Tínhamos passado a manhã e a tarde dentro do colégio. Durante o dia, vimos passar os mesmos rostos que passavam na época em que eu estudava por lá. Já à noite, só restávamos nós duas. Nem sei quem ela era. Só sei que estava comigo, nesse dia tão estranho.
O mais estranho em relação a esse dia é que ele só entrou na minha memória, só foi adicionado aos arquivos de minha lembranças quando eu me forcei a lembrá-lo, dias depois. Quando percebi que havia uma lacuna. Faltavam todo um dia e algumas horas antes e depois dele.
Eu sabia qual era o dia e, mais, eu sabia o que eu tinha feito. Eu a tinha matado. Sabia até como – estrangulada com um cadarço vermelho. Mas não me lembrava. Fechava os olhos e não conseguia me ver apertando o fio cor-sangue. Muito menos enxergava o porquê de tê-lo feito.
Foi quando meu irmão quis me provocar, “Aproveita e leva o seu cadarço p’ra polícia examinar”, que senti meu coração chegar ao estômago. A culpa vinha doendo fraca, mas as palavras dele (que nem sabia que havia acertado) me fizeram achar a lacuna e, nela, a culpa cresceu.
Eu precisava lembrar, precisava saber o que havia me levado a matar aquela garota. Aquela que nem sei quem era.
O prédio em formato de L, com suas paredes revestidas com pastilhas onduladas, num tom de amarelo anêmico. À noite, o lugar tinha ainda menos vida. A iluminação era digna de cena de reconstituição de crime em seriados investigativos. Ao invés do concreto frio, o pátio tinha areia misturada com terra – não sei como ou por quê.
Eu sabia dizer quem havia estado ali horas antes conosco, ainda tinha seus rostos na lembrança tão recente e me sentia indiferente a eles. Eu estava com ela. Quem era ela afinal? Ela que caminhava comigo, no escuro e no silêncio, pelas minhas lembranças. Mesmo sem tê-las vivido, ela se lembrava comigo. E o silêncio que ajudava a manter tornava desnecessárias as palavras.
Caminhávamos sem precisar combinar a direção. Estávamos em sincronia e em paz. Isso foi o mais difícil em meu ato de lembrar esse dia: lembrar do sossego que havia entre nós, e saber que em poucos minutos ele seria quebrado. Junto com o sopro de alegria que saía daquela moça e chegava até mim.
A linha que nos unia se estreitou num nó ainda mais forte: nos demos as mãos. Nossos dedos se entrelaçaram com tal força que eu sentia o sangue pulsando em sua veia, entre sua pele e um dos metacarpos. Como se já não estivéssemos numa cena clichê o suficiente, sorríamos como numa propaganda de margarina.
E foi com alguma frase boba como essa, que fazia piada da nossa situação, que a trouxe p’ra ainda mais perto de mim. Começou assim uma seqüência de tapinhas e empurrões. Por um tempo, foram golpes limitados, já que cada uma só tinha uma mão disponível. Mas não demorou muito até que ela soltasse minha mão para poder acertar um golpe mais eficiente.
Com um tapa, um movimento de pernas e um sorriso enorme, ela me derrubou sobre ela, na terra. O chão era fofo e o ar a nossa volta ficava mais denso, com grãos de areia pulando e caindo a cada novo golpe que dávamos uma na outra. Na verdade, golpe já não explica bem. Caídas sob a areia, nos mexíamos numa mistura de brincadeira infantil e desejo ainda não experimentado.
Seus cabelos longos balançavam como se não estivessem pesados, com areia e terra. Seu sorriso era de quem incentiva e provoca. Suas mãos brincavam de prender-querendo-soltar as minhas. E todo seu corpo se mexia ditando o ritmo do meu. Nós duas sabíamos que o momento do beijo se aproximava, e não sentíamos vontade de apressá-lo. Ele aconteceria.
Mas não foi assim.
A lacuna ainda existe, e toma forma de precipício. Para onde o ar escorrega, me deixando sufocada.
Perco o ar, como a fiz perder também. Não lembro do cadarço saindo de meu bolso, nem de seus olhos pedindo p’ra que eu parasse. Nem sequer lembro como passamos de pernas entrelaçadas, para nó no pescoço.
Algo borrado, sobre um arranhão acidental, surge em minha visão. Mas não consigo acreditar que foi isso que me moveu. Eu a matei. E não sei por quê.
Aperto entre os dedos de minha mão, em meu bolso, o pedaço de linhas vermelhas. Tudo o que sinto são essas linhas, a falta de ar e a culpa. A certeza de não ser descoberta amplifica tudo isso.
