Thursday, August 03, 2006

Não sei...

Seus braços doíam, não sabia porquê. Bem na região onde se costuma tirar sangue. Doíam esticados, doíam dobrados. Não havia posição que melhorasse e, por isso, não conseguia relaxar.

Estava sentado numa cadeira de plástico laranja. Daquelas que parecem gritar “ANOS 80”. Apoiava os cotovelos nos apoios p’ra braços e... doíam. O lugar era mal iluminado e fedia, como rodoviárias. Mesmo sabendo que o vai-e-vem de pessoas era intenso, não via ninguém. Sua vista estava reduzida a um quadrado de limites: os apoios p’ra braços de sua cadeira na largura, e a altura ia de seus pés até seu tórax.

Quando erguia a cabeça, além de sentir uma forte dor no pescoço, não enxergava nada! Escuridão. Ficava cego. O mesmo acontecia quando olhava para os lados. Seus pés, suas pernas, seu tórax, seus braços – era só isso que via.

Pensou em levantar, mas seus pés permaneciam imóveis. Seu cérebro mandava o comando, mas eles não obedeciam. Desesperou-se: sentia, sabia que tentava mexer seus pés, fazia força, mas os enxergava inertes, como se a o outro pertencessem.

Quis gritar! Num reflexo, ergueu a cabeça – escuridão. Abriu a boca, mas nada saiu. Pensou em mexer seus braços, gesticular até chamar a atenção de algum dos que passavam (sabia que não eram poucos). Mas, agora, doíam ainda mais.Olhou para a única área que enxergava e percebeu seus braços também imóveis. Dobrados em “V” como nos manequins de vitrine.

O grito que não saía o sufocava a garganta, seu corpo todo paralisado, seu desespero preso a um quadrado de vista. Os passos, o grito, os gestos, o socorro...

Das bordas, um contorno escuro foi crescendo em direção ao centro do quadrado. Sobrava um círculo de visão que ia diminuindo, diminuindo,...

O grito sufocando, os braços doendo,...

...diminuindo, diminuindo,...

Os olhos cheios de medo...

Escuridão!

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