- Ah, mãe, ver fotos é nossa tradição de aniversário. Uma foto p’ra cada ano de vida, eu tomo cuidado p’ra não serem sempre as mesmas. Por que você reclama todo ano?
- Por que você sempre dá um jeito de reforçar que estou ficando ainda mais velha?
- Quanto mais velha melhor: mais anos de vida, mais fotos tiradas, mais fotos p’ra vermos, menos chances de repetirmos alguma.
- Pois é, como já estou chegando aos 70, haja fotos...
- E essa, mãe, quem é?
- Ah, essa é a Ana. Nossa, a Ana... O que será que aconteceu com ela?
Hoje tenho 40 anos. Confesso que nunca tive certeza de que chegaria até aqui. Nunca tive comportamentos que comprometessem minha saúde (nada de cigarros, drogas, bebida em excesso, promiscuidade descuidada) mas, também não posso dizer que me esforcei para cuidar dela.
Num primeiro momento achei que seria difícil demais resumir os meus últimos 20 anos, mas agora, sentada com o teclado a minha frente, com as letras ao meu alcance, vejo que poucas palavras bastarão. Esses 20 anos foram como os 20 primeiros: por vezes, vazios.
Terminei a faculdade, do mesmo jeito que comecei: frustrada e torcendo pelo dia em que ia encontrar algo que despertasse paixão. Ela chegou, a paixão que tenho até hoje; na verdade, ela já tinha chegado mesmo antes, eu é que não tinha percebido. Só percebi seus sintomas depois de me formar, quando pude ter mais contato, mais informações sobre tudo o que sempre achei interessante e acreditava que encontraria na faculdade.
A faculdade: overrated, so overrated! Onde estavam os grandes amigos que faria? E as melhores festas da minha vida? (Bleh, nunca fui muito boa com festas mesmo). As grandes descobertas e experiências? Será que esconde-esconde era uma parte da graça?!
Foi normal – ainda se lembra do valor que normal tem p’ra mim? – normal até demais. Cinco anos pensando: “O que estou fazendo aqui mesmo?”
Ah, mas essa pergunta é a minha essência. Só pode ser. Depois de tanto tempo, afinal são 40 anos, é ela ainda que me persegue e, de um jeito às vezes torturante, me faz continuar.
Desculpe, perdi a linha de raciocínio. Falava de faculdade e de paixão.
Saí da faculdade e fui estudar História da Arte. Pois é, finalmente. Consegui uma especialização em Florença e por aqui fiquei. Foi aí que percebi a paixão. Meus dias se resumiam a leitura, pesquisa e observação de afrescos, esculturas, manuscritos; mas eu não me cansava, não sentia falta de outra coisa. Acho que me tornei uma daquelas especialistas chatas (redundância?) que só pensam, falam, vivem uma coisa e nem percebem.
Não demorou muito até que a euforia passasse. Como em toda paixão, o tesão inicial se acalmou e eu voltei a ter outras coisas na cabeça além das mulheres de Delacroix, os homens de Michelangelo e os trituradores de vacas de Leonardo da Vinci.
A essa altura, eu já trabalhava na La Galleria degli Uffizi. É maravilhoso, o ambiente de um museu me comove mais do que sebos, livrarias e cinemas. E trabalhar cercada por Caravaggio, Leonardo da Vinci, El Greco, Raffaello Sanzio (que me ganhou quando eu tinha apenas 11 aninhos; foi “Il Primo Bacio”, o meu primeiro), e tantos outros... Não há palavras.
Inclusive, por mais clichê que pareça, foi diante de “A Primavera”, de Botticelli, que conheci Ian. Era meu horário de almoço e, como de costume, comi rapidinho p’ra aproveitar o resto do tempo olhando p’ra uma obra. Já estava sentada, sozinha, em silêncio, admirando, por uns 30 minutos quando percebi que não era impressão minha, havia mesmo alguém ao meu lado. Era ele. Também sentado, sozinho, calado e absorvido.
Enxerguei-o de canto de olho, não conseguia desviar meus olhos da parede, até:
- Ela vai jogar suas pétalas sobre nós, não? - tive que olhá-lo.
- Vai, e elas vão nos chamar p’ra participar da dança.
