Wednesday, August 29, 2007

Conversa com o mar

Um conchinha branca acizentada. Seria pedir demais? Pelo jeito, era!

Nunca gostou muito de praia, mas onde encontrar conchas, certo? Ainda não tinha chegado ao lamentável estágio de resignação. A garota acreditava que ia encontrar. E sua tola crença era reforçada a cada concha branca azulada, a cada brilho entre curvas de nácar, a cada eco de ar vindo correndo por espirras... Se estas conchas a fascinavam por alguns instantes, mal podia esperar até encontrar sua branca acizentada!

Caminhava, havia meses, com grande freqüência pela praia, chegando até a ir a praias que ainda não conhecia – quem sabe seria ? Seus pés sentiam os grãos de areia mesmo quando descansando sobre o perfume de lençóis recém-lavados. O cheiro de sal e o som do mar faziam parte de seus dias, mesmo quando respirava em meio ao concreto. O sol se deitava sobre o azul que balançava, levava a luz, mas não conseguia levar as esperanças da garota. E seus dias passavam.

Dizer “e seus dias passavam” chega a ser uma mentira. Os dias se arrastavam com menos pressa que a maré, as horas escoavam como grãos de areia entre os dedos, os minutos iam embora mais rápido que o eco triste do grasnar das gaivotas. Toda noite, a cada lâmpada de poste que se acendia, a garota não conseguia evitar o pensamentoMais um dia se foi. Meu tempo está indo embora”.

O tempo ia e a garota ficava. Sempre à espera. Uma espera preta que queria se dissolver em branco e cinza.


O cinza chegou, mas em forma de névoa.

O dia amanheceu nublado e a garota, pela primeira vez em muito tempo, não tinha vontade de sentir grãos sob os pés. Seus olhos pediam algo novo. Algo que parecesse mais puro que água com areia e sal.


Quase não se via o verde por baixo da mistura densa de clara neblina cinza com forte amanhecer amarelo. Fazia frio, mas a garota não conseguiu resistir: tirou seus tênis e meias. Seus pés agora experimentavam uma sensação de maciez que praia alguma no mundo poderia oferecer. As pequenas folhas da grama faziam cócegas, a terra úmida amortecia e o orvalho da manhã lavava suas solas calejadas de areia.

Estes passos pareciam os primeiros após anos. Os primeiros que não doíam. Amortecida pelo frio, pela umidade e pela luz, que crescia sem a violência de um pôr-de-sol sobre o mar, a garota caminhava como se soubesse que ia chegar a algum lugar mágico.

Caminhava devagar p’ra aproveitar cada passo e, também, p’ra prolongar esta esperatão mais doce que a outra a qual estava acostumada (presa). Olhava p’ra frente confiante de que entre o cinza e o amarelo iria encontrar algo, mesmo sem saber o quê.

Sua expectativa era tão alegre e amena que seu direito parou de súbito ao sentir algo duro e mais frio, que contrastava em muito com o tapete verde que vinha pisando. Abaixou-se, rendida à curiosidade. Sua cabeça chegou até onde a visão não é amortecida pela névoa – podia ver perfeitamente.

Parecia uma letra D: quase reta em um lado e no outro, uma curva que se encaixava perfeitamente no dedo indicador da garota quando curvado. Preto com detalhes azuis na curva. Um brilho fosco que prendeu seus olhos.

nem lembrava como terminou a caminhada sobre a grama úmida, ou mesmo a que horas o sol venceu a neblina. A caminhada agora era em direção à praia. A vontade de areia voltara, mas não era de senti-la embaixo de seus pés.

Pisou na areia e nem a sentiu arranhar suas solastoda sua sensibilidade estava no contato entre seu dedo e a pedra, entre sua pele e aquela massa sólida e lisa que não escorregava de sua mão . Deu alguns passos até estar próxima de onde as pequenas ondas da manhã quebravam, mas não o suficiente p’ra se molhar. Sentou-se, deixou cair seus tênis, meias e mochila, e olhou o mar.

Pela primeira vez, a garota conseguiu enxergá-lo não como quem traria aquilo que ela tanto esperava, aquilo branco acinzentado que a encantaria. O mar era p’ra ser visto e ouvido. E como enchia olhos e ouvidos! Há quanto tempo a garota não notava isso?

Tirou a mão do bolso, e com a pedra, como extensão de seu dedo, escreveu:

LONGA ESPERA

Poucas ondas depois, havia areia. Agora deslizante como papel sob pincel e tinta.

