Thursday, September 21, 2006

John Mayer - Stop This Train

"I'll never stop this train..."

Monday, September 18, 2006

Maldita...

...tecnologia!

Cadê os vídeos que deveriam ter aparecido aqui?

Thursday, August 03, 2006

Vestido azul

Uma roda gigante brilha em vermelho e azul. Um vento gelado faz seus joelhos tremerem, ou será que é o medo? A noite parece mais escura do que de costume e... Olha para a direita, para a esquerda e para trás: está sozinha.

Não sabe p’ra onde seus pais foram. Sentiu-os soltarem suas mãos, mas só agora percebe que eles se afastaram. “P’ra onde?” Não se atreve a sair a sua procura, está assustada: muitas crianças passam correndo, gritando, se divertindo; as luzes brilham fortes demais, os brinquedos são barulhentos demais, os gritos, altos demais.

Bate as pontas dos sapatinhos brancos que ganhou horas antes – o primeiro dos presentes de aniversário, o segundo é a visita ao parque. Olha p’ra baixo e se vê: sapatos novos, seu melhor vestido, um azul bem claro com uma fita na cintura. Lembra-se de sua imagem refletida no espelho antes de saírem de casa: o cabelo bem preso num rabo-de-cavalo alto com uma fita de cetim azul pouco mais escura que o vestido; os brincos de cruz que a avó havia lhe dado pouco antes de morrer. “Uma princesinha!”, disse sua mãe juntando as mãos sob o queixo e sorrindo.

Seus sapatinhos começam a perder o brilho com a poeira que sobe de suas batidas de pés e dos passos de tantos estranhos que passam. “Como o parque está cheio. Será que todas essas crianças também estão fazendo aniversário?”

Olha a sua volta mais uma vez. “Quem sabe eles estão voltando com um ursinho de pelúcia como aquele que vi naquela barraca...” Um ombro dentro de uma camisa xadrez bate em seu rosto tirando seu equilíbrio. Ela cai sentada em meio a nuvens de poeira.

“Sujei meu vestido. Sujei minhas mãos. Meus sapatinhos... Mamãe vai brigar comigo!” Começa a chorar de medo. Medo por estar sozinha rodeada por tantos estranhos, por não saber onde seus pais estão e nem quando vão voltar e agora, mais ainda, por saber que sua mãe irá ralhar.

Chora sentada no chão abraçando as pernas, olha ao redor. Quer que seus pais voltem, mas não quer que eles a vejam suja como está. Suas mãos ardem, estão raladas por causa da queda. Quer que seu pai as sopre, mas não quer que ele brigue com ela por vê-la sentada no chão sujo.

Com as costas da mão, interrompe as lágrimas. Por acaso, percebe que perdeu o brinco que usava na orelha direita. “O brinco da vovó”. Seu choro aumenta – adorava os brincos, eram sua única lembrança da avó.

Sentada no chão, é invisível: as crianças continuam a passar, gritar e sorrir, não a vêem. Entre gritos, passos e poeira, ergue a cabeça: a roda gigante ainda brilha em vermelho e azul, mas a noite é ainda mais escura.

Não sei...

Seus braços doíam, não sabia porquê. Bem na região onde se costuma tirar sangue. Doíam esticados, doíam dobrados. Não havia posição que melhorasse e, por isso, não conseguia relaxar.

Estava sentado numa cadeira de plástico laranja. Daquelas que parecem gritar “ANOS 80”. Apoiava os cotovelos nos apoios p’ra braços e... doíam. O lugar era mal iluminado e fedia, como rodoviárias. Mesmo sabendo que o vai-e-vem de pessoas era intenso, não via ninguém. Sua vista estava reduzida a um quadrado de limites: os apoios p’ra braços de sua cadeira na largura, e a altura ia de seus pés até seu tórax.

Quando erguia a cabeça, além de sentir uma forte dor no pescoço, não enxergava nada! Escuridão. Ficava cego. O mesmo acontecia quando olhava para os lados. Seus pés, suas pernas, seu tórax, seus braços – era só isso que via.

Pensou em levantar, mas seus pés permaneciam imóveis. Seu cérebro mandava o comando, mas eles não obedeciam. Desesperou-se: sentia, sabia que tentava mexer seus pés, fazia força, mas os enxergava inertes, como se a o outro pertencessem.

Quis gritar! Num reflexo, ergueu a cabeça – escuridão. Abriu a boca, mas nada saiu. Pensou em mexer seus braços, gesticular até chamar a atenção de algum dos que passavam (sabia que não eram poucos). Mas, agora, doíam ainda mais.Olhou para a única área que enxergava e percebeu seus braços também imóveis. Dobrados em “V” como nos manequins de vitrine.

O grito que não saía o sufocava a garganta, seu corpo todo paralisado, seu desespero preso a um quadrado de vista. Os passos, o grito, os gestos, o socorro...

Das bordas, um contorno escuro foi crescendo em direção ao centro do quadrado. Sobrava um círculo de visão que ia diminuindo, diminuindo,...

O grito sufocando, os braços doendo,...

...diminuindo, diminuindo,...

Os olhos cheios de medo...

Escuridão!

Tuesday, August 01, 2006

Sobre a mentira

- Eu te ligo!

- Eu te liguei a noite toda, mas só dava ocupado.

- Eu ia te chamar, mas não deu tempo.

- Eu queria que você tivesse ido.

- Pensei em te chamar, mas achei que você nem ia querer ir.

- Pode deixar que eu vou.

- Eu fiquei trabalhando.

- Não tem nada a ver com você.

- Eu não fico inventando desculpas!

- Eu sei que fiz mal.

- Eu não mentiria p’ra você!

- Eu te ligo.

Sunday, July 23, 2006

Atualmente

Parados no meio da sala diante um do outro, os dois viviam momentos diferentes.

- Consegue sentir? Todas as vezes, antigamente, quando tentei mostrar, você dizia que não sentia – com as duas mãos, ternas como ele bem reconhecia, ela segurava a mão direita dele contra seu peito -, e agora? Sente?

