Sunday, July 23, 2006

Atualmente

Parados no meio da sala diante um do outro, os dois viviam momentos diferentes.

- Consegue sentir? Todas as vezes, antigamente, quando tentei mostrar, você dizia que não sentia – com as duas mãos, ternas como ele bem reconhecia, ela segurava a mão direita dele contra seu peito -, e agora? Sente?

Não, ele não sentia, mas dessa vez não queria e não iria admitir. Olhava nos olhos dela buscando neles ver o que “todas as outras vezes, antigamente” ela tentava mostrar e ele só enxergava. Mas, dessa vez...

- O coração acelerado, a tontura, a falta de ar,... Pode ter certeza, ainda tem todas essas coisas.

Ele não sabia porquê, mas não conseguia ficar feliz ao ouvi-la repetir aqueles sintomas que “todas as outras vezes, antigamente” o faziam sorrir. Ainda buscava nos olhos dela, mas dessa vez...

- Eu estou olhando nos seus olhos e ainda sinto como se estivesse num lugar muito alto e olhasse p’ra baixo. Sabe aquela sensação de ser sugado?

Eles permaneciam diante um do outro, a distância era do braço dele esticado. Ainda segurando a mão dele aberta contra seu peito, ela abria caminho com seus dedos entre os dele com movimentos delicados mas decididos como das “outras vezes, antigamente”, mas dessa vez...

- Eu seguro sua mão e meus dedos ainda parecem encontrar encaixe perfeito entre os seus. Você percebe isso, eu sei.

Isso, sim, ele percebia. Seus dedos, os dele e os dela, sempre se entenderam bem, se entrelaçavam como se aquele movimento fosse o mais genuíno e certo. Os dedos diziam, as palavras confirmavam, mas os olhos, dessa vez...

- Eu ainda tenho dificuldade em encontrar palavras p’ra falar com você,...

Ele parou de ouvir por um instante, quando ela soltou sua mão, pois só agora notava: ela não estava sorrindo como “todas as outras vezes, antigamente”, não estava sem jeito, ruborizada como “todas as outras vezes, antigamente”. Falava com confiança, sem desviar o olhar... Esse olhar que tantas “outras vezes, antigamente” fugia do dele por simples timidez ou provocação, mas dessa vez...

- Ainda tem tudo isso, mas agora... Agora é por medo.

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