Thursday, August 23, 2007

P'ra você, por mim

Era difícil, mas era preciso equilibrar tudo: a mochila pesada de tantos suprimentos; a máquina fotográfica, que sempre deveria estar à mão; e Dédalo, seu porco cor-de-rosa. Caminhava havia duas horas. O almoço tinha sido pouco, mas suficiente p’ra garantir a etapa final de sua jornada.

Nem parecia que estava viajando há duas semanas. Duas semanas em que tinha como sua única companhia Dédalo. Não fosse a ausência de polegares opositores e de estudo, Dédalo poderia escrever um livro, um longo livro, sobre as confissões da garota. Ora embaraçosas, ora engraçadas, ora patéticas, mas na maioria das vezes, tolas.

- Ai! Quantas vezes já tropecei hoje, hein? Você já nem deve mais se assustar ou achar que vou derrubar você, né? Vá lá, é o cansaço. Já estam... Ei! Não dê de focinho p’ra mim, não, mocinho! Não gosto quando você começa com sua atitude. Pfff... Como se você se importasse...

Duas semanas em que, quando teve oportunidade de conversar com alguém, se viu obrigada a explicar o porquê de carregar um porco.

- Blá blá blá... muita gente passando fome no mundo e eu levando um porco para o alto de um monte. Como se Dédalo fosse suficiente p’ra alimentar milhões de famintos! Como se eu fosse capaz de resolver vários problemas. Ok, desculpe, Deda, sei que sua situação não é um problema. Mas escolhi fazer isto! Mesmo sabendo que não vou ouvir um “obrigado” depois.

Quanto mais alto, mais frio, como é de se esperar.

- Vem, Dédalo, fique assim p’ra poder aproveitar do meu casaco também. Se você ficar se mexendo fica difíc... Dédalo, quieto. Isso, assim. Falta pouco agora. É, eu sei que você preferia ter vindo no verão, mas... Bleh, eu prefiro dias frios e sou eu quem carrega você. A vontade do mais forte, querido. Já contei quando foi que ouvi essa frase pela primeira vez?
Eu tinha uns 6 anos, estava numa fazenda com meus pais e meu irmão. Eu queria andar a cavalo, mas ele quis nadar. Eu estava sob seus cuidados, então nem adiantou eu pedir. Ele devia ter uns 15 anos e soltou essa “É a vontade do mais forte que vence”.
Não, não estou repetindo ações ruins. Meu irmão fez uso de sua “força” p’ra fazer o que ele queria e só. Eu estou aqui por você, Deda. Mesmo que na época melhor p’ra mim, ainda é por você.

O sol começava a baixar, aumentando o frio mas diminuindo a queimação.

- Deda, fica escondido. Esqueceu que vocês são os únicos, além dos homens e dos hipopótamos, que se queimam com sol? Bleh, eu sei que você sabe que isso é mentira. Mas precisa se proteger mesmo assim. “Use filtro solar” diria um grande poeta brasileiro, mas, no seu caso, não é possível.
Poxa, que sorte, hein, garoto? Por um lado, você não pode usar filtro solar, mas por outro, vive livre de ter que ouvir cada coisa. Ah, os poetas...

Seus passos estavam no modo automático, mas seus olhos estavam atentos. O fim de tarde se aproximava e com ele a escuridão. A garota começava a ficar ansiosa, o momento se aproximava. Já o porco... este continuava a aproveitar o embalo de ser carregado. Seu focinho às vezes parecia procurar algo a cheirar, mas o ritmo de acalanto o fazia perder a atenção e piscar mais vezes e por mais tempo que o normal.

- Deda, será que você se acostumaria a morar numa cidade? Comigo, eu digo. Apartamento, calor, concreto, barulho,... Não parece muito tentador, né? Bom... Eu arrumo uma cama confortável p’ra você. Ah, acho que poderia ser divertido.

O cair da noite, a escuridão, o momento, tudo isso se aproximava. Mas, também, o fim da viagem. A garota já sentia por isso, e ficava chateada por saber que Dédalo não iria corresponder. Por alguns instantes, a garota desejou que Dédalo a olhasse e que seus olhos dissessem “Eu também”. “Que bobagem!”, riu, mas precisou esconder de si mesma que o desejo não iria passar.
Não era resultado das duas semanas sem conversar com alguém. Era resultado de uma vida a espera de alguém que a acompanhasse em decisões que parecem sem sentido, em atitudes simples que parecem inúteis, em empreitadas bobas que parecem não levar a nada,... Alguém que precisasse de ajuda e pudesse ajudar. Alguém que a fizesse sentir que pode ajudar.