Não, ele não sentia, mas dessa vez não queria e não iria admitir. Olhava nos olhos dela buscando neles ver o que “todas as outras vezes, antigamente” ela tentava mostrar e ele só enxergava. Mas, dessa vez...

- O coração acelerado, a tontura, a falta de ar,... Pode ter certeza, ainda tem todas essas coisas.

Ele não sabia porquê, mas não conseguia ficar feliz ao ouvi-la repetir aqueles sintomas que “todas as outras vezes, antigamente” o faziam sorrir. Ainda buscava nos olhos dela, mas dessa vez...

- Eu estou olhando nos seus olhos e ainda sinto como se estivesse num lugar muito alto e olhasse p’ra baixo. Sabe aquela sensação de ser sugado?

Eles permaneciam diante um do outro, a distância era do braço dele esticado. Ainda segurando a mão dele aberta contra seu peito, ela abria caminho com seus dedos entre os dele com movimentos delicados mas decididos como das “outras vezes, antigamente”, mas dessa vez...

- Eu seguro sua mão e meus dedos ainda parecem encontrar encaixe perfeito entre os seus. Você percebe isso, eu sei.

Isso, sim, ele percebia. Seus dedos, os dele e os dela, sempre se entenderam bem, se entrelaçavam como se aquele movimento fosse o mais genuíno e certo. Os dedos diziam, as palavras confirmavam, mas os olhos, dessa vez...

- Eu ainda tenho dificuldade em encontrar palavras p’ra falar com você,...

Ele parou de ouvir por um instante, quando ela soltou sua mão, pois só agora notava: ela não estava sorrindo como “todas as outras vezes, antigamente”, não estava sem jeito, ruborizada como “todas as outras vezes, antigamente”. Falava com confiança, sem desviar o olhar... Esse olhar que tantas “outras vezes, antigamente” fugia do dele por simples timidez ou provocação, mas dessa vez...

- Ainda tem tudo isso, mas agora... Agora é por medo.

Sunday, June 11, 2006

Efeito Young

Terça-feira, 06 de junho de 2006. Pela manhã, meu professor profetizou: "Seis, do seis do seis. Um bom para nascer o Anti-Cristo... ou para algum louco fazer alguma grande bobagem."

Se nasceu o Anti-Cristo, o pró-Cristo, se algum louco fez alguma bobagem (grande ou pequena), se algum bobo fez alguma loucura (grande ou pequena) não sei, só sei que... Fernanda Young.

Passei o dia esperando às 6 e meia chegar p'ra pegar o táxi (maldita cidade projetada p'ra pessoas com carro). Chegou... mas o táxi não! O ponto estava vazio. Em minha cabeça uma vozinha sacana repetia: "Murphy, Murphy, Murphy..." E eu sabia que ela não falava do Robocop! Felizmente, meu pessimismo foi derrotado ("quem acha que perder é ser menor na vida"? Perdi com gosto). Em poucos minutos, após superarmos o trânsito de volta p'ra casa, cheguei a Caixa Cultural. Ah, caso um dia estejam em Brasília e quiserem ir a Caixa Cultural, digam ao taxista que vai a Caixa Ecônomica, eles não sabem que o teatro fica na mesma área.

Logo que entrei no prédio: fones brancos no ouvido (provavelmente um IPod. Bundão!), camiseta do "Laranja Mecânica", óculos com armação grossa retangular e escura, All Star pretos com estrelas brancas e aquela cara de tédio, tudo no melhor estilo "mamãe, quero ser cult". Sentei na proltona vaga, ao lado deste ser "indie".

Quinze para às sete. "Que horas vai abrir?", "Às sete", "Obrigado". Por que as pessoas falam tão alto? Por que eu ainda cometo esse erro tolo de sair de casa sem fones no ouvido??? (pretos, viu?). Cinco p'ra sete. "Que horas vai abrir?", "Às sete", "Ah, então falta pouco". Sete e dois. "Que horas vai abrir?", eu olhei no relógio e pensei: o quão cretino será ele responder "Às sete"? E o quão mais cretino será eu retrucar "Então vai daqui a dois minutos atrás!"? "Às sete". Bleh... Deixei passar.

Sentei na terceira fileira, mas a câmera apontada p'ra mim me fez re-escolher meu lugar. Acabei ao lado de uma garota que não sabe ler. Só pode não saber! Entrou com um saco do McDonalds e comeu dentro do teatro logo após passar pelo aviso: "Proiba a entrada com bebidas e alimentos". Hmmm, o "porteiro" além de atrasado é cego? Ou será incompetente mesmo?

Falando em competência, às sete e meia (horário marcado p'ra começar o programa) descobriram que uma das câmeras precisava ser trocada. Troca daqui, troca de lá, troca lente, troca toda a câmera... Claro, voltaram a primeira e ela foi a escolhida.

Pffff... E ainda tive que assistir um videozinho da Caixa falando sobre seus projetos culturais com a última frase: "O melhor do Brasil é o brasileiro". Por isso que o país está como está...

Dez para às oito. A prostituição em Minas Gerais na época do auge da exploração mineradora no Brasil Colonial foi, finalmente, deixada de lado. "Vamos começar?". Tem coisa mais irritante que ficar esperando alguém e quando esse alguém chega pergunta "Então... Podemos ir?". "NÃO, INFELIZ! Quero continuar esperando p'ra ver quanto tempo leva até aparecer OUTRO idiota como você!" P'ra peida...

"Blá blá... Roteirista, escritora, blá blá blá... Fernanda Young"

É ela! Um sorriso de desconforto que só os tímidos que já atravessaram palcos sabem fingir ser espontâneo (malditas formaturas). Um andar rápido de quem sente que sentado a área exposta é menor e, logicamente, a proteção contra tantos olhares é maior. É mesmo ela.
- Boa noite. Desculpem o atraso, não fui eu quem atrasou. EU ODEIO ATRASOS! - É ela, definitivamente.

