Saturday, April 01, 2006

Diariamente

Ah, o ar da quinta cidade mais arborizada do mundo. Ah, quatro sorveterias num raio de quatro quadras. Ah, uma locadora onde os funcionários já sabem quais filmes indicar. Ah, o porteiro que brinca quando você chega.

Uh, a megalomania do povo do interior. Uh, as pessoas todas iguais pelos caminhos. Uh, os comentários no balcão sobre o último filme de super-heróis. Uh, os vizinhos que deixam o celular em casa tocando, tocando, tocando...

O ar aqui é diferente, sim. Não só por ser mais úmido ou mais puro, mas por ser um ar por mim conhecido. Reconhecido. É mais fácil respirar aqui. No entanto, não é necessariamente mais gotoso.

Minhas pernas encontram descanso aqui; minha cabeça, escapismo; meus olhos, folga; meus ouvidos, opções; minha pele, vento fresco que a cerque; minhas mãos, cones de bolacha; minha boca, sorvete.

Minhas pernas andam mais do que de costume p’ra me levar aos lugares que preciso ver se ainda existem e a outros que ainda quero descobrir; minha cabeça corre entre lembranças que ressurgem espontaneamente e novos projetos que nascem a cada encontro de ruas; meus olhos já sabem o que encontrarão caso fiquem atentos ao que se passa ao meu redor, por isso mesmo passeiam numa não-busca de alvo; meus ouvidos reconhecem os cantos dos pássaros e os juntam aos cantos que trago de longe; minha pele não se esquiva do sol e mata a saudade das sombras das árvores; minhas mãos, livres de garrafas e guarda-chuva, se dedicam a sentir os doces que encontram em casa, livrarias e sebos; minha boca canta baixinho, enquanto meus pés pisam as listras brancas sobre o alcatrão.

Ops, lá se foi mais um dia...

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