- Chegamos, e bem a tempo. Você pode ver o céu, Deda! Tá vendo esse azul todo? Isto é o céu. Eu fiquei bem impressionada quando aprendi que porcos não conseguem erguer a cabeça, por causa da musculatura do pescoço. Não consegui imaginar como seria uma vida sem o céu. Eu trouxe você aqui, Dédalo, p’ra isso. Este é o céu. Está azul agora, na verdade, consegue ver quantos tons de azul? Lindo, não? Daqui a pouco vai escurecer. Aí, você vai ver estrelas.
Ah, vai poder falar com elas, também, se quiser. Lembra de Olavo Bilac? “E conversamos toda a noite, enquanto a via láctea, como um pálio aberto, cintila”. Você vai ver como é bom e fácil. “Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas."

Tinham chegado ao topo do monte. Num lugar plano, onde a garota estendeu sua toalha quadriculada, deixou cair sua mochila e libertou Dédalo. Ela ficou sentada, respirando o ar gelado que parecia encher seus sentidos com o cheiro de sonho realizado, enquanto olhava p’ra seu companheiro, amigo e motivador. Este, por sua vez, cheirou a toalha por alguns segundos e se rendeu: o ritmo da caminhada o tinha ninado, se aproximou da garota e seu casaco e, dobrando seus joelhos, se aninhou.

Juntos e quietos, eles esperavam a noite chegar.

- Ok, confesso: foi por mim, também, que vim. Por você e por mim. Lembra de “New Deep” de John Mayer? Aquela que mais ouvimos nestes últimos dias. Então, e os versos que eu canto mais alto, lembra quais são? Isso, “look at the stars, don’t it remind you just how feeble we are? Well it used to, I guess”.
Lá embaixo, junto com todos os outros, nem eu conseguia mais ver as estrelas. Precisei subir até aqui p’ra lembrar o quão pequena sou. Você veio junto p’ra me fazer enxergar que, ainda que pequena, posso levantar alguém, fazer alguém enxergar além.

A noite chegava...

- Tá vendo ali, Deda? Aquele é Vênus, é um planeta, mas é chamado de primeira estrela do dia, ou Estrela d’Alva. Os judeus contavam o começo do dia quando avistavam a primeira estrela. Por isso aquele mito de que apontar p’ra estrela faz aparecer verrugas.
Lembra? Eu já contei p’ra você! Os adultos diziam isso p’ra crianças, p’ra elas não apont...


Saturday, August 11, 2007

Desejo...

... que seus ouvidos estejam sempre cheios de música; seus olhos ocupados com novas descobertas em cada rua; suas mãos distraídas com papéis, canetas e livros; sua cabeça perdida entre os estímulos do ainda alcançar e os sorrisos do já conquistado;

... prazeres dignos de Amélie; o piano de Regina Spektor; as referências em Libertines; os sóis de Turner; as páginas de Dickens;... e quantas horas e dias meus conseguir agüentar!

Feliz aniversário!
Amo você


Ai, que vontade de ir p'ra São Paulo...

Tuesday, July 24, 2007

Rollemberg's Angels

Ah, como essa cidade fica melhor com duas Ana Rollemberg...



Friday, July 06, 2007

Presa no próprio discurso

Ah, que beleza de discurso. Que fácil pregar, tão difícil viver. Permita-se, Ana Carolina.


Ou cale a boca!

Monday, June 04, 2007

I

O ar tem tons pastéis. Muitos pés e pernas brigando por espaço. A calçada é um cinza frio. Gritos:

- Eu a conheço! Quero falar com ela! Não. Me solta!

Um braço uniformizado a segura pela cintura, a disputa de forças é tamanha que os pés abaixo da cintura chegam a flutuar por alguns segundos.


----x----
De um ponto no centro, a claridade aumenta. Branco completo...
----x----

A garota abre a janela e senta na cama diante da vista. Abre seu caderno e com um sorriso

A viagem foi mais tranqüila do que eu esperava: a ansiedade não me tomou, perdeu lugar para a irritaçãomais uma comédia sobre um homem que se disfarça de mulher gorda usando pele de borracha? Atravessar o oceano a nado seria mais engraçado!


Lembrete pessoal: atravessar qualquer coisa que seja a nado nunca é engraçado quando é você quem deve atravessar e você não sabe nadar!
Ok,
não esquecerei...