Nossa, isso foi há quase 16 anos. Nem sei dizer como ou o quê aconteceu, mas agora mesmo, enquanto escrevo no quarto, posso ouvi-lo ao piano, na sala, tocando a música que compôs logo que viemos morar juntos. É a sua canção preferida p’ra dias de tranqüila falta de obrigações, de calma oportunidade de se aproveitar o dia.
Caso acreditasse em sorte diria que foi isso que trouxe Ian até mim. E já se foram 15 anos. Como você pode imaginar, esses anos de convivência não foram ininterruptos, mas quem diria? A maior parte dos méritos é dele. Metade da menor parte dos méritos é minha, a outra metade é da felicidade de concordarmos nas coisas essenciais de um relacionamento.
De novo, me desviei do assunto. Falava do meu trabalho.
Comecei como assistente de assistente, cheguei a curadora de exposições em parcerias, em galerias pequenas. Você precisava ter visto a exposição de Havaianas que fizemos. Sim, as legítimas! Foi uma exposição de calçados pelo mundo.
Lá estavam os clichês como aquele sapatinho japonês que atrofiava os pés das mocinhas; os tamancos holandeses; as botas com correntes que impedem escorregões no gelo da Rússia; tênis que, bem, nem preciso dizer que dominaram o planeta, né? E numa sala exclusiva, elas, as Havaianas. Tá, eu nunca fui muito fã delas (sempre arrebentava ou tropeçava, ou as duas coisas), mas não posso negar que elas carregam a marca de um país, os traços de uma maneira de vida. Foi divertido.
Fizemos também uma exposição muito legal, “Sentidos”. O nome ficou parecendo uma daquelas coisas pós-modernas ou, pior, reportagem especial do Fantástico, mas a idéia, sem falsa modéstia, foi boa: uma exposição que mexesse com mais de um sentido.
Dividimos um pequeno galpão em espaços, cada um foi decorado, climatizado e aromatizado de um jeito. Em cada um, fotos sobre um mesmo tema, uma temperatura, um cheiro e uma música sendo tocada.
Numa das “salas”, logo ao entrar sentia-se o frio de uma manhã de neve fraca caindo e o cheiro de pinheiros úmidos, e viam-se duas fotos ocupando toda uma parede, deixando as imagens pouco maior que a cena original. Nas duas fotos, que tinham aquele tom azulado que o frio tem, havia um rapaz numa plataforma de trem.
Numa o rapaz aparece de costas e nem sinais restam do trem. Percebe-se que há muito havia partido. Na outra, o rapaz de frente, seus olhos úmidos estão presos a algo já muito distante e seus braços caídos de qualquer jeito parecem deixar rastros de um “tchau” sofrido e ainda não convencido.
Seu rosto é da brancura que o inverno nos dá; seu nariz, um pouco vermelho, é a única parte que ainda parece viva nesse rosto. Sua pele morta sem sangue, seus olhos sem vida com lágrimas. O aroma dos pinheiros nos aproximava do frio. O frio trazia essa despedida para nosso corpo enquanto, no centro da sala, Ian tocava piano e cantava uma de suas músicas.
“tanto quanto o adeus é inevitável
é minha vontade de tentar”
Uma pena você não ter visto, gostaria de ter ouvido sua opinião. No dia de abertura da exposição voltei a tentar o velho truque da comunicação por telepatia. Não demorou muito p’ra que eu lembrar que ele nunca funcionou.
E não foi só nesse dia que lembrei de você. Foram muitos dias em que desejei ouvir um comentário seu, muitas as coisas que quis dividir com você. Comecei por dizer que esses 20 anos foram vazios por vezes, mas o vazio veio de você. Ou melhor, da falta de você.
Tantas coisas que eu quis contar, mostrar. Tantas conquistas, tantos fracassos. Estudos, trabalhos, exposições, mudanças, projetos, fotos, músicas, filmes, dias, anos. Imagino que você também deve ter passado por muitas coisas das quais eu gostaria de ter feito parte.
Por que mesmo você deixou de fazer parte dos meus dias?
Há um texto de muitos anos atrás, que circulou pela internet, no qual um soldado pede permissão para ir a procura de um amigo seu, ferido em combate. Mesmo sem a autorização de seu superior, o rapaz vai. Quando ele encontra seu já agonizante amigo só há tempo de ouvir “Eu sabia que você viria”.
Gostaria de poder dizer que é por isso que escrevo, mas caso o fizesse estaria fingindo uma confiança que não tenho. Não sei se você virá. Só espero que venha. Após tanto tempo, só me resta a mesma coisa: esperar.