As caras e bocas, as viradas de olhos, as pausam imprevistas tentando encontrar a melhor palavra, os braços em revolução (no sentido original da palavra, queridas, da astronomia, com ênfase na noção de irresistibilidade), o tom de voz oscilante entre a certeza já muito refletida e a afirmação interrogativa (aquela falada tão logo surge e que, por isso mesmo, pede, em silêncio, concordância,confirmação), ... É ela.

Ela. Aquela personagem criada p'ra aparecer na televisão e impressionar as pessoas com sua tranqüilidade, sua imunidade ao mundo, as pessoas, a vida e suas pequenices. Ok, viu essa personagem? Então, olhe de novo. Não há imunidade, não há o brilho e os sorrisos de "Caras" e "Tititi".

Não sei dizer o quanto a vontade de me reconhecer atrapalha minha visão ("A identificação traz conforto"), mas esses braços com coreografia própria, as alternâncias entre convicção e suspeita (a primeira muito mais freqüente, mas ainda assim...), as "frases de efeito" (repetição causa conforto, dizem no mundo da propaganda) e brincadeiras várias,...

Senti um conforto daqueles de conversa de madrugada que começa na televisão e chega a cor preferida de fogos de artifício. Conforto de verso perfeito na música recém descoberta, de frase de filme que se assiste sozinha quando nenhuma companhia pode salvar sua noite, de página aberta ao acaso num livro descoberto entre as muitas prateleias de uma biblioteca ("É esse que vou levar!"),...

Engraçado. Ela sempre diz que se sente/sentiu deslocada, e suas palavras trazem conforto, através da identificação, p'ra milhares de pessoas. Hoje, pude ver algumas dessas milhares, todas se levantaram ao fim do programa com um brilho como o da personagem cega de "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" quando chega a banca de jornal após ser conduzida pela protagonista.

Se ela é deslocada e nós todos nos reconhemos nela, não seremos nós locados? Mesmo sendo muitos, ainda nos sentimos "diferentes" mas, pelo menos, já não estamos sozinhos nisso.

Diante da escada do metrô, ela solta nossos braços. Já podemos ir.

Tuesday, May 16, 2006

À espera...

17:40
“No matter which way you go,
No matter which way you stay
You're out of my mind…
I was walking with a ghost
I said please, please don't insist”

Ok, estou adiantada. Bom. Não há riscos de perdê-lo. Agora, é só esperar uns minutinhos. Só esperar?! Até parece. Odeio esperar um minuto que seja!
Ah, dessa vez eu escolhi estar adiantada e, vai valer a pena. Sei que vai.


17:44
“Where do you go with your broken heart in tow?
What do you do with the left over you?
And how do you know when to let go?
Where does the good go?”

Por que será que tem essa espécie de janelinha na parede do ponto de ônibus? Pior que a vista é o estacionamento pelo qual passo todos os dias. Bleh, vou olhar p’ra outra direção: não tem a moldura da janela p’ra limitar minha distração e a vista ainda tem detalhes desconhecidos.

Cestinhos de lixo de plástico laranja. Não há como dizer que não viu! Mas, são tão pequenos, e a boca então! Uma garrafa de 2 litros de Coca-Cola não passa ali. Ok, Coca-Cola já virou unidade de medida. É grave.

17:48
“When it comes to falling in love
It runs me over
Now I’m out here with my heart in my hand
To hand it over”

“Não pise na grama”. Yeh, right. Não há como! Eu sempre fui uma militante: não pise na grama, não mate formigas, deixe os insetos em paz,... E agora? Pfff... Agora: piso na grama, mato pernilongos, uso havaianas, passo protetor solar e bebo água! Acho que devo repensar a frase daquele filme que não lembro o nome: “How am I not myself?” It seems I am!

Não, pintar as unhas não entra nesse grupo. Essa é uma mudança opcional.

Engraçado, o éter do remédio faz com que eu já nem sinta o cheiro de acetona. Estarei eu perdendo meu olfato?! Bem que a memória olfativa poderia falhar às vezes...

17:51
“This one's for you
And if you turn around or shake your arms
I'd love you…
Can't be denied
I had you in mind...
Here comes the dark
Well, I know the dark”

No ponto de ônibus ou na frente da faculdade? O aviso dizia na frente da faculdade. Menos mal, esse ponto fede...

Nuvens. Nuvens carregadas. Espero que ele chegue antes da chuva. Será? Uma chuva bem caída me faria bem hoje. Um banho de chuva. Ficar molhada até a roupa grudar no corpo, até conseguir sentir o próprio perfume, até os tênis estarem cheios e as meias encharcadas, até meus esparadrapos perderem a cola, até a minha bolsa ficar num tom escuro como madeira morta, até meus papéis amolecerem e ficarem enrugados, começando pelas bordas,...

17:56
“I’ve wasted so much time
Thinking of time…
Any day I could die
Just like I was born
And this bit in the middle
It’s what I’m hailing for…
Blue would still be blue
But things would just be easier
With you”

É, pelo jeito não vai chover. Mas, de certo está um fim de tarde bonito: uma avenida larga, comprida-comprida, com os primeiros faróis vermelhos e brancos, faz uma curva p’ra direita antes de chegar ao céu laranja-rosado com nuvens cinza-querendo-ser-preto.

Se ao menos os faróis fossem os dele...

Os postes piscam antes de conseguirem fixar suas luzes. Tão brancas agora. À noite ficam amarelas, não? Na minha lembrança são amarelas. Bem amarelas, naquele tom que odeio. Aquele que deixa a pista com ar de efeito especial, de imagem retocada em programas de computador. Não gosto.


18:01
“They treat us like dogs
So we play along
We bark and we moan
And play them more songs…
But when we blow away
Up over this place
We go down like a shout
And up like a praise”

Ele não vai chegar. Eu sei que não. Eu sabia antes mesmo de sair de casa. Meu irmão também sabia, percebi pelo olhar de pena silenciosa que lançou. Droga! Eu saber já é ruim.

Chega, vai. Mostra que estou errada, mostra que é só ansiedade, angústia de quem não sabe esperar.

