Thursday, December 29, 2005

Dating Ancient Ghosts

Dia 24 à noite, ceia de Natal com o velhinho, barbudo e barrugudo... Ok, ele emagreceu bastante e nem é tão velho assim. Papai. Bem, ao menos agora ele sabe que há uns 5 meses já não moro aqui em Maringá. Antes tarde que mais tarde, não?
Ele continua o mesmo: teimoso, repetitivo, relapso, sabichão, dono da verdade,... Não, não estou reclamando. Muito pelo contrário, essa é a imagem que tenho de pai. Ele ainda se encaixa nela. Bom ver que algumas coisas não mudam (ao menos as coisas que não precisam mudar).

Trabalho de História do Brasil 2 p’ra terminar até amanhã. Tudo bem, já escrevi umas 30 linhas. Uhuuu! “Que sucesso!”, diria Nanda. Mas, como posso fazer uma análise de um documento do período imperial estando de volta ao meu habitat natural?!

O apartamento no qual morei 213 dos meus 236 meses de vida. Estranhamente, ele parece menor, todos os cômodos parecem menores do que eram há 5 meses. Mesmo assim, tudo continua seguro, acolhedor, fofo. Os móveis (desenhados por mamãe) de madeira fresca e forte ainda são melhores que as cadeiras.
Subo nas estantes p’ra pegar livros. Lembro que precisava subir numa cadeira p’ra depois alcançar a primeira prateleira, achava alto e ainda tinha que me esticar muito, com perigo de cair de costas, p’ra conseguir pegar o exemplar que queria. A graça está: que livro será que eu aos 6, 7 anos poderia querer?! Seria Garcia Márquez ou Balzac?
Hoje, quando subi, quis consultar Poe. A altura já não me diverte, já nem considero altura mesmo. Tão decepcionante re-experimentar coisas que eram “sacos de risadas” e perceber que, como uma bexiga, esse saco se esvaziou.
Não quero mais bexigas! Quero uma bola de látex bem grosso e resistente. Daquelas que vemos em praias e ficamos com vontade de ter uma, mesmo tendo a certeza de que não brincaremos com ela em outras ocasiões. É, essas duram. Não nos divertem mas duram.

Bleh, o que é melhor: uma bexiga que aproveitamos ao máximo por saber que vai murchar ou bola de praia que dura mas não diverte? Quero os dois, essa é a verdade. Quero aproveitar cada fôlego da bexiga e depois poder contar com a duração da bola de praia.
Acho que é por isso que estou me sentindo tão bem aqui em Maringá: é minha bola de praia! Aqui descanso da sensação de fracasso por não estar aproveitando minha bexiga, Brasília.
Não estou tão bem assim... Pelo menos, não tanto quanto gostaria.
A cada porta desse apartamento tão seguro dou mais um passo em direção aos meus 16 anos. A cada cômodo lembro de um sonho que ficou esquecido em alguma gaveta que só agora volto a abrir; cada canto traz de volta as lembranças que me prendiam numa sensação que eu julgava ser boa; cada armário aberto me mergulha novamente em expectativas que me afogam;...
Lembro de quem eu era e o que esperava ser. Olho para o que me tornei. SOCOR.... NÃO! Não vou pedir socorro! Não vou gritar. Gritar p’ra quem? P’ra eles? Nem precisei gritar p’ra eles virem me encontrar.
Um pegou minha mão e o outro passou o braço por sobre meu ombro. Ah, que saudade de caminhar com essa “escolta”. Em poucos segundos já estamos caminhando pelas ruas de Florença, decidimos tomar sorvete naquela sorveteria perto de casa.
Lá um amigo e uma amiga nos encontram. Os cinco saem em direção ao cinema. Depois, lanchonete, bar e, muito mais tarde, casa. No dia seguinte, marcas de unhas nas costas e pescoços, risadas e confissões durante o café da manhã. À tarde saio p’ra caminhar aproveitando o frio do inverno e o vento que de tão gelado parece querer me lembrar de que estou viva.

...

- Carolina, vá dormir! – sem saber, com essa palavras minha mãe parou o vento, afastou o frio e me trouxe de volta.

É, foi só mais um sonho. Dos melhores, daqueles de olhos abertos. Já que “acordei” dele, vou dormir.

Fiquem bem

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