno e com um sorriso

A viagem foi mais tranqüila do que eu esperava: a ansiedade não me tomou, perdeu lugar para a irritação – mais uma comédia sobre um homem que se disfarça de mulher gorda usando pele de borracha? Atravessar o oceano a nado seria mais engraçado!


Lembrete pessoal: atravessar qualquer coisa que seja a nado nunca é engraçado quando é você quem deve atravessar e você não sabe nadar!
Ok,
não esquecerei...

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Já no táxi conseguia sentir o gosto de um novo começo – eu anunciei o endereço desejado, e sabia que demorarei a anunciar o caminho de volta.

O frio de fim de inverno aceitou meu pedido e será meu guia em meus primeiros dias. Pela janela vejo boa parte do que sei que vou encontrar, mas é o que essa janela não me mostra que mais me entusiasma e assusta. Uma última fechada de olhos, respiro fundo e... saio!


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Por um instante, a porta esconde a luz. Mas tão logo ela se fecha, pela janela, a claridade entra sem esforços e toma tudo
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Com passos lentos, a garota parecia saborear cada centímetro de concreto, cada milímetro de vitrine, cada corrente de vento em cada esquina, todas as folhas caídas e o ar que gelava suas narinas e saía de sua boca sem nem agradecer por ter sido aquecido. Eram os passos que há muito vinha ensaiando.

Em menos de cinco minutos já se encontrava dividida pela consciência de sua pequenez diante de anos de vida e obras da humanidade e pela sensação da grandeza de sua curiosidade – o peso da História contra a força motora da paixão. O melhor conflito já experimentado.

Seu corpo ainda tropical a levou a um café: era preciso algo quente, líquido e vapor

Mais bonitos e aconchegantes, parecem mais limpos e tudo que é servido parece delicioso. Que boba! Até os cafés me encantam! Que prazer a vista sob o véu do início de um amor...

Um chocolate quente e um croissant que duraram vários minutos

Casais em passeios pela manhã buscam proteção contra o vento gelado e encontram, além de cafés quentes, mesas pequenas que justificam a proximidade pré-planejada. O burburinho é baixo e cadenciado, sugerindo diálogos clichês que só interessam às bocas que os pronunciam, a menos de um palmo de distância umas das outras.

A um palmo de minha boca, meu último pedaço de croissant. Volto p’ra rua, vou travar diálogos com os fantasmas de séculos e séculos...


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O sol de uma manhã de sábado nublado furou as nuvens e alcançou a cidade que respirava o último golpe do inverno.
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Iluminada pelas luzes falsas de postes, a vista intimidava a garota, fazia parecer mais difícil. Ela fechou as cortinas e se jogou na cama para repassar em sua cabeça o dia vivido, como se fosse preciso guardar cada detalhe na memória para que não perdessem a qualidade de reais

Lembrete pessoal: croissant e chocolate quente não contam como refeição completa!


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A claridade da manhã de domingo ignorou as cortinas – talvez se não fossem brancas...
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A garota finalmente pôde vestir a roupa que havia escolhido (e planejado usar na primeira ocasião que tivesse) antes mesmo de comprar seu bilhete de embarque. Parecia uma bonequinha de pano, ou melhor, uma bonequinha de tecidos pesados e resistentes a baixas temperaturas, mas, ainda assim, uma boneca sorridente à procura de uma menina tão desejosa de companhia quanto ela mesma

O primeiro homem a encontrar o túmulo de Tutankamon, Amélie ao encontrar os tesouros de infância de Dominique Brodeteau e eu ao entrar na Biblioteca Nacional.

Não passo de uma criança e este é o maior parque de diversões onde já estive. Direita ou esquerda? Subo ou desço as escadas? E se eu me perder?! Quanto tempo até que eu decida que é melhor ser encontrada?

O tempo agora se divide em dois: o do mundo lá fora e o da vida aqui dentro. O primeiro é o de sempre, já conhecido e não exatamente interessante. Eu me deixarei ficar com o segundo. Tiro meu relógio e o coloco no bolso junto com essas minhas palavras – elas querem se esconder diante de tantas outras tão mais bonitas.


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O brilho fosco do ouro de brochuras tornava turva a visão
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Minha intenção era chegar até a sala de leitura com o sortudo que tinha escolhido, mas nem sequer me afastei da prateleira: tão logo me virei, a vi...

Traços saídos de um Delacroix, a palidez dos que têm mais horas no quarto do que amigos para celebrar, o brilho vermelho do cabelo que dança mesmo sem vento. Eu senti: era a liberdade que veio me guiar.

- Anais Nïn? – apontou para o livro que sofria o aperto de meus braços que não sabiam o que fazer – Henry Miller – ergueu a mão esquerda – fazemos um par!

Quanto tempo demorei a reagir àquele sorriso? Tempo suficiente p’ra desejar que eu pudesse me acomodar em meu bolso junto ao meu relógio.

Saturday, June 02, 2007

Um bom começo seria abrir meus ouvidos para minhas próprias palavras.

Vamos lá, Ana Carolina. Você consegue!

Friday, June 01, 2007

Abrindo meus olhos e ouvidos

"I have often thought it would be a blessing if each human being were stricken blind and deaf for a few days at some time during his early adult life. Darkness would make him more appreciative of sight; silence would teach him the joys of sound.

Now and then I have tested my seeing friends to discover what they see. Recently I was visited by a very good friend who had just returned from a long walk in the woods, and I asked her what she had observed. 'Nothing in particular,' she replied. I might have been incredulous had I not been accustomed to such responses, for long ago I became convinced that the seeing see little.

How was it possible, I asked myself, to walk for an hour through the woods and see nothing worthy of note? I who cannot see find hundreds of things to interest me through mere touch. I feel the delicate symmetry of a leaf. I pass my hands lovingly about the smooth skin of a silver birch, or the rough, shaggy bark of a pine. In spring I touch the branches of trees hopefully in search of a bud, the first sign of awakening Nature after her winter's sleep. I feel the delightful, velvety texture of a flower, and discover its remarkable convolutions; and something of the miracle of Nature is revealed to me. Occasionally, if I am very fortunate, I place my hand gently on a small tree and feel the happy quiver of a bird in full song. I am delighted to have the cool waters of a brook rush through my open fingers. To me a lush carpet of pine needles or spongy grass is more welcome than the most luxurious Persian rug. To me the pageant of seasons is a thrilling and unending drama, the action of which streams through my finger tips.

At times my heart cries out with longing to see all these things. If I can get so much pleasure from mere touch, how much more beauty must be revealed by sight. Yet, those who have eyes apparently see little. The panorama of color and action which fills the world is taken for granted. It is human, perhaps, to appreciate little that which have and to long for that which we have not, but it is a great pity that in the world of light the gift of sight is used only as a mere convenience rather than as a means of adding fullness to life.

If I were the president of a university I should establish a compulsory course in 'How to Use Your Eyes'. The professor would try to show his pupils how they could add joy to their lives by really seeing what passes unnoticed before them. He would try to awake their dormant and sluggish faculties.

(...)

Oh, the things that I should see if I had the power of sight for just three days!"


Three Days to See
Helen Keller (1880-1968)