Noite, já está escuro, luzes amarelas, efeitos especiais, dos dois lados da avenida larga, comprida-comprida que faz uma curva p’ra direita antes de chegar ao céu não mais laranja-rosado com nuvens cinza-querendo-ser-preto, faróis vemelhos e brancos. Agora, me sinto míope (ou com alguma outra deficiência na visão). Não vou conseguir distingui-lo. Vou perdê-lo entre esses apressados com volantes.

De repente, várias pessoas surgem saindo pelo portão azul. O fim da missa me faz lembrar das horas e não conseguir ignorar que eu devo começar a pensar em desistir da espera. Você não virá. E mesmo se vier, ainda dá tempo?

18:05
“I could do without it
And I will because you’ve worn me down...
Worn me down to my knees
I did everything to please you”

Uma garota passa ao meu lado. Ela anda devagar e deixa seus dedos esbarrarem nas colunas finas do portão. Acho que ela estava cantando alguma coisa. Pena, não parecia tão feliz quanto uma pessoa que brinca com um portão e canta enquanto anda costuma ser. Felicidade contida? Ah, p’ra que?!

Quando foi que passei meus dedos por um portão pela última vez? Ai, que saudade de caminhar com os dedos pelo vento na janela de um carro. Vento. Um vento forte viria a calhar.

Venha! Bagunce meu cabelo. Faça as mangas de minha blusa dançarem em volta de minha cintura. Desenhe meu corpo com minha camiseta.

Nem você, vento, virá?

18:09
“I would feel much better if I thought there was any other reason
to keep away the beauty from the dirt
And I would do much better if I thought I fill any other need
And I miss you”

Por que eu sempre espero? Por que ainda estou esperando?
Não tenho coragem nem p’ra desistir.
Um passo em direção ao outro lado, é só isso. Um passo.

18:14
“Lonely hearts still beat the same
It’s not romantic
It’s just automatic”

Ainda estou aqui?! Eu, as batidas do coração e a pergunta tola: por que nada dá certo?

E você? Dentre tantos faróis, você não apareceu.

Buzinas, ultrapassagens, pedestres correndo, braços erguidos pedindo passagem,... E eu sou aquela garota parada em frente ao portão cinza. Aquela que já está ali há algum tempo, e continua ali mesmo sabendo que será inútil.

18:17
“Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly…
Take these sunken eyes and learn to see”

Voar. Sair daqui. Eu estava contando com você.
Mais uma vez, esperei algo/alguém p’ra começar a voar, e mais uma vez me vejo parada no mesmo lugar.
Minha cabeça já não se sustenta. O chão é minha única vista. Meus olhos não querem ser a vista de ninguém. Quero ser invisível, “atravessável”, desaparecida.

18:19
“Where did you go?
I thought I knew you
What did I know?...
Why, tell me why
Did you not treat me right
Love has a nasty habit
Of disappearing overnight”

Um passo. Não quero ver nada nem ninguém.
Outros passos. Olho p’ra trás. Foi sua última chance.
Por sorte, minhas pernas já sabem o caminho, tento me desligar.

18:22
“Gather round all you clowns
Let me hear you say:
'Hey you've got to hide your love away'”

Esconder. É isso mesmo: vou, de novo, me esconder. Com passos lentos, pelo caminho mais longo, vou devagar tentando passar desapercebida. “Se não fizer barulho, não poderão me ver”.

18:24
“Two of us riding nowhere
Spending someone's hard earned pay
You and me Sunday driving
Not arriving on our way back home”

Mas, sou só eu. Só.
Caminho p’ra não chegar, continuo p’ra não quebrar.
Uma hora vou ter que chegar. P’ra que adiar mais?

18:28

Casa. Entro em silêncio como se a falta de barulho fosse minha própria ausência.
Ah... Ninguém está aqui. Que bom. Não agüentaria expor minha cara de espera em vão.
Meu quarto.

“Lying there and staring at the ceiling
Waiting for a sleepy feeling”

Friday, May 05, 2006

"I Wish You Love" (Rachel Yamagata)

"I wish you bluebirds in the spring
To give your heart a song to sing
And then a kiss, but more than this
I wish you love
And in July a lemonade
To cool you in some leafy glade
I wish you health
But more than wealth
I wish you love
My breaking heart and I agree
That you and I could never be
So with my best
My very best
I set you free
I wish you shelter from the storm
A cozy fire to keep you warm
But most of all when snowflakes fall
I wish you love
But most of all when snowflakes fall
I wish you love"

.

Monday, May 01, 2006

HEAR, SEE, SPEAK

Saturday, April 29, 2006

Esses dias...


...de horas que passam sem serem vistas...

Tuesday, April 25, 2006

Seu presente de aniversário

Uma plaquinha que sobe, um e-mail que chega...

Um dia muito bom, um dia ruim, uma situação engraçada, um embaraço, suas decisões, suas conquistas,... Uma oportunidade de exorcizar alguns de meus demônios, dividir o riso, explicar coisas que não fazem sentido nem mesmo p’ra mim,...

Engraçado como você já faz parte dos meus dias.

É muito bom saber que esse monitor, esses fios, esses chips, essas conexões podem trazer mais do que um turbilhão de informações, distração p’ra cabeça e dores nos olhos. Muito bom encontrar (ou ser encontrada por) alguém que me fez lembrar a leveza de se ter a idade, as reações, as dúvidas que se tem; alguém que tem a mesma tranqüilidade apressada de descobrir e aprender sem negar nossas dificuldades, a mesma pressa tranqüila de conquistar novos horizontes e chegar a novos destinos.

Nós estamos indo!

Em Brasília não há praças, eu não chuto lixo e nem sei assobiar, mas hoje vou sorrir enquanto me sento na grama, cantarolando Beatles e imaginando tudo o que desejo a você.

Saturday, April 01, 2006

Diariamente

Ah, o ar da quinta cidade mais arborizada do mundo. Ah, quatro sorveterias num raio de quatro quadras. Ah, uma locadora onde os funcionários já sabem quais filmes indicar. Ah, o porteiro que brinca quando você chega.

Uh, a megalomania do povo do interior. Uh, as pessoas todas iguais pelos caminhos. Uh, os comentários no balcão sobre o último filme de super-heróis. Uh, os vizinhos que deixam o celular em casa tocando, tocando, tocando...

