Thursday, November 22, 2007

Depois do Sol

Eram três garotos e uma garota.

Era uma vez um garoto que sonhava navegar até o amor. Ele tentou reunir uma tripulação que o ajudasse, pois achava que sabia como seriam as travessias. No entanto, o garoto partiu numa viagem solitária: construiu um barco com suas próprias idéias, o qual direcionava com suas próprias visões, enquanto remava com suas próprias desculpas. Era uma embarcação simples, feita de papel e palavras. Somente o timão era de material diferente: um metal comum, mas que facilmente é confundido com um nobre. Uma pena para o garoto: toda luz que deveria nortear sua jornada, caía sobre seu timão, ofuscando sua visão.

Era uma vez um garoto que cantava e dançava como se ninguém estivesse olhando. Num momento de carência, ele tentou um novo repertório. Não durou uma canção. Mas foi num momento de tristeza que o garoto errou na dança e caiu no passado. Canções e passos que ele já sabia de cor, voz e corpo agindo no automático, só reagindo. Na coreografia repetida tantas vezes, o riso do garoto se desfez.

Era uma vez um garoto que esperava, num passe de mágica, roubar, ou melhor, furtar o coração de uma garota. Mas, infelizmente p’ra ele, num raro momento de pouca sorte, seus truques caíram sobre um muro. A sorte, ainda que pouca, estava no fato de que sobre o muro estava uma garota.

Era uma vez uma garota sentada sobre um muro. Mas não era um muro qualquer, era o seu muro. Mais que isso: um conjunto de paralelepípedos escuros que formavam uma pequena torre. Sentada sobre o muro, a garota olhava para os chãos – o de dentro do muro, de um verde escuro à sombra; e o de fora, verde forte, reflexo do sol – com cara de quem tentava lembrar “onde eu estava mesmo?”. Mas logo desistia, mudava a cara p’ra “fazer o quê, né?” e abraçava seus joelhos. O tempo passava.

Por um tempo os quatro estiveram juntos, planejando uma aventura. Mas ainda eram dois garotos e um garoto e uma garota. Nos planos, eles se preocupavam: “preciso construir meu barco. Bom é que já sei como e já tenho um timão”; “quais canções vou cantar? Quero algo novo... mas as letras antigas não saem da minha cabeça”; “eu vou descer... mas p’ra qual lado?”; “qual é mesmo o truque p’ra manter tudo certo?”.

Num dia de muito sol, a garota se amedrontou. Antes de pular de volta p’ra segurança de sua torre, deu uma olhada: um garoto levantava âncora, partindo com o sol às suas costas; um garoto entoava versos como um robô programado.

Ajoelhada à sombra, com a mão contra o muro, a garota puxou um dos paralelepípedos e pediu, num tom que quase não se escuta: “Eu quero sair, eu vou sair. Eu só preciso de alguns instantes aqui”.

Um garoto: não aplaudiu o número musical e pediu por algo novo; escreveu uma carta com instruções de como conseguir ajuda, fechou-a e lançou-a ao mar; ficou (do ponto de vista da garota, emoldurado como numa micro-tela de cinema) ao lado do muro, treinando seus truques, tentando lembrar aquele que faz tudo voltar a ficar bem...

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