...e deixam ouvir
Acordei e logo ouvi um dos meus dois bons-dias de sempre.
Curioso que o volume era baixo. Não sabia dizer se já tinha se passado o momento auge dos gritos ou se este ainda nem tinha começado. Na cozinha, peguei um copo e uma colher sem fazer barulho. Não queria que percebessem que eu estava ali – elas já estavam desconfortáveis o suficiente só as duas, lembrar que há outras pessoas tão perto não ajudaria em nada.
Mas, uma voz masculina tirou minha sensação de reconhecimento da cena. E, quando outras duas vozes masculinas soaram, eu já não sabia o que esperar. Apenas uma porta nos separava mas, será que era suficiente? Por alguma razão que não sei qual é, não me sentia segura.
Meu coração batia num misto de pena e medo – por sentir que a porta poderia, a qualquer momento, se dissolver no ar e minha voz, ser somada ao coro que agora me assustava.
Elas continuavam a discutir, vez ou outra um grito, vez ou outra a participação de um dos homens: a gravidade não era só por se tratar de um homem falando, havia gravidade nas palavras, na entonação.
Minha insegurança crescia na mesma proporção que meus batimentos se aceleravam. A porta começava a se dissolver. Por desespero, abandonei o copo, a colher e a idéia do café-da-manhã sobre a bancada, e tentei manter meu escudo: as mãos espalmadas e a cabeça apoiada pediam, por favor, para que a matéria não me deixasse.
Meu pedido silencioso foi interrompido pela gravidade das palavras. Respirei (me senti respirar), consegui abrir os olhos e posicionar um deles diante do olho-mágico. O diâmetro tão pequeno emoldurou um tecido preto com bordado branco, POLÍCIA.
Uma porta já não bastava. O volume agora era mais alto. Como sempre, uma delas gritava; como sempre, seus gritos eram finos mas sufocavam os ouvidos, transformando o silêncio na saudade mais dolorida que se pode ter e num desejo que derruba.
Precisava me encolher como se isso diminuísse minha capacidade de ouvir. Voltei para o meu quarto – meu quarto, meu mundo, certo? Pois meu mundo tem vista para o final da discussão.
Meus ouvidos queriam que eu me encolhesse ainda mais, mas meus olhos queriam me fazer acreditar. Olhos vencedores, fui até a janela. Puxei um canto da cortina e me deparei com janelas dotadas de vidros, metais e cabeças. Três andares abaixo, o carro, as três vozes graves (agora já caladas de impaciência), a voz baixa aconselhando e a voz alta resistindo.
Uma entrou no banco de passageiros, a outra, ainda resistindo, pareceu se perder por instantes e olhou para seus pulsos – seus olhos também queriam fazê-la acreditar –, eram algemas. Da descrença, seu olhar passou para o medo: a porta traseira fora aberta. A impaciência que calara as vozes, agora movia os braços que empurravam, mesmo ela insistindo em ir sozinha.
Dois: um de cada lado, um p’ra cada braço, ela foi colocada – sem delicadeza – no “bagageiro”:
- Eu não consigo respirar aqui!
O último grito. O baque seco da porta traseira. E, finalmente, ganhei de volta o silêncio.
Mas já não era como antes...
Acordei e logo ouvi um dos meus dois bons-dias de sempre.
Curioso que o volume era baixo. Não sabia dizer se já tinha se passado o momento auge dos gritos ou se este ainda nem tinha começado. Na cozinha, peguei um copo e uma colher sem fazer barulho. Não queria que percebessem que eu estava ali – elas já estavam desconfortáveis o suficiente só as duas, lembrar que há outras pessoas tão perto não ajudaria em nada.
Mas, uma voz masculina tirou minha sensação de reconhecimento da cena. E, quando outras duas vozes masculinas soaram, eu já não sabia o que esperar. Apenas uma porta nos separava mas, será que era suficiente? Por alguma razão que não sei qual é, não me sentia segura.
Meu coração batia num misto de pena e medo – por sentir que a porta poderia, a qualquer momento, se dissolver no ar e minha voz, ser somada ao coro que agora me assustava.
Elas continuavam a discutir, vez ou outra um grito, vez ou outra a participação de um dos homens: a gravidade não era só por se tratar de um homem falando, havia gravidade nas palavras, na entonação.
Minha insegurança crescia na mesma proporção que meus batimentos se aceleravam. A porta começava a se dissolver. Por desespero, abandonei o copo, a colher e a idéia do café-da-manhã sobre a bancada, e tentei manter meu escudo: as mãos espalmadas e a cabeça apoiada pediam, por favor, para que a matéria não me deixasse.
Meu pedido silencioso foi interrompido pela gravidade das palavras. Respirei (me senti respirar), consegui abrir os olhos e posicionar um deles diante do olho-mágico. O diâmetro tão pequeno emoldurou um tecido preto com bordado branco, POLÍCIA.
Uma porta já não bastava. O volume agora era mais alto. Como sempre, uma delas gritava; como sempre, seus gritos eram finos mas sufocavam os ouvidos, transformando o silêncio na saudade mais dolorida que se pode ter e num desejo que derruba.
Precisava me encolher como se isso diminuísse minha capacidade de ouvir. Voltei para o meu quarto – meu quarto, meu mundo, certo? Pois meu mundo tem vista para o final da discussão.
Meus ouvidos queriam que eu me encolhesse ainda mais, mas meus olhos queriam me fazer acreditar. Olhos vencedores, fui até a janela. Puxei um canto da cortina e me deparei com janelas dotadas de vidros, metais e cabeças. Três andares abaixo, o carro, as três vozes graves (agora já caladas de impaciência), a voz baixa aconselhando e a voz alta resistindo.
Uma entrou no banco de passageiros, a outra, ainda resistindo, pareceu se perder por instantes e olhou para seus pulsos – seus olhos também queriam fazê-la acreditar –, eram algemas. Da descrença, seu olhar passou para o medo: a porta traseira fora aberta. A impaciência que calara as vozes, agora movia os braços que empurravam, mesmo ela insistindo em ir sozinha.
Dois: um de cada lado, um p’ra cada braço, ela foi colocada – sem delicadeza – no “bagageiro”:
- Eu não consigo respirar aqui!
O último grito. O baque seco da porta traseira. E, finalmente, ganhei de volta o silêncio.
Mas já não era como antes...

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