O ar aqui é diferente, sim. Não só por ser mais úmido ou mais puro, mas por ser um ar por mim conhecido. Reconhecido. É mais fácil respirar aqui. No entanto, não é necessariamente mais gotoso.

Minhas pernas encontram descanso aqui; minha cabeça, escapismo; meus olhos, folga; meus ouvidos, opções; minha pele, vento fresco que a cerque; minhas mãos, cones de bolacha; minha boca, sorvete.

Minhas pernas andam mais do que de costume p’ra me levar aos lugares que preciso ver se ainda existem e a outros que ainda quero descobrir; minha cabeça corre entre lembranças que ressurgem espontaneamente e novos projetos que nascem a cada encontro de ruas; meus olhos já sabem o que encontrarão caso fiquem atentos ao que se passa ao meu redor, por isso mesmo passeiam numa não-busca de alvo; meus ouvidos reconhecem os cantos dos pássaros e os juntam aos cantos que trago de longe; minha pele não se esquiva do sol e mata a saudade das sombras das árvores; minhas mãos, livres de garrafas e guarda-chuva, se dedicam a sentir os doces que encontram em casa, livrarias e sebos; minha boca canta baixinho, enquanto meus pés pisam as listras brancas sobre o alcatrão.

Ops, lá se foi mais um dia...

Tuesday, February 28, 2006

Só mais cinco minutinhos, por favor

Noite de domingo de Carnaval. Enrolei o máximo que pude p'ra já chegar na cama muito cansada. Deu certo, dormi logo.

Estava uma confusão! Acho que era uma gincana no colégio ou, pelo menos, com pessoas da minha época de colégio. O prédio não era muito alto, uma construção antiga. Eu estava no segundo piso, mas cada piso tinha muito mais altura do que os andares dos prédios de hoje. O amarelo das paredes se soltavam como pele que descasca depois do verão. Eu olhei por uma janela, um jardim. Grande e quadrado.

De repente, já estava num cômodo qualquer que parecia um quarto de hotel. Com certeza não era o mesmo prédio. Eu, uma colega (que parece ter saído da gincana e chegado nesse novo lugar comigo), o Jorge e ela.

Nem lembro sobre o que falávamos, só sei que entre desconversas e sorrisos cheios de "pára-com-isso-que-eu-sou-tímida", percebi o jeito que ela me olhava.

"Last night I dreamt
That somebody loved me"

Ela me via! Não só me olhava, mas me enxergava! Ah, que vontade de ficar naquele olhar. Ficar e só. Ela também percebia em meus olhos o olhar de "quero ficar e só, mas não sei se posso", e ainda assim sorria.

Eu havia me jogado na cama como se ali eu pudesse existir entre ficar e só e nem sequer ficar. Mas, a súbita ausência de Jorge e minha colega dificultou ainda mais meu plano de fugir dos olhos dela.

Sorrindo, vinha em minha direção. Seus cachos se mexiam em câmera lenta. Vermelhos. Sua pele era um convite, quase uma intimação as minhas mãos. Branca.

"Last night I felt
Warm arms around me"

Acordei...

"No hope, no harm
Just another false alarm"

Ah, Morrissey, sing me to sleep! I'll hide from her voice in yours...

Tuesday, February 21, 2006

Tyche p'ra que te quero...

GANHEI!!! GANHEI!!! GANHEI!!!

Pela primeira vez na vida, ganhei alguma coisa em uma promoção! É lindo!

Veja bem, sou de uma família na qual as pessoas participam de bingos com prêmios como televisões e filhotes de cachorros de raça, e ganham um cabide p’ra chapéus e casacos. Sabe como é? Daqueles de colocar junto à ponta. Pois é, eis minha sorte...
Mas, agora esse cenário parece ter mudado. Tyche passou para o meu lado! (Ai, o pedantismo, Ana Carolina...)

E foi tão simples! Só precisei responder duas perguntas: “To which legendary Clare musician has the tune ‘The Otter's Holt’ been attributed to?” e “Which uilleann piper earned the nickname ‘The King of the Pipers’?”

Ah, não se iluda caro leitor (caso você exista, é claro)! P’ra cada pergunta havia três alternativas. E eu, isxperrrrrrta que sou, respondi três vezes, cada vez registrando um e-mail e uma resposta diferente. Momento ideal p’ra citar Sr. Eurípedes Resende: “Sô trôxa? Num sô trôxa!”

Se bem que, eu ainda não recebi o prêmio, o CD "Courtin' the Ginger Lady" da banda King Laoghaire. Por enquanto foi só o e-mail pedindo p’ra eu informar meu endereço p’ra envio.

Só falta eu receber outro e-mail: “Querida, se tu pagar o frete, o prêmio é teu!”


Ah, caso tenha ficado curioso:
1ª Junior Crehan
2ª Leo Rowsome

Monday, February 20, 2006

Turned down serenading fool

"Eu só queria distância da nossa distâcia
Saí por aí procurando uma contramão
Acabei chegando na sua rua
(...)
Atirei uma pedra na sua janela
E logo correndo me arrependi
Foi o medo de te acertar
Mas era pra te acertar
E disso eu quase me esqueci
Atirei outra pedra na sua janela
Uma que não fez o menor ruído
Não quebrou, não rachou, não deu em nada"
("É Mágoa", Ana Carolina)

Eu preocupada em não lhe acertar e nem quebrar o vidro. P’ra quê? Minhas pedras não fazem sequer barulho p’ra você.

Agora, já não tenho mais pedras. Atirei todas que tinha. Se você olhar o chão junto à sua janela, verá um monte delas.

Bleh, você já deve ter visto...

Saturday, February 18, 2006

Sabadão gostoso...

Dois mil e seis. Fevereiro. Dezoito. Sábado. Que beleza!

Uma daquelas noites em que "vanish into oblivion it's easy to do". So easy! Talvez eu devesse recorrer a Johnny Walker Red também.

Vanishing into oblivion...

