Terça-feira, 06 de junho de 2006. Pela manhã, meu professor profetizou: "Seis, do seis do seis. Um bom para nascer o Anti-Cristo... ou para algum louco fazer alguma grande bobagem."
Se nasceu o Anti-Cristo, o pró-Cristo, se algum louco fez alguma bobagem (grande ou pequena), se algum bobo fez alguma loucura (grande ou pequena) não sei, só sei que... Fernanda Young.
Passei o dia esperando às 6 e meia chegar p'ra pegar o táxi (maldita cidade projetada p'ra pessoas com carro). Chegou... mas o táxi não! O ponto estava vazio. Em minha cabeça uma vozinha sacana repetia: "Murphy, Murphy, Murphy..." E eu sabia que ela não falava do Robocop! Felizmente, meu pessimismo foi derrotado ("quem acha que perder é ser menor na vida"? Perdi com gosto). Em poucos minutos, após superarmos o trânsito de volta p'ra casa, cheguei a Caixa Cultural. Ah, caso um dia estejam em Brasília e quiserem ir a Caixa Cultural, digam ao taxista que vai a Caixa Ecônomica, eles não sabem que o teatro fica na mesma área.
Logo que entrei no prédio: fones brancos no ouvido (provavelmente um IPod. Bundão!), camiseta do "Laranja Mecânica", óculos com armação grossa retangular e escura, All Star pretos com estrelas brancas e aquela cara de tédio, tudo no melhor estilo "mamãe, quero ser cult". Sentei na proltona vaga, ao lado deste ser "indie".
Quinze para às sete. "Que horas vai abrir?", "Às sete", "Obrigado". Por que as pessoas falam tão alto? Por que eu ainda cometo esse erro tolo de sair de casa sem fones no ouvido??? (pretos, viu?). Cinco p'ra sete. "Que horas vai abrir?", "Às sete", "Ah, então falta pouco". Sete e dois. "Que horas vai abrir?", eu olhei no relógio e pensei: o quão cretino será ele responder "Às sete"? E o quão mais cretino será eu retrucar "Então vai daqui a dois minutos atrás!"? "Às sete". Bleh... Deixei passar.
Sentei na terceira fileira, mas a câmera apontada p'ra mim me fez re-escolher meu lugar. Acabei ao lado de uma garota que não sabe ler. Só pode não saber! Entrou com um saco do McDonalds e comeu dentro do teatro logo após passar pelo aviso: "Proiba a entrada com bebidas e alimentos". Hmmm, o "porteiro" além de atrasado é cego? Ou será incompetente mesmo?
Falando em competência, às sete e meia (horário marcado p'ra começar o programa) descobriram que uma das câmeras precisava ser trocada. Troca daqui, troca de lá, troca lente, troca toda a câmera... Claro, voltaram a primeira e ela foi a escolhida.
Pffff... E ainda tive que assistir um videozinho da Caixa falando sobre seus projetos culturais com a última frase: "O melhor do Brasil é o brasileiro". Por isso que o país está como está...
Dez para às oito. A prostituição em Minas Gerais na época do auge da exploração mineradora no Brasil Colonial foi, finalmente, deixada de lado. "Vamos começar?". Tem coisa mais irritante que ficar esperando alguém e quando esse alguém chega pergunta "Então... Podemos ir?". "NÃO, INFELIZ! Quero continuar esperando p'ra ver quanto tempo leva até aparecer OUTRO idiota como você!" P'ra peida...
"Blá blá... Roteirista, escritora, blá blá blá... Fernanda Young"
É ela! Um sorriso de desconforto que só os tímidos que já atravessaram palcos sabem fingir ser espontâneo (malditas formaturas). Um andar rápido de quem sente que sentado a área exposta é menor e, logicamente, a proteção contra tantos olhares é maior. É mesmo ela.
- Boa noite. Desculpem o atraso, não fui eu quem atrasou. EU ODEIO ATRASOS! - É ela, definitivamente.