­­­

no táxi conseguia sentir o gosto de um novo começoeu anunciei o endereço desejado, e sabia que demorarei a anunciar o caminho de volta.

O frio de fim de inverno aceitou meu pedido e será meu guia em meus primeiros dias. Pela janela vejo boa parte do que sei que vou encontrar, mas é o que essa janela não me mostra que mais me entusiasma e assusta. Uma última fechada de olhos, respiro fundo e... saio!


----x----
Por um instante, a porta esconde a luz. Mas tão logo ela se fecha, pela janela, a claridade entra sem esforços e toma tudo
----x----

Com passos lentos, a garota parecia saborear cada centímetro de concreto, cada milímetro de vitrine, cada corrente de vento em cada esquina, todas as folhas caídas e o ar que gelava suas narinas e saía de sua boca sem nem agradecer por ter sido aquecido. Eram os passos quemuito vinha ensaiando.

Em menos de cinco minutos se encontrava dividida pela consciência de sua pequenez diante de anos de vida e obras da humanidade e pela sensação da grandeza de sua curiosidade – o peso da História contra a força motora da paixão. O melhor conflito experimentado.

Seu corpo ainda tropical a levou a um café: era preciso algo quente, líquido e vapor

Mais bonitos e aconchegantes, parecem mais limpos e tudo que é servido parece delicioso. Que boba! Até os cafés me encantam! Que prazer a vista sob o véu do início de um amor...

Um chocolate quente e um croissant que duraram vários minutos

Casais em passeios pela manhã buscam proteção contra o vento gelado e encontram, além de cafés quentes, mesas pequenas que justificam a proximidade pré-planejada. O burburinho é baixo e cadenciado, sugerindo diálogos clichês que interessam às bocas que os pronunciam, a menos de um palmo de distância umas das outras.

A um palmo de minha boca, meu último pedaço de croissant. Volto p’ra rua, vou travar diálogos com os fantasmas de séculos e séculos...


----x----
O sol de uma manhã de sábado nublado furou as nuvens e alcançou a cidade que respirava o último golpe do inverno.
----x----

Iluminada pelas luzes falsas de postes, a vista intimidava a garota, fazia parecer mais difícil. Ela fechou as cortinas e se jogou na cama para repassar em sua cabeça o dia vivido, como se fosse preciso guardar cada detalhe na memória para que não perdessem a qualidade de reais

Lembrete pessoal: croissant e chocolate quente não contam como refeição completa!


----x----
A claridade da manhã de domingo ignorou as cortinastalvez se não fossem brancas...
----x----

A garota finalmente pôde vestir a roupa que havia escolhido (e planejado usar na primeira ocasião que tivesse) antes mesmo de comprar seu bilhete de embarque. Parecia uma bonequinha de pano, ou melhor, uma bonequinha de tecidos pesados e resistentes a baixas temperaturas, mas, ainda assim, uma boneca sorridente à procura de uma menina tão desejosa de companhia quanto ela mesma

O primeiro homem a encontrar o túmulo de Tutankamon, Amélie ao encontrar os tesouros de infância de Dominique Brodeteau e eu ao entrar na Biblioteca Nacional.

Não passo de uma criança e este é o maior parque de diversões onde estive. Direita ou esquerda? Subo ou desço as escadas? E se eu me perder?! Quanto tempo até que eu decida que é melhor ser encontrada?

O tempo agora se divide em dois: o do mundo fora e o da vida aqui dentro. O primeiro é o de sempre, conhecido e não exatamente interessante. Eu me deixarei ficar com o segundo. Tiro meu relógio e o coloco no bolso junto com essas minhas palavraselas querem se esconder diante de tantas outras tão mais bonitas.


----x----
O brilho fosco do ouro de brochuras tornava turva a visão
----x----

Minha intenção era chegar até a sala de leitura com o sortudo que tinha escolhido, mas nem sequer me afastei da prateleira: tão logo me virei, a vi...

Traços saídos de um Delacroix, a palidez dos que têm mais horas no quarto do que amigos para celebrar, o brilho vermelho do cabelo que dança mesmo sem vento. Eu senti: era a liberdade que veio me guiar.

- Anais Nïn? – apontou para o livro que sofria o aperto de meus braços que não sabiam o que fazer – Henry Miller – ergueu a mão esquerda – fazemos um par!

Quanto tempo demorei a reagir àquele sorriso? Tempo suficiente p’ra desejar que eu pudesse me acomodar em meu bolso junto ao meu relógio.