Ainda assim, estou empolgada. Na próxima quinta-feira embarco em busca de minha sanidade, em busca de mim mesma. Sempre que perco a direção e me esqueço pelo caminho, sei bem onde me reencontrar. É p'ra lá que estou indo!

Ansiedade. Quero tanto fazer desses dias os melhores que vocês poderão ter ao meu lado que acho que p'ra isso terei que saber falar sobre óperas de Verdi, aprender a sapatear, imitar o Pato Donald e comer 15 cachorrões em dois minutos!

Ahá, já viram o que NÃO farei com vocês, né? Viram, não será tão ruim assim.

...

Deus existe! Dias após escrever aquela bobagem de "SAC divino", encontrei uma música por acaso: John Mayer cantando "Lover, You Should Have Come Over". John Mayer cantando Jeff Buckley num show! O mais interessante é que ele diz que tinha prometido a si mesmo nunca fazer isso. Maior prova que essa só se eu estivesse nesse show. Taí, coisa que nunca vai acontecer, né?

Mick Jagger, seu namorado Keith Richards e os outros dois divertem milhões. John me chama, a gravidade me puxa p'ra baixo. Tento me segurar com o máximo de força possível com meus braços envolta de seu pescoço. Ah, gravidade, leave me be!

Já nem sei se ainda estou escorregando ou se já me acostumei a essa sensação.

Ana Carolina, já disse p'ra você só assistir "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" quando estiver bem!

Sunday, February 12, 2006

Revisão sobre mim mesma

Ontem reli as postagens que já coloquei aqui e cartas e textos inacabamos de meses, anos atrás. Sem dúvida essa última, "SAC Divino", é a pior de todas. Mas, no geral não sei dizer o que acho de minhas palavras.

Ora penso que algumas das minhas frases são daquelas que eu iria adorar encontrar em algum livro; ora elas soam como pedantes, piegas, previsíveis, comuns, "mamãe, quero ser fofa", "mamãe, quero ser querida", "mamãe, eu me acho talentosa"... Mamãe, me tira daqui?

Além disso, achei bem patético perceber que não consigo escrever sobre outra coisa a não ser EU mesma (coisa que estou fazendo nesse exato momento. Tsic, tsic, tsic...). Mesmo quando não sou uma das personagens, eu estou lá: em gestos, manias, preferências, sonhos. Fica ainda pior quando tento inventar personagens. Parto de algo que aconteceu comigo com a intenção de, pelo menos na ficção, tomar decisões diferentes, mas acabo com a reprodução dos fatos mascarada por nomes quaisquer.

Glau disse que eu deveria escrever um livro, eu argumentei que não tenho talento e nem disciplina p'ra tal e ainda disse que não há nada demais no que escrevo porque são só formas de contar coisas tolas dos meus dias, não são grandes idéias, são só transcrições. Ela disse algo legal sobre isso ser uma coisa boa, ela quase me convenceu (quase porque sou muito teimosa) de que coisas da vida são as melhores idéias p'ra se escrever algo.

Gostaria de lembrar o que foi que ela disse...

Wednesday, February 08, 2006

SAC divino

- Para saber seu saldo, tecle 1; para obter informações sobre os serviços oferecidos, tecle 2; ou então aguarde na linha para falar com um de nossos atendentes. (...) Sua ligação está sendo transferida, em breve um de nossos atendentes vai estar falando com você. A paciência é uma virtude, lembre-se do exemplo dado por Jó.

“Pelos prados e campinas verdejantes eu vou
É o Senhor que me leva a descansar”

- Tenha calma, no momento todos nossos atendentes estão ocupados. Tão logo uma das linhas esteja ficando disponível, você estará sendo atendido. Não perca a paciência para não acabar como Maria Madalena... arrependida.

“Juntos às fontes de águas puras repousantes eu vou
Minhas forças o Senhor vai animar”

- Aguarde um momento, sua ligação estará sendo atendida em breve. Isabel aguardou muito mais tempo até finalmente engravidar.

“Tu és, Senhor, o meu pastor
Por isso nada em minha vida faltará”


- Bom dia, no quê posso estar ajudando?
- Bom dia, eu gostaria de falar com o Chefe.
- Desculpe?
- Por favor, passa minha ligação para Ele, o Senhor. Quero falar direto com Ele.
- No momento Ele se encontra muito ocupado, a senhora não pode estar falando p’ra mim qual é o problema?
- Poder, eu até posso, mas não fará diferença. É sobre um pedido. E é só Ele quem pode resolver. Por favor, passe minha ligação.
- Ele é, como a senhora bem sabe, muito ocupado e...
- Mas, é urgente.
- Sim, senhora, imagino. Todas as ligações são.
- Eu sei que todos devem dizer isso, mas é urgente mesmo.
- Com quem eu falo, por favor?
- Com a filha D’Ele!
- Sim, todos somos, querida.
- Ah, será que você não entende que...