As caras e bocas, as viradas de olhos, as pausam imprevistas tentando encontrar a melhor palavra, os braços em revolução (no sentido original da palavra, queridas, da astronomia, com ênfase na noção de irresistibilidade), o tom de voz oscilante entre a certeza já muito refletida e a afirmação interrogativa (aquela falada tão logo surge e que, por isso mesmo, pede, em silêncio, concordância,confirmação), ... É ela.
Ela. Aquela personagem criada p'ra aparecer na televisão e impressionar as pessoas com sua tranqüilidade, sua imunidade ao mundo, as pessoas, a vida e suas pequenices. Ok, viu essa personagem? Então, olhe de novo. Não há imunidade, não há o brilho e os sorrisos de "Caras" e "Tititi".
Não sei dizer o quanto a vontade de me reconhecer atrapalha minha visão ("A identificação traz conforto"), mas esses braços com coreografia própria, as alternâncias entre convicção e suspeita (a primeira muito mais freqüente, mas ainda assim...), as "frases de efeito" (repetição causa conforto, dizem no mundo da propaganda) e brincadeiras várias,...
Senti um conforto daqueles de conversa de madrugada que começa na televisão e chega a cor preferida de fogos de artifício. Conforto de verso perfeito na música recém descoberta, de frase de filme que se assiste sozinha quando nenhuma companhia pode salvar sua noite, de página aberta ao acaso num livro descoberto entre as muitas prateleias de uma biblioteca ("É esse que vou levar!"),...
Engraçado. Ela sempre diz que se sente/sentiu deslocada, e suas palavras trazem conforto, através da identificação, p'ra milhares de pessoas. Hoje, pude ver algumas dessas milhares, todas se levantaram ao fim do programa com um brilho como o da personagem cega de "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" quando chega a banca de jornal após ser conduzida pela protagonista.
Se ela é deslocada e nós todos nos reconhemos nela, não seremos nós locados? Mesmo sendo muitos, ainda nos sentimos "diferentes" mas, pelo menos, já não estamos sozinhos nisso.
Diante da escada do metrô, ela solta nossos braços. Já podemos ir.
Se nasceu o Anti-Cristo, o pró-Cristo, se algum louco fez alguma bobagem (grande ou pequena), se algum bobo fez alguma loucura (grande ou pequena) não sei, só sei que... Fernanda Young.
Passei o dia esperando às 6 e meia chegar p'ra pegar o táxi (maldita cidade projetada p'ra pessoas com carro). Chegou... mas o táxi não! O ponto estava vazio. Em minha cabeça uma vozinha sacana repetia: "Murphy, Murphy, Murphy..." E eu sabia que ela não falava do Robocop! Felizmente, meu pessimismo foi derrotado ("quem acha que perder é ser menor na vida"? Perdi com gosto). Em poucos minutos, após superarmos o trânsito de volta p'ra casa, cheguei a Caixa Cultural. Ah, caso um dia estejam em Brasília e quiserem ir a Caixa Cultural, digam ao taxista que vai a Caixa Ecônomica, eles não sabem que o teatro fica na mesma área.
Logo que entrei no prédio: fones brancos no ouvido (provavelmente um IPod. Bundão!), camiseta do "Laranja Mecânica", óculos com armação grossa retangular e escura, All Star pretos com estrelas brancas e aquela cara de tédio, tudo no melhor estilo "mamãe, quero ser cult". Sentei na proltona vaga, ao lado deste ser "indie".
Quinze para às sete. "Que horas vai abrir?", "Às sete", "Obrigado". Por que as pessoas falam tão alto? Por que eu ainda cometo esse erro tolo de sair de casa sem fones no ouvido??? (pretos, viu?). Cinco p'ra sete. "Que horas vai abrir?", "Às sete", "Ah, então falta pouco". Sete e dois. "Que horas vai abrir?", eu olhei no relógio e pensei: o quão cretino será ele responder "Às sete"? E o quão mais cretino será eu retrucar "Então vai daqui a dois minutos atrás!"? "Às sete". Bleh... Deixei passar.