Saturday, June 02, 2007

Um bom começo seria abrir meus ouvidos para minhas próprias palavras.

Vamos lá, Ana Carolina. Você consegue!

Friday, June 01, 2007

Abrindo meus olhos e ouvidos

"I have often thought it would be a blessing if each human being were stricken blind and deaf for a few days at some time during his early adult life. Darkness would make him more appreciative of sight; silence would teach him the joys of sound.

Now and then I have tested my seeing friends to discover what they see. Recently I was visited by a very good friend who had just returned from a long walk in the woods, and I asked her what she had observed. 'Nothing in particular,' she replied. I might have been incredulous had I not been accustomed to such responses, for long ago I became convinced that the seeing see little.

How was it possible, I asked myself, to walk for an hour through the woods and see nothing worthy of note? I who cannot see find hundreds of things to interest me through mere touch. I feel the delicate symmetry of a leaf. I pass my hands lovingly about the smooth skin of a silver birch, or the rough, shaggy bark of a pine. In spring I touch the branches of trees hopefully in search of a bud, the first sign of awakening Nature after her winter's sleep. I feel the delightful, velvety texture of a flower, and discover its remarkable convolutions; and something of the miracle of Nature is revealed to me. Occasionally, if I am very fortunate, I place my hand gently on a small tree and feel the happy quiver of a bird in full song. I am delighted to have the cool waters of a brook rush through my open fingers. To me a lush carpet of pine needles or spongy grass is more welcome than the most luxurious Persian rug. To me the pageant of seasons is a thrilling and unending drama, the action of which streams through my finger tips.

At times my heart cries out with longing to see all these things. If I can get so much pleasure from mere touch, how much more beauty must be revealed by sight. Yet, those who have eyes apparently see little. The panorama of color and action which fills the world is taken for granted. It is human, perhaps, to appreciate little that which have and to long for that which we have not, but it is a great pity that in the world of light the gift of sight is used only as a mere convenience rather than as a means of adding fullness to life.

If I were the president of a university I should establish a compulsory course in 'How to Use Your Eyes'. The professor would try to show his pupils how they could add joy to their lives by really seeing what passes unnoticed before them. He would try to awake their dormant and sluggish faculties.

(...)

Oh, the things that I should see if I had the power of sight for just three days!"


Three Days to See
Helen Keller (1880-1968)

Tuesday, May 29, 2007

"It's never over"!

He's the tear that hangs inside our souls forever...
1966-1997

Monday, May 21, 2007

Nanda em uma foto

Se eu tivesse que descrever você de uma maneira artística (não original, infelizmente):

Wednesday, May 16, 2007

Escritos à 00(h) e eu devia estar dormindo(min)

Sua voz ecoava na garganta, mas não saía pela boca. Engasgou. Uma tosse tuberculosa. No máximo. Arranha e não passa. Dói a garganta que tosse e os ouvidos que ouvem. Quando chega aos lábios, só resta escarro.


Então... É isso. Pois é...

Eu acadêmica

No horário da preguiça pós-almoço, o laranja parece ainda mais argiloso - são paredes de um forno de fazer carvão. O verde parece mais distante, escuro e, se possível, monótono.

Entre as portas, a argila e o verde monótono, um ar abafado, que só se movimenta pelas mudanças de posições das cabeças que caem sob o peso do sono.

O calor abafa as falas, que soam como repetições monossilábicas, e multiplica a digressão de pensamentos.

Lá fora, risadas e passos. Aqui dentro, a densidade da vontade de ir embora somada às palavras que entram nos ouvidos mas não são escutadas.

Onde estávamos mesmo?


A professora de Teoria da História pediu que escrevêssemos sobre uma aula. A diferença entre a aula que me inspirou e a de Teoria é o horário!

Onde estávamos mesmo?
Onde tenho estado todos os dias?!

Tuesday, April 24, 2007

Ensaiando

Você me deixava angustiada. Você é daquelas pessoas que nos fazem querer muito tê-las em nossa vida mas, ao mesmo tempo, deixam muito medo porque não sabemos até quando estarão nela.

Você era tudo que eu não gostava. Tá, tão logo bati os olhos em você fiquei fascinada – foi aquela certeza que sentimos de que vamos aprender muita coisa com uma pessoa, e não consegui não me aproximar. E no início de nossa convivência tive a impressão de você ser a projeção, a imagem do tipo de pessoa que eu não gostava. Você era suicida, que estimava e agendava a data de morte com drogas e desistência, e eu...eu era um bichinho assustado numa redoma de vidro.