- Minha filha, o que está acontecendo?
- Ãh, alô?
- Pois diga, minha filha, o que é tão urgente assim?
- O Senhor veio me atender mesmo...
- Claro! Quando ouvi que era você quem me chamava, vim correndo. Você me chamar depois de tanto tempo, só pode ser urgente mesmo. Diga, estou lhe ouvindo.
- Bem, é sobre um pedido que fiz.
- Entregaram errado? Recebeu o pedido de outra pessoa?
- Não, não. Na verdade, não é UM pedido, são pedidos acumulados.
- Entendo, entendo... Você, pelo jeito, ligou p’ra reclamar desde a pasta de dente que sempre quis, quando criança, mas nunca pôde usar, até o formato das suas coxas e seu quadril. Hunf...
- Não, não vou tão longe assim. Mas, é melhor não me dar idéias.
- E preciso dar?...
- É o seguinte: eu acho que nunca pedi demais, nunca pedi algo tão difícil assim. Nem mesmo pedi p’ra ganhar nas vezes em que joguei na loteria! Uma pessoa a menos, numa fila de milhões, eu sei. Mas, já era uma a menos.
- Sim, eu a...
- Então, pedidos simples, muitos eram de manutenção e não de grandes reviravoltas.
- Sim, a...
- Mas, já não consigo mais engolir quieta. Dessa vez vou reclamar!
- Dessa vez?! Que vez, minha cara? Há muito você não me pede algo, há muito você deixou de se voltar a mim. Você costumava reservar pelo menos alguns minutos p’ra mim todas as noites, antes de dormir, mas faz tempo que...
- Não, não, não. Eu não deixei de procurar o Senhor, muito pelo contrário: eu percebi que não preciso pedir licença p’ra Lhe falar, não preciso anunciar a conversa,...
- Sim, isso é muito bom, minha filha. Mas, mesmo assim,...
- Eu percebi que não preciso de gestos involuntários, palavras decoradas, pedidos e confissões prontas,...
- Muito bem, mas você partiu de um extremo para outro: de repetições ao silêncio.
- Será possível que o Senhor, onisciente, não tenha percebido minhas palavras, meus sinais? Aquele pedido que fiz a uma estrela cadente em 1998, o Senhor se lembra? Poucas horas depois de eu ter quase morrido afogada naquela represa, pois é, eu achei que ia morrer. Mais tarde, mais calma, eu estava olhando o céu daquela noite, talvez a mais bonita que já vi. Eram tantas estrelas que não dava p’ra fixar os olhos num pedaço de céu, havia a vontade de não perder nenhuma luzinha sequer. Cada vez que olhava p’ra uma das muitas, milhares de estrelas, enxergava que ao lado havia outras, e outras e outras. Quanto mais eu via, mais queria ver. No carro, voltando p’ra casa, vi a estrela cadente. Lembrei ter ouvido falar que, ao vermos uma, temos direito a um pedido. Assim fiz. Fechei meus olhos, para não ser distraída pelos muitos pontinhos que ainda brilhavam como se quisessem minha atenção, e pedi. Não foi à estrela que pedi. Apesar de encantada por seu rastro de fogo, não foi com ela que falei.
- Ah, minha filha, eu ouvi sua voz!
- Ouviu? E por acaso não entendeu o pedido?
- Querida, não é assim...
- E todas as vezes em que fiz pedidos, disputando na sorte com alguém, com cílios nas pontas do dedos? Foi ao Senhor....
- Filha, ouça...
- Ah, quer saber? Estamos conversando diretamente agora, não tem desculpa p’ra não me ouvir ou não entender: não foram só os pedidos, que mesmo repetidos não foram atendidos, foram as conversas. Assim como Bilac, converso com as estrelas; vou além, inclusive, converso com tudo que desperta meu espanto, tudo que prende meus olhos, pois sei que é nessas coisas que posso Lhe achar.
- É isso mesmo!
- Conversas que, ao que parece, só foram prazerosas a um dos envolvidos. Tentei ser paciente, mas não dá. Eu quero meu pedido realizado! Também quero a viagem com as amigas, um precipício, a aurora boreal, o sol da meia-noite, lomos – várias, show do John Mayer (e ele tocando cover do Jeff Buckley, hein!), uma música composta p’ra mim,... Vou apelar: quero mico-leão dourado fora da lista de animais em perigo de extinção, quero o fim da fome no mundo,... E quando estiver cuidando do desenvolvimento e adaptações das espécies, trate de fazer com que os aranhas tenham um veneno imediato. Odeio ver insetos agonizando nas teias!

Friday, February 03, 2006

Escrevi p'ra você

- Ah, mãe, ver fotos é nossa tradição de aniversário. Uma foto p’ra cada ano de vida, eu tomo cuidado p’ra não serem sempre as mesmas. Por que você reclama todo ano?
- Por que você sempre dá um jeito de reforçar que estou ficando ainda mais velha?
- Quanto mais velha melhor: mais anos de vida, mais fotos tiradas, mais fotos p’ra vermos, menos chances de repetirmos alguma.
- Pois é, como já estou chegando aos 70, haja fotos...
- E essa, mãe, quem é?
- Ah, essa é a Ana. Nossa, a Ana... O que será que aconteceu com ela?




Hoje tenho 40 anos. Confesso que nunca tive certeza de que chegaria até aqui. Nunca tive comportamentos que comprometessem minha saúde (nada de cigarros, drogas, bebida em excesso, promiscuidade descuidada) mas, também não posso dizer que me esforcei para cuidar dela.

Num primeiro momento achei que seria difícil demais resumir os meus últimos 20 anos, mas agora, sentada com o teclado a minha frente, com as letras ao meu alcance, vejo que poucas palavras bastarão. Esses 20 anos foram como os 20 primeiros: por vezes, vazios.

Terminei a faculdade, do mesmo jeito que comecei: frustrada e torcendo pelo dia em que ia encontrar algo que despertasse paixão. Ela chegou, a paixão que tenho até hoje; na verdade, ela já tinha chegado mesmo antes, eu é que não tinha percebido. Só percebi seus sintomas depois de me formar, quando pude ter mais contato, mais informações sobre tudo o que sempre achei interessante e acreditava que encontraria na faculdade.

A faculdade: overrated, so overrated! Onde estavam os grandes amigos que faria? E as melhores festas da minha vida? (Bleh, nunca fui muito boa com festas mesmo). As grandes descobertas e experiências? Será que esconde-esconde era uma parte da graça?!

Foi normal – ainda se lembra do valor que normal tem p’ra mim? – normal até demais. Cinco anos pensando: “O que estou fazendo aqui mesmo?”

Ah, mas essa pergunta é a minha essência. Só pode ser. Depois de tanto tempo, afinal são 40 anos, é ela ainda que me persegue e, de um jeito às vezes torturante, me faz continuar.

Desculpe, perdi a linha de raciocínio. Falava de faculdade e de paixão.

Saí da faculdade e fui estudar História da Arte. Pois é, finalmente. Consegui uma especialização em Florença e por aqui fiquei. Foi aí que percebi a paixão. Meus dias se resumiam a leitura, pesquisa e observação de afrescos, esculturas, manuscritos; mas eu não me cansava, não sentia falta de outra coisa. Acho que me tornei uma daquelas especialistas chatas (redundância?) que só pensam, falam, vivem uma coisa e nem percebem.

