Mais um prendedor em mais um papel em seu Varal de Fracassos.
Neste estavam algumas poucas palavras: os primeiros parágrafos de um livro. A estória de uma garota que vivia em um só cômodo. Seu quarto, seu mundo, sua vida.
Com um sorriso de uma criança que, ao ver seu brotinho de feijão morrer no algodão, se lembra dos momentos verdes que teve, ela olhou seu varal. Contou de relance, sem querer exatidão e chegou à marca de uma parede cheia!
Livros começados, filmes velados, cartas não acabadas, fotos tremidas. Suas idéias mais íntimas, todas enfileiradas, lado a lado, se seguravam ao barbante. Com uma resistência descuidada, elas se mantinham firmes – muito mais do que jamais estiveram quando eram ainda só idéias em sua cabeça.
O primeiro de todos, um filme asa 400 completamente preto. Ela riu, lembrando que o erro, dessa vez, foi tão tolo que fez nascer a idéia do varal: um lembrete das tolices que estragam as coisas. Aqui nasceu o Varal do Fracasso. Numa dessas noites iguais a tantas outras: o canto das cigarras ensurdecia e trazia a mente técnicas de tortura (pingos de água na testa, músicas do Barney, episódios de novelas das seis, tudo isso ad nausea), a chuva ameaçava mas não caía, o vizinho fumava junto à janela e a fumaça subia, é claro, até sua sala. Dessa situação só poderia sair uma grande idéia mesmo...
Curioso: o Varal dos Fracassos parece ser sua única idéia que não fracassou. Curioso e quase poético. Talvez chegue a poético numa noite de terça-feira.
Mas, não era terça...
Ela continuou a olhar o varal, mas agora olhava também com os dedos: uma folha tão fina que ao toque lembrava um lençol e ao olhar deixava suas linhas e a letras quase indistintas do fundo branco. Quase não se sentia, quase não se enxergava. Mais uma vez, o riso foi inevitável: essa era a sua lista “Se souber responder essas questões, é você”. Agora, as questões não passavam de traços leves que não mudavam mais nem mesmo a folha na qual estavam escritas.
verba volant, scripta manent... Mas, até quando?
Alguns passos e estava diante de um conjunto de fotos. Pregadas aos pares, elas ocupavam pouco espaço físico, mas muito visual: eram o centro do varal e também, mas não por isso, o ponto que puxava os olhos tão logo se entrava no quarto.
Eram borrões em papel fotográfico. Cortes rápidos e brilhantes. Corpos que se mexiam deixando um rastro. “P’ra onde?” e seus olhos continuavam lá. Talvez fosse a impossibilidade de se enxergar o que pretendiam retratar, mas algo nessas fotos pareciam lançar um desafio de resistência; uma vez aceito o desafio, os olhos eram vencidos, mas as manchas indefinidas continuavam a passar rápidas pela mente.
Modo reprise. Fotos, páginas, letras, idéias agora passavam por sua cabeça como um filme de Jorge Furtado. Seus olhos corriam pelos prendedores, suas mãos estalavam seus dedos até estes se trançarem, seus pés marcavam o ritmo de sua excitação... Estava longe de uma ilha de flores, mas ainda assim sorria:
uma parede cheia, um varal cheio. Um varal cheio de fracassos. E ela não conseguia olhá-los sem sentir seu peito se encher do ar da realização.
1 comment:
Drummond uma vez botou fogo em um varal...
"Incendiou um varal de roupas da casa de umas moças. Aí bateu à porta se oferecendo para apagar o fogo. Queria observá-las de camisola fugindo das chamas."
Saudoso Drummond!!
Beijos...
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