Feliz o dia em que você, com toda sua ignorância, sua falta de jeito, quebrou minha redoma. Você me tirou do medo em que vivia, me ensinou, na verdade, me obrigou a ter coragemnão em relação à vida, às decisões, mas em situações palpáveis que... nunca vamos esquecer, tenho certeza.

Com você cada inspiração passou a ter um cheiro e cada palavra um gosto. E de todos os cheiros e gostos que descobri com você, os meus preferidos ainda são: o toque da sua mão puxando a minha e o som da sua voz dizendo “vem”.

Você adora dizer que eu salvei sua vida pelo menos umas 4 vezes. Isso é mais uma prova do tamanho da sua teimosia.

Eu precisei ser salva por você uma!

Sunday, April 15, 2007

Uma questão física

- What happens when an unstoppable force meets an immovable object?
(...)
- It never happens. If there's a thing that can't be stopped, it's not possible for there to be something else which can't be moved, and vice versa. They can't both exist. You see, it's a trick question... is the answer.

(Imagine Me & You, 2005)

Enquanto eu for um objeto imóvel, não haverá força irrefreável...

Tuesday, March 27, 2007

Vem à noite e me deixa durante o dia...

Monday, March 26, 2007

Parece que ela voltou...

Bom Dia, Tristeza

(Vinicius de Moraes / Adoniran Barbosa)

Bom dia, tristeza
Que tarde, tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando
Até meio triste
De estar tanto tempo
Longe de você

Se chegue, tristeza
Se sente comigo
Aqui, nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar

Friday, March 23, 2007

PROCURA-SE



Apesar da aparência inocente, esta garota representa grande perigo à sociedade: quando ela some, dá saudade. E muita!

Saturday, March 17, 2007

Ai, ai...

...né?

Friday, February 23, 2007

Tava aqui pensando...


"Acho que a gente precisa de outra cerveja!"
.
.
.
Pelo menos, EU preciso...
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.

Sabe quando surgem boatos de greve? Então...

Sunday, January 28, 2007

Resumo da ópera

Bem, começa assim:

Fiquei de férias e voltei p'ra casa



Em mais uma manhã de verão tropical...


...passamos pelo caos nos aeroportos p'ra ir à cidade maravilhosa


Reunimos a família,...

Saturday, January 27, 2007

...visitamos lugares que me ajudaram a ver a História,...



...vimos coisas que nos fazem pensar "vou vender ISSO lá na minha terra e ficar rica!",...


...trocamos presentinhos, gracinhas e cutucões...



De volta à megalópole do noroeste do Paraná, passeamos...


...e, ainda, subimos muitos degraus...




É, foram dias de família e (muita) comida

Que venha o primeiro semestre! Mas não precisa ser rápido, não...

Tuesday, January 09, 2007

Lá me fui...

"Mas... Cê tá feliz?"

E assim, com três palavras, eu voltei vários passos...

Friday, December 15, 2006

Quero fazer parte de uma banda!

Ok Go - A Million Ways
Ok Go - "Here It Goes Again"

Será que todo loser tem seus minutos de pop?

Tuesday, December 12, 2006

Resolvi me matar,...

...mas como sou medrosa, o faço aos poucos. Quanto mais medo, mais demora; quanto mais demora, mais vontade; quanto mais vontade, mais medo;... Um ciclo vicioso nojento, ridículo e infantil.

Mas, se me mato não é porque assim escolhi! É um pedido ao qual atendo.

Dizem que quando sentimos muita vontade de comer algo é porque esse algo está em falta no nosso organismo. Pois então, meu organismo pede, grita por colesterol: há dias eu só faço comer manteiga (daquelas amarelas, claras, mas amarelas!). Se meu corpo grita, eu atendo!

Aos poucos minhas veias se entopem. Ei, não pisque! - ou quer perder o átimo durante o qual meu rosto revela meu arrependimento?

Além da gordura, hoje meu organismo pediu álcool (a mente debilitada faz parte do organismo, certo?). Um grito dentro, o atendimento fora. Mas, o álcool é pouco e insuficiente (palavrinha recorrente nos últimos dias, hein...) então, outro grito: MÚSICAS TRISTES!

As veias se entopem, os sentidos se entorpecem e os ouvidos se encobrem. Low Density Lipoproteins, 39% de teor alcoólico e manhãs que duram por toda a tarde. Pão pintado com amarelo gordura, banana com leite batizado e eu encurralada, enquanto carros são ligados e pés andam pelos caminhos.