Não demorou muito até que a euforia passasse. Como em toda paixão, o tesão inicial se acalmou e eu voltei a ter outras coisas na cabeça além das mulheres de Delacroix, os homens de Michelangelo e os trituradores de vacas de Leonardo da Vinci.

A essa altura, eu já trabalhava na La Galleria degli Uffizi. É maravilhoso, o ambiente de um museu me comove mais do que sebos, livrarias e cinemas. E trabalhar cercada por Caravaggio, Leonardo da Vinci, El Greco, Raffaello Sanzio (que me ganhou quando eu tinha apenas 11 aninhos; foi “Il Primo Bacio”, o meu primeiro), e tantos outros... Não há palavras.

Inclusive, por mais clichê que pareça, foi diante de “A Primavera”, de Botticelli, que conheci Ian. Era meu horário de almoço e, como de costume, comi rapidinho p’ra aproveitar o resto do tempo olhando p’ra uma obra. Já estava sentada, sozinha, em silêncio, admirando, por uns 30 minutos quando percebi que não era impressão minha, havia mesmo alguém ao meu lado. Era ele. Também sentado, sozinho, calado e absorvido.

Enxerguei-o de canto de olho, não conseguia desviar meus olhos da parede, até:
- Ela vai jogar suas pétalas sobre nós, não? - tive que olhá-lo.
- Vai, e elas vão nos chamar p’ra participar da dança.

Nossa, isso foi há quase 16 anos. Nem sei dizer como ou o quê aconteceu, mas agora mesmo, enquanto escrevo no quarto, posso ouvi-lo ao piano, na sala, tocando a música que compôs logo que viemos morar juntos. É a sua canção preferida p’ra dias de tranqüila falta de obrigações, de calma oportunidade de se aproveitar o dia.

Caso acreditasse em sorte diria que foi isso que trouxe Ian até mim. E já se foram 15 anos. Como você pode imaginar, esses anos de convivência não foram ininterruptos, mas quem diria? A maior parte dos méritos é dele. Metade da menor parte dos méritos é minha, a outra metade é da felicidade de concordarmos nas coisas essenciais de um relacionamento.

De novo, me desviei do assunto. Falava do meu trabalho.

Comecei como assistente de assistente, cheguei a curadora de exposições em parcerias, em galerias pequenas. Você precisava ter visto a exposição de Havaianas que fizemos. Sim, as legítimas! Foi uma exposição de calçados pelo mundo.

Lá estavam os clichês como aquele sapatinho japonês que atrofiava os pés das mocinhas; os tamancos holandeses; as botas com correntes que impedem escorregões no gelo da Rússia; tênis que, bem, nem preciso dizer que dominaram o planeta, né? E numa sala exclusiva, elas, as Havaianas. Tá, eu nunca fui muito fã delas (sempre arrebentava ou tropeçava, ou as duas coisas), mas não posso negar que elas carregam a marca de um país, os traços de uma maneira de vida. Foi divertido.

Fizemos também uma exposição muito legal, “Sentidos”. O nome ficou parecendo uma daquelas coisas pós-modernas ou, pior, reportagem especial do Fantástico, mas a idéia, sem falsa modéstia, foi boa: uma exposição que mexesse com mais de um sentido.

Dividimos um pequeno galpão em espaços, cada um foi decorado, climatizado e aromatizado de um jeito. Em cada um, fotos sobre um mesmo tema, uma temperatura, um cheiro e uma música sendo tocada.

Numa das “salas”, logo ao entrar sentia-se o frio de uma manhã de neve fraca caindo e o cheiro de pinheiros úmidos, e viam-se duas fotos ocupando toda uma parede, deixando as imagens pouco maior que a cena original. Nas duas fotos, que tinham aquele tom azulado que o frio tem, havia um rapaz numa plataforma de trem.

Numa o rapaz aparece de costas e nem sinais restam do trem. Percebe-se que há muito havia partido. Na outra, o rapaz de frente, seus olhos úmidos estão presos a algo já muito distante e seus braços caídos de qualquer jeito parecem deixar rastros de um “tchau” sofrido e ainda não convencido.

Seu rosto é da brancura que o inverno nos dá; seu nariz, um pouco vermelho, é a única parte que ainda parece viva nesse rosto. Sua pele morta sem sangue, seus olhos sem vida com lágrimas. O aroma dos pinheiros nos aproximava do frio. O frio trazia essa despedida para nosso corpo enquanto, no centro da sala, Ian tocava piano e cantava uma de suas músicas.

“tanto quanto o adeus é inevitável
é minha vontade de tentar”


Uma pena você não ter visto, gostaria de ter ouvido sua opinião. No dia de abertura da exposição voltei a tentar o velho truque da comunicação por telepatia. Não demorou muito p’ra que eu lembrar que ele nunca funcionou.

E não foi só nesse dia que lembrei de você. Foram muitos dias em que desejei ouvir um comentário seu, muitas as coisas que quis dividir com você. Comecei por dizer que esses 20 anos foram vazios por vezes, mas o vazio veio de você. Ou melhor, da falta de você.

Tantas coisas que eu quis contar, mostrar. Tantas conquistas, tantos fracassos. Estudos, trabalhos, exposições, mudanças, projetos, fotos, músicas, filmes, dias, anos. Imagino que você também deve ter passado por muitas coisas das quais eu gostaria de ter feito parte.

Por que mesmo você deixou de fazer parte dos meus dias?

Há um texto de muitos anos atrás, que circulou pela internet, no qual um soldado pede permissão para ir a procura de um amigo seu, ferido em combate. Mesmo sem a autorização de seu superior, o rapaz vai. Quando ele encontra seu já agonizante amigo só há tempo de ouvir “Eu sabia que você viria”.

Gostaria de poder dizer que é por isso que escrevo, mas caso o fizesse estaria fingindo uma confiança que não tenho. Não sei se você virá. Só espero que venha. Após tanto tempo, só me resta a mesma coisa: esperar.

Florença, 20 de julho de 2026