Florença, 20 de julho de 2026
- Por que você sempre dá um jeito de reforçar que estou ficando ainda mais velha?
- Quanto mais velha melhor: mais anos de vida, mais fotos tiradas, mais fotos p’ra vermos, menos chances de repetirmos alguma.
- Pois é, como já estou chegando aos 70, haja fotos...
- E essa, mãe, quem é?
- Ah, essa é a Ana. Nossa, a Ana... O que será que aconteceu com ela?
Hoje tenho 40 anos. Confesso que nunca tive certeza de que chegaria até aqui. Nunca tive comportamentos que comprometessem minha saúde (nada de cigarros, drogas, bebida em excesso, promiscuidade descuidada) mas, também não posso dizer que me esforcei para cuidar dela.
Num primeiro momento achei que seria difícil demais resumir os meus últimos 20 anos, mas agora, sentada com o teclado a minha frente, com as letras ao meu alcance, vejo que poucas palavras bastarão. Esses 20 anos foram como os 20 primeiros: por vezes, vazios.
Terminei a faculdade, do mesmo jeito que comecei: frustrada e torcendo pelo dia em que ia encontrar algo que despertasse paixão. Ela chegou, a paixão que tenho até hoje; na verdade, ela já tinha chegado mesmo antes, eu é que não tinha percebido. Só percebi seus sintomas depois de me formar, quando pude ter mais contato, mais informações sobre tudo o que sempre achei interessante e acreditava que encontraria na faculdade.
A faculdade: overrated, so overrated! Onde estavam os grandes amigos que faria? E as melhores festas da minha vida? (Bleh, nunca fui muito boa com festas mesmo). As grandes descobertas e experiências? Será que esconde-esconde era uma parte da graça?!
Foi normal – ainda se lembra do valor que normal tem p’ra mim? – normal até demais. Cinco anos pensando: “O que estou fazendo aqui mesmo?”
Ah, mas essa pergunta é a minha essência. Só pode ser. Depois de tanto tempo, afinal são 40 anos, é ela ainda que me persegue e, de um jeito às vezes torturante, me faz continuar.
Desculpe, perdi a linha de raciocínio. Falava de faculdade e de paixão.
Saí da faculdade e fui estudar História da Arte. Pois é, finalmente. Consegui uma especialização em Florença e por aqui fiquei. Foi aí que percebi a paixão. Meus dias se resumiam a leitura, pesquisa e observação de afrescos, esculturas, manuscritos; mas eu não me cansava, não sentia falta de outra coisa. Acho que me tornei uma daquelas especialistas chatas (redundância?) que só pensam, falam, vivem uma coisa e nem percebem.
Não demorou muito até que a euforia passasse. Como em toda paixão, o tesão inicial se acalmou e eu voltei a ter outras coisas na cabeça além das mulheres de Delacroix, os homens de Michelangelo e os trituradores de vacas de Leonardo da Vinci.
A essa altura, eu já trabalhava na La Galleria degli Uffizi. É maravilhoso, o ambiente de um museu me comove mais do que sebos, livrarias e cinemas. E trabalhar cercada por Caravaggio, Leonardo da Vinci, El Greco, Raffaello Sanzio (que me ganhou quando eu tinha apenas 11 aninhos; foi “Il Primo Bacio”, o meu primeiro), e tantos outros... Não há palavras.
Inclusive, por mais clichê que pareça, foi diante de “A Primavera”, de Botticelli, que conheci Ian. Era meu horário de almoço e, como de costume, comi rapidinho p’ra aproveitar o resto do tempo olhando p’ra uma obra. Já estava sentada, sozinha, em silêncio, admirando, por uns 30 minutos quando percebi que não era impressão minha, havia mesmo alguém ao meu lado. Era ele. Também sentado, sozinho, calado e absorvido.
Enxerguei-o de canto de olho, não conseguia desviar meus olhos da parede, até:
- Ela vai jogar suas pétalas sobre nós, não? - tive que olhá-lo.
- Vai, e elas vão nos chamar p’ra participar da dança.
Nossa, isso foi há quase 16 anos. Nem sei dizer como ou o quê aconteceu, mas agora mesmo, enquanto escrevo no quarto, posso ouvi-lo ao piano, na sala, tocando a música que compôs logo que viemos morar juntos. É a sua canção preferida p’ra dias de tranqüila falta de obrigações, de calma oportunidade de se aproveitar o dia.