Mas, é tudo tão demorado. Tão lento. Tão lento quanto eu...

E é só terça-feira...

Saturday, December 09, 2006

That's where I will be

Tuesday, December 05, 2006

Em contagem regressiva...

10...

Thursday, November 02, 2006

As paredes ouvem...

...e deixam ouvir


Acordei e logo ouvi um dos meus dois bons-dias de sempre.

Curioso que o volume era baixo. Não sabia dizer se já tinha se passado o momento auge dos gritos ou se este ainda nem tinha começado. Na cozinha, peguei um copo e uma colher sem fazer barulho. Não queria que percebessem que eu estava ali – elas já estavam desconfortáveis o suficiente só as duas, lembrar que há outras pessoas tão perto não ajudaria em nada.

Mas, uma voz masculina tirou minha sensação de reconhecimento da cena. E, quando outras duas vozes masculinas soaram, eu já não sabia o que esperar. Apenas uma porta nos separava mas, será que era suficiente? Por alguma razão que não sei qual é, não me sentia segura.

Meu coração batia num misto de pena e medo – por sentir que a porta poderia, a qualquer momento, se dissolver no ar e minha voz, ser somada ao coro que agora me assustava.

Elas continuavam a discutir, vez ou outra um grito, vez ou outra a participação de um dos homens: a gravidade não era só por se tratar de um homem falando, havia gravidade nas palavras, na entonação.

Minha insegurança crescia na mesma proporção que meus batimentos se aceleravam. A porta começava a se dissolver. Por desespero, abandonei o copo, a colher e a idéia do café-da-manhã sobre a bancada, e tentei manter meu escudo: as mãos espalmadas e a cabeça apoiada pediam, por favor, para que a matéria não me deixasse.

Meu pedido silencioso foi interrompido pela gravidade das palavras. Respirei (me senti respirar), consegui abrir os olhos e posicionar um deles diante do olho-mágico. O diâmetro tão pequeno emoldurou um tecido preto com bordado branco, POLÍCIA.

Uma porta já não bastava. O volume agora era mais alto. Como sempre, uma delas gritava; como sempre, seus gritos eram finos mas sufocavam os ouvidos, transformando o silêncio na saudade mais dolorida que se pode ter e num desejo que derruba.
Precisava me encolher como se isso diminuísse minha capacidade de ouvir. Voltei para o meu quarto – meu quarto, meu mundo, certo? Pois meu mundo tem vista para o final da discussão.

Meus ouvidos queriam que eu me encolhesse ainda mais, mas meus olhos queriam me fazer acreditar. Olhos vencedores, fui até a janela. Puxei um canto da cortina e me deparei com janelas dotadas de vidros, metais e cabeças. Três andares abaixo, o carro, as três vozes graves (agora já caladas de impaciência), a voz baixa aconselhando e a voz alta resistindo.

Uma entrou no banco de passageiros, a outra, ainda resistindo, pareceu se perder por instantes e olhou para seus pulsos – seus olhos também queriam fazê-la acreditar –, eram algemas. Da descrença, seu olhar passou para o medo: a porta traseira fora aberta. A impaciência que calara as vozes, agora movia os braços que empurravam, mesmo ela insistindo em ir sozinha.

Dois: um de cada lado, um p’ra cada braço, ela foi colocada – sem delicadeza – no “bagageiro”:

- Eu não consigo respirar aqui!

O último grito. O baque seco da porta traseira. E, finalmente, ganhei de volta o silêncio.

Mas já não era como antes...

Monday, October 23, 2006

...

Tic-tac, tic-tac, tic-tac...

Thursday, September 21, 2006

John Mayer - Stop This Train

"I'll never stop this train..."

Monday, September 18, 2006

Maldita...

...tecnologia!

Cadê os vídeos que deveriam ter aparecido aqui?

Thursday, August 03, 2006

Vestido azul

Uma roda gigante brilha em vermelho e azul. Um vento gelado faz seus joelhos tremerem, ou será que é o medo? A noite parece mais escura do que de costume e... Olha para a direita, para a esquerda e para trás: está sozinha.

Não sabe p’ra onde seus pais foram. Sentiu-os soltarem suas mãos, mas só agora percebe que eles se afastaram. “P’ra onde?” Não se atreve a sair a sua procura, está assustada: muitas crianças passam correndo, gritando, se divertindo; as luzes brilham fortes demais, os brinquedos são barulhentos demais, os gritos, altos demais.

