O garoto começou uma viagem que levaria seus truques p’ra longe. E a garota voltou p’ra sua torre. O buraco que há pouco emoldurava um jardim dançante agora exibia em sua tela o garoto se afastar num grande pássaro branco. A garota ficou. Assistindo. Até que pássaro deixou de ser um minúsculo ponto e desapareceu – como se fosse mais um truque.
Dentro da torre, a garota tinha dificuldade em manter as canções soando. Ela se mexia tanto que o som mais alto era sua inquietação. As flores dançavam numa mistura de recordação e medo: mesmo soando baixo agora, na lembrança as canções ainda tinham volume alto; mas será que demorariam a voltar a ser mais que lembrança?
A garota olhava para as flores e sentia preguiça de dançar. Preguiça não, desânimo. Não queria que o jardim ficasse quieto, só queria ela mesma ficar. Sentou-se no chão, abraçou seus joelhos, como de costume, e desejou que houvesse mais para abraçar do que suas próprias pernas.
Cansada de olhar para a tela vazia, deitou-se junto às flores e tentou não pensar no quase silêncio. Olhava para o chão e para os caules tão verdes que se mexiam num ritmo agradável. A garota sorriu: as canções ainda soavam, no eco protegido pelos paralelepípedos da sua torre.
Sem se esticar muito, a garota levou sua mão à parede. Não havia o frio de pedra, mas um tremor ritmado e quente – mais um truque do garoto, ela teve certeza.

1 comment:
Muito bom. MESMO. :-)
O que mais me impressiona e' como seus textos nao sao longos ou curtos - mas como voce sempre consegue se expressar tao bem usando o numero "certo" de palavras. Nem a mais, nem a menos.
Adoro voce, boboca! Saudades! :-)
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