Sunday, January 29, 2006

Prismas

Uma tarde de sábado. Um garoto e uma garota. Céu cinzento. Uma feira daquelas onde se encontra de tudo. Vento. Pingos de chuva que se atrasaram e chegam sozinhos. Um mirante numa torre. Fotos. Algodão-doce.

Suas mãos não encontram descanso. Seus braços gesticulam como numa dança de má improvisação. Seus olhares se evitam tentando conter o embaraço que já os toma. Mexem em lembrancinhas, lêem camisetas, brincam com chapéus.

Ligeiros, os pés se mantêm tão secos quanto conseguem através das poças. Os passos começam a tentar acompanhar a velocidade das palavras. Palavras quaisquer. Não importa, são só p’ra abafar o silêncio que inquieta ainda mais.

Não se tocam. Nem mesmo seus ombros se esbarram. A distância entre eles é visivelmente proposital. Assim, não concordam quanto que direções tomar. Ele assume seu papel e aponta o lado escolhido. Ela segue.

Não sabem o que fazem. Nem o que devem fazer. Não sabem. Não fazem.

O que falta p’ra eles? Precisam que alguém os diga o que todos já sabem? Será preciso mostrar o que todos vêem?

Mas, o que eles vêem?

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Uma tarde de sábado. Um garoto e uma garota. Céu cinzento. Uma feira daquelas onde se encontra de tudo. Vento. Pingos de chuva que se atrasaram e chegam sozinhos. Um mirante numa torre. Fotos. Algodão-doce.

Braços que se cruzam. Ombros que se encolhem. Mãos que fogem para os bolsos. Olhos que se escondem por trás de camisetas, bonés, canecas. “Eu gravo sua mensagem num chaveiro na hora, é só escolher.”

Os pés desviam das poças, restos da água que há pouco parecia querer derrotar quem se atrevesse a caminhar sob ela. “Foi bom, diminuiu o calor que estava demais.” Palavras que saem como se viessem dos pensamentos de outras pessoas que não deles.

Um dedo indicador aponta a direção. Corpos que não se conhecem, não sabem andar lado a lado. Por vezes parecem querer seguir por lados opostos – talvez queiram. Os passos são medidos. Não há ritmo, só inércia.

Modo automático. Modo educado. Modo distante. Modo ausente em plena presença.

Friday, January 20, 2006

O começo da batalha

Existe um "ensinamento" mundialmente famoso: "Plante uma árvore. Escreva um livro. Tenha um filho." Resolvi segui-lo, fazendo pequenas adaptações, é claro. Ficou assim: "Aprenda um idioma esdrúxlo. Escreva um roteiro legal. Aprenda tudo o que puder sobre tudo o que quiser."

Estou decidida a (pelo menos tentar) aprender islandês. Vou passar a escrever as idéias que tenho, ao invés de abandoná-las no segundo dia. Vou ler, pesquisar, perguntar, descobrir o máximo que conseguir sobre coisas que me interessam (fotografia, arte, cinema, literatura,...).

Ok, sei que a qualquer momento o despertador vai tocar, vou acordar, encarar meu reflexo no espelho do banheiro e ainda não saber como se diz idiossincrasia em irlandês, nem como tirar uma foto mostrando a sombra de meus cílios sobre o rosto de alguém, nem como reconhecer um andante numa obra de Mozart, muito menos quais os temas preferidos de William Blake,...

Pior, nem preciso de um despertador, tenho a mim mesma! Sou o grande "lembrete" de que minhas chances são mínimas. Começa agora uma batalha entre eu e eu mesma! Infelizmente, não há torcida. Nem eu mesma acredito e torço por mim.

Nem minha mãe! Minhas últimas idéias não merecem mais do que um "Tá bom, filha" (dito no mesmo tom de "Sim, eu sei que você vai ganhar na loteria um dia. Agora, passa o controle da TV, vai.")

Vou aprender, conhecer, saber muitas novas coisas. Acredite se puder, Ana Carolina!

Toda essa confiança só vai ajudar...
"...þetta er ágætis byrjun"
(isso é um bom começo)

Thursday, January 05, 2006

Um site, eu descrita!

Hoje, sem querer, encontrei um site que me descreve. Ok, não só ME descreve, descreve muita gente.

Teoria Pedestáltica

Eu não sabia se ria ou chorava ao ler alguém, que nem sei quem é, narrar situações que já vivi, idéias e sensações que tive. Será que ele esteve me observando? Será que me ouviu falar sozinha p’ra saber tantas coisas?