Caso acreditasse em sorte diria que foi isso que trouxe Ian até mim. E já se foram 15 anos. Como você pode imaginar, esses anos de convivência não foram ininterruptos, mas quem diria? A maior parte dos méritos é dele. Metade da menor parte dos méritos é minha, a outra metade é da felicidade de concordarmos nas coisas essenciais de um relacionamento.
De novo, me desviei do assunto. Falava do meu trabalho.
Comecei como assistente de assistente, cheguei a curadora de exposições em parcerias, em galerias pequenas. Você precisava ter visto a exposição de Havaianas que fizemos. Sim, as legítimas! Foi uma exposição de calçados pelo mundo.
Lá estavam os clichês como aquele sapatinho japonês que atrofiava os pés das mocinhas; os tamancos holandeses; as botas com correntes que impedem escorregões no gelo da Rússia; tênis que, bem, nem preciso dizer que dominaram o planeta, né? E numa sala exclusiva, elas, as Havaianas. Tá, eu nunca fui muito fã delas (sempre arrebentava ou tropeçava, ou as duas coisas), mas não posso negar que elas carregam a marca de um país, os traços de uma maneira de vida. Foi divertido.
Fizemos também uma exposição muito legal, “Sentidos”. O nome ficou parecendo uma daquelas coisas pós-modernas ou, pior, reportagem especial do Fantástico, mas a idéia, sem falsa modéstia, foi boa: uma exposição que mexesse com mais de um sentido.
Dividimos um pequeno galpão em espaços, cada um foi decorado, climatizado e aromatizado de um jeito. Em cada um, fotos sobre um mesmo tema, uma temperatura, um cheiro e uma música sendo tocada.
Numa das “salas”, logo ao entrar sentia-se o frio de uma manhã de neve fraca caindo e o cheiro de pinheiros úmidos, e viam-se duas fotos ocupando toda uma parede, deixando as imagens pouco maior que a cena original. Nas duas fotos, que tinham aquele tom azulado que o frio tem, havia um rapaz numa plataforma de trem.
Numa o rapaz aparece de costas e nem sinais restam do trem. Percebe-se que há muito havia partido. Na outra, o rapaz de frente, seus olhos úmidos estão presos a algo já muito distante e seus braços caídos de qualquer jeito parecem deixar rastros de um “tchau” sofrido e ainda não convencido.
Seu rosto é da brancura que o inverno nos dá; seu nariz, um pouco vermelho, é a única parte que ainda parece viva nesse rosto. Sua pele morta sem sangue, seus olhos sem vida com lágrimas. O aroma dos pinheiros nos aproximava do frio. O frio trazia essa despedida para nosso corpo enquanto, no centro da sala, Ian tocava piano e cantava uma de suas músicas.
“tanto quanto o adeus é inevitável
é minha vontade de tentar”
Uma pena você não ter visto, gostaria de ter ouvido sua opinião. No dia de abertura da exposição voltei a tentar o velho truque da comunicação por telepatia. Não demorou muito p’ra que eu lembrar que ele nunca funcionou.
E não foi só nesse dia que lembrei de você. Foram muitos dias em que desejei ouvir um comentário seu, muitas as coisas que quis dividir com você. Comecei por dizer que esses 20 anos foram vazios por vezes, mas o vazio veio de você. Ou melhor, da falta de você.
Tantas coisas que eu quis contar, mostrar. Tantas conquistas, tantos fracassos. Estudos, trabalhos, exposições, mudanças, projetos, fotos, músicas, filmes, dias, anos. Imagino que você também deve ter passado por muitas coisas das quais eu gostaria de ter feito parte.
Por que mesmo você deixou de fazer parte dos meus dias?
Há um texto de muitos anos atrás, que circulou pela internet, no qual um soldado pede permissão para ir a procura de um amigo seu, ferido em combate. Mesmo sem a autorização de seu superior, o rapaz vai. Quando ele encontra seu já agonizante amigo só há tempo de ouvir “Eu sabia que você viria”.
Gostaria de poder dizer que é por isso que escrevo, mas caso o fizesse estaria fingindo uma confiança que não tenho. Não sei se você virá. Só espero que venha. Após tanto tempo, só me resta a mesma coisa: esperar.
Florença, 20 de julho de 2026

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