Abro meus olhos para a claridade do dia. Só ela pode trazer luz ao precipício...
O mais estranho em relação a esse dia é que ele só entrou na minha memória, só foi adicionado aos arquivos de minha lembranças quando eu me forcei a lembrá-lo, dias depois. Quando percebi que havia uma lacuna. Faltavam todo um dia e algumas horas antes e depois dele.
Eu sabia qual era o dia e, mais, eu sabia o que eu tinha feito. Eu a tinha matado. Sabia até como – estrangulada com um cadarço vermelho. Mas não me lembrava. Fechava os olhos e não conseguia me ver apertando o fio cor-sangue. Muito menos enxergava o porquê de tê-lo feito.
Foi quando meu irmão quis me provocar, “Aproveita e leva o seu cadarço p’ra polícia examinar”, que senti meu coração chegar ao estômago. A culpa vinha doendo fraca, mas as palavras dele (que nem sabia que havia acertado) me fizeram achar a lacuna e, nela, a culpa cresceu.
Eu precisava lembrar, precisava saber o que havia me levado a matar aquela garota. Aquela que nem sei quem era.
O prédio em formato de L, com suas paredes revestidas com pastilhas onduladas, num tom de amarelo anêmico. À noite, o lugar tinha ainda menos vida. A iluminação era digna de cena de reconstituição de crime em seriados investigativos. Ao invés do concreto frio, o pátio tinha areia misturada com terra – não sei como ou por quê.
Eu sabia dizer quem havia estado ali horas antes conosco, ainda tinha seus rostos na lembrança tão recente e me sentia indiferente a eles. Eu estava com ela. Quem era ela afinal? Ela que caminhava comigo, no escuro e no silêncio, pelas minhas lembranças. Mesmo sem tê-las vivido, ela se lembrava comigo. E o silêncio que ajudava a manter tornava desnecessárias as palavras.
Caminhávamos sem precisar combinar a direção. Estávamos em sincronia e em paz. Isso foi o mais difícil em meu ato de lembrar esse dia: lembrar do sossego que havia entre nós, e saber que em poucos minutos ele seria quebrado. Junto com o sopro de alegria que saía daquela moça e chegava até mim.
A linha que nos unia se estreitou num nó ainda mais forte: nos demos as mãos. Nossos dedos se entrelaçaram com tal força que eu sentia o sangue pulsando em sua veia, entre sua pele e um dos metacarpos. Como se já não estivéssemos numa cena clichê o suficiente, sorríamos como numa propaganda de margarina.
E foi com alguma frase boba como essa, que fazia piada da nossa situação, que a trouxe p’ra ainda mais perto de mim. Começou assim uma seqüência de tapinhas e empurrões. Por um tempo, foram golpes limitados, já que cada uma só tinha uma mão disponível. Mas não demorou muito até que ela soltasse minha mão para poder acertar um golpe mais eficiente.
Com um tapa, um movimento de pernas e um sorriso enorme, ela me derrubou sobre ela, na terra. O chão era fofo e o ar a nossa volta ficava mais denso, com grãos de areia pulando e caindo a cada novo golpe que dávamos uma na outra. Na verdade, golpe já não explica bem. Caídas sob a areia, nos mexíamos numa mistura de brincadeira infantil e desejo ainda não experimentado.
Seus cabelos longos balançavam como se não estivessem pesados, com areia e terra. Seu sorriso era de quem incentiva e provoca. Suas mãos brincavam de prender-querendo-soltar as minhas. E todo seu corpo se mexia ditando o ritmo do meu. Nós duas sabíamos que o momento do beijo se aproximava, e não sentíamos vontade de apressá-lo. Ele aconteceria.
Mas não foi assim.
A lacuna ainda existe, e toma forma de precipício. Para onde o ar escorrega, me deixando sufocada.
Perco o ar, como a fiz perder também. Não lembro do cadarço saindo de meu bolso, nem de seus olhos pedindo p’ra que eu parasse. Nem sequer lembro como passamos de pernas entrelaçadas, para nó no pescoço.
Algo borrado, sobre um arranhão acidental, surge em minha visão. Mas não consigo acreditar que foi isso que me moveu. Eu a matei. E não sei por quê.
Aperto entre os dedos de minha mão, em meu bolso, o pedaço de linhas vermelhas. Tudo o que sinto são essas linhas, a falta de ar e a culpa. A certeza de não ser descoberta amplifica tudo isso.
Abro meus olhos para a claridade do dia. Só ela pode trazer luz ao precipício...

1 comment:
!!!!
:D :D :D
Seus contos são uma delícia.
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