As músicas citadas... Ai, ai. A cada quadradinho escuro eu ria mais. Tirando os que não gosto, U2 (eca) e Oasis (argh! A exceção: “Wonderwall”, eles tinham que fazer algo decente, não?), e Whitesnake, Maybees e algumas do Travis, do Radiohead e do Guns que não conhecia, eu já conhecia e ouvia todas. E me identifico com elas. Muito!

Ler esse site foi como ler páginas que nunca escrevi, percorrer parte da minha lista de mais tocadas, reviver dias e momentos que são exibidos continuamente em alguma sala de projeção na minha memória.

Quanto ao fim... Ainda não cheguei lá.

Tuesday, January 03, 2006

O que tem ecoado em mim

Bleh, tenho reflexões de ano novo, mas enquanto não as concluo deixo aqui algo que acho muito bonito.

Nothing Better - The Postal Service

Will someone please call a surgeon
Who can crack my ribs and repair this broken heart
That you're deserting for better company?
I can't accept that it's over...
I will block the door like a goalie tending the net
In the third quarter of a tied-game rivalry

So just say how to make it right
And I swear I'll do my best to comply

Tell me am I right to think that there could be nothing better
Than making you my bride and slowly growing old together

I feel I must interject here you're getting carried away feeling sorry for yourself
With these revisions and gaps in history
So let me help you remember.
I've made charts and graphs that should finally make it clear.
I've prepared a lecture on why I have to leave

- So please, back away and let me go
- I can't, my darling, I love you so...

Oh, oh

Tell me am I right to think that there could be nothing better
Than making you my bride and slowly growing old together
Don't you feed me lines about some idealistic future
Your heart won't heal right if you keep tearing out the sutures

I admit that I have made mistakes and I swear
I'll never wrong you again
You've got a lure I can't deny,
But you've had your chance so say goodbye
Say goodbye

Sunday, January 01, 2006

O último do ano

Maringá, 31 de dezembro de 2005 (4 da manhã)

Primeiras horas do último dia do ano. Como não consegui dormir optei pelo papel e pela caneta. Uma tentativa de voltar a escrever com certa frenqüência, recuperar minha válvula de escape.

"Oh, my heart can't carry much more
It's really, really aching and sore"*

Estou me acostumando a estar em Maringá e a idéia de voltar p'ra Brasília não se mostra muito tentadora. Aqui os dias têm passado sem eu nem perceber. Contribuindo para que eu consiga deixar de existir aos poucos.

É minha vontade atual (volúvel pouco, não?): desaparecer aos poucos, como o Michael J. Fox em "De Volta Para o Futuro", enquanto ele está tocando guitarra num baile, ou ainda como o cara no clipe do Cold Play, "God Put a Smile Upon Your Face".

Lembrando agora, por esses exemplos, desaparecer assim deve ser desesperador. Mas, sei lá. Do jeito que eu imagino é indolor e tranqüilo. Não é muito rápido e nem muito demorado. Conforme vou sumindo, vou me sentindo aliviada. Não paro p'ra pensar na minha vida mediocremente vivida (coisas que fiz, deixei de fazer; coisas que falei, que calei; "o beijo de amor que nunca roubei"; as confissões que só me deixaram mais vulnerável;... nada!). Não penso em nada. A cada parte que desaparece, meu sorriso se completa. É libertação.

Desde quando eu sou do tipo que deseja liberdade? Bleh, conceitos vazios. Por que vocês têm feito sentido p'ra mim?

Ah, falando em fazer sentido...
Tantas músicas, tantos versos que eu sempre achei lindos. Nunca quis que eles fizessem sentido, mas agora eles fazem.

"My heart don't beat like before
It's never been this slow"*

É tão bobo. Eu, já há algum tempo, deixei de esperar "p'ra sempre", entendi e aceitei que as coisas, as relações, os sentimentos mudam e até acabam. E agora estou aqui, lamentando uma mudança (ou será um fim?).


Pfff... Tanto tempo p'ra ter certeza do que sinto e agora... "Ops, hora de mudar"?!

A verdade é que já mudou. Só não sei o que, nem como, o que sobrou... Mas sei uma coisa: não quero passar mais tempo tentando entender, agora, esse novo sentir. Não dá, eu não vou agüentar se tiver que passar por isso de novo.

Bleh, p'ra que me preocupar com isso agora? Acredito que daqui uns dias (muitos talvez, mas já não conto os segundos) vou poder ver "a quantas" as coisas ficaram.

"But you couldn't care less, could you?"*


* "Couldn't Care Less" - The Cardigans