Sentei na terceira fileira, mas a câmera apontada p'ra mim me fez re-escolher meu lugar. Acabei ao lado de uma garota que não sabe ler. Só pode não saber! Entrou com um saco do McDonalds e comeu dentro do teatro logo após passar pelo aviso: "Proiba a entrada com bebidas e alimentos". Hmmm, o "porteiro" além de atrasado é cego? Ou será incompetente mesmo?
Falando em competência, às sete e meia (horário marcado p'ra começar o programa) descobriram que uma das câmeras precisava ser trocada. Troca daqui, troca de lá, troca lente, troca toda a câmera... Claro, voltaram a primeira e ela foi a escolhida.
Pffff... E ainda tive que assistir um videozinho da Caixa falando sobre seus projetos culturais com a última frase: "O melhor do Brasil é o brasileiro". Por isso que o país está como está...
Dez para às oito. A prostituição em Minas Gerais na época do auge da exploração mineradora no Brasil Colonial foi, finalmente, deixada de lado. "Vamos começar?". Tem coisa mais irritante que ficar esperando alguém e quando esse alguém chega pergunta "Então... Podemos ir?". "NÃO, INFELIZ! Quero continuar esperando p'ra ver quanto tempo leva até aparecer OUTRO idiota como você!" P'ra peida...
"Blá blá... Roteirista, escritora, blá blá blá... Fernanda Young"
É ela! Um sorriso de desconforto que só os tímidos que já atravessaram palcos sabem fingir ser espontâneo (malditas formaturas). Um andar rápido de quem sente que sentado a área exposta é menor e, logicamente, a proteção contra tantos olhares é maior. É mesmo ela.
- Boa noite. Desculpem o atraso, não fui eu quem atrasou. EU ODEIO ATRASOS! - É ela, definitivamente.
As caras e bocas, as viradas de olhos, as pausam imprevistas tentando encontrar a melhor palavra, os braços em revolução (no sentido original da palavra, queridas, da astronomia, com ênfase na noção de irresistibilidade), o tom de voz oscilante entre a certeza já muito refletida e a afirmação interrogativa (aquela falada tão logo surge e que, por isso mesmo, pede, em silêncio, concordância,confirmação), ... É ela.
Ela. Aquela personagem criada p'ra aparecer na televisão e impressionar as pessoas com sua tranqüilidade, sua imunidade ao mundo, as pessoas, a vida e suas pequenices. Ok, viu essa personagem? Então, olhe de novo. Não há imunidade, não há o brilho e os sorrisos de "Caras" e "Tititi".
Não sei dizer o quanto a vontade de me reconhecer atrapalha minha visão ("A identificação traz conforto"), mas esses braços com coreografia própria, as alternâncias entre convicção e suspeita (a primeira muito mais freqüente, mas ainda assim...), as "frases de efeito" (repetição causa conforto, dizem no mundo da propaganda) e brincadeiras várias,...
Senti um conforto daqueles de conversa de madrugada que começa na televisão e chega a cor preferida de fogos de artifício. Conforto de verso perfeito na música recém descoberta, de frase de filme que se assiste sozinha quando nenhuma companhia pode salvar sua noite, de página aberta ao acaso num livro descoberto entre as muitas prateleias de uma biblioteca ("É esse que vou levar!"),...
Engraçado. Ela sempre diz que se sente/sentiu deslocada, e suas palavras trazem conforto, através da identificação, p'ra milhares de pessoas. Hoje, pude ver algumas dessas milhares, todas se levantaram ao fim do programa com um brilho como o da personagem cega de "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" quando chega a banca de jornal após ser conduzida pela protagonista.
Se ela é deslocada e nós todos nos reconhemos nela, não seremos nós locados? Mesmo sendo muitos, ainda nos sentimos "diferentes" mas, pelo menos, já não estamos sozinhos nisso.
Diante da escada do metrô, ela solta nossos braços. Já podemos ir.

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