Bate as pontas dos sapatinhos brancos que ganhou horas antes – o primeiro dos presentes de aniversário, o segundo é a visita ao parque. Olha p’ra baixo e se vê: sapatos novos, seu melhor vestido, um azul bem claro com uma fita na cintura. Lembra-se de sua imagem refletida no espelho antes de saírem de casa: o cabelo bem preso num rabo-de-cavalo alto com uma fita de cetim azul pouco mais escura que o vestido; os brincos de cruz que a avó havia lhe dado pouco antes de morrer. “Uma princesinha!”, disse sua mãe juntando as mãos sob o queixo e sorrindo.

Seus sapatinhos começam a perder o brilho com a poeira que sobe de suas batidas de pés e dos passos de tantos estranhos que passam. “Como o parque está cheio. Será que todas essas crianças também estão fazendo aniversário?”

Olha a sua volta mais uma vez. “Quem sabe eles estão voltando com um ursinho de pelúcia como aquele que vi naquela barraca...” Um ombro dentro de uma camisa xadrez bate em seu rosto tirando seu equilíbrio. Ela cai sentada em meio a nuvens de poeira.

“Sujei meu vestido. Sujei minhas mãos. Meus sapatinhos... Mamãe vai brigar comigo!” Começa a chorar de medo. Medo por estar sozinha rodeada por tantos estranhos, por não saber onde seus pais estão e nem quando vão voltar e agora, mais ainda, por saber que sua mãe irá ralhar.

Chora sentada no chão abraçando as pernas, olha ao redor. Quer que seus pais voltem, mas não quer que eles a vejam suja como está. Suas mãos ardem, estão raladas por causa da queda. Quer que seu pai as sopre, mas não quer que ele brigue com ela por vê-la sentada no chão sujo.

Com as costas da mão, interrompe as lágrimas. Por acaso, percebe que perdeu o brinco que usava na orelha direita. “O brinco da vovó”. Seu choro aumenta – adorava os brincos, eram sua única lembrança da avó.

Sentada no chão, é invisível: as crianças continuam a passar, gritar e sorrir, não a vêem. Entre gritos, passos e poeira, ergue a cabeça: a roda gigante ainda brilha em vermelho e azul, mas a noite é ainda mais escura.

Não sei...

Seus braços doíam, não sabia porquê. Bem na região onde se costuma tirar sangue. Doíam esticados, doíam dobrados. Não havia posição que melhorasse e, por isso, não conseguia relaxar.

Estava sentado numa cadeira de plástico laranja. Daquelas que parecem gritar “ANOS 80”. Apoiava os cotovelos nos apoios p’ra braços e... doíam. O lugar era mal iluminado e fedia, como rodoviárias. Mesmo sabendo que o vai-e-vem de pessoas era intenso, não via ninguém. Sua vista estava reduzida a um quadrado de limites: os apoios p’ra braços de sua cadeira na largura, e a altura ia de seus pés até seu tórax.

Quando erguia a cabeça, além de sentir uma forte dor no pescoço, não enxergava nada! Escuridão. Ficava cego. O mesmo acontecia quando olhava para os lados. Seus pés, suas pernas, seu tórax, seus braços – era só isso que via.

Pensou em levantar, mas seus pés permaneciam imóveis. Seu cérebro mandava o comando, mas eles não obedeciam. Desesperou-se: sentia, sabia que tentava mexer seus pés, fazia força, mas os enxergava inertes, como se a o outro pertencessem.

Quis gritar! Num reflexo, ergueu a cabeça – escuridão. Abriu a boca, mas nada saiu. Pensou em mexer seus braços, gesticular até chamar a atenção de algum dos que passavam (sabia que não eram poucos). Mas, agora, doíam ainda mais.Olhou para a única área que enxergava e percebeu seus braços também imóveis. Dobrados em “V” como nos manequins de vitrine.

O grito que não saía o sufocava a garganta, seu corpo todo paralisado, seu desespero preso a um quadrado de vista. Os passos, o grito, os gestos, o socorro...

Das bordas, um contorno escuro foi crescendo em direção ao centro do quadrado. Sobrava um círculo de visão que ia diminuindo, diminuindo,...

O grito sufocando, os braços doendo,...

...diminuindo, diminuindo,...

Os olhos cheios de medo...

Escuridão!

Tuesday, August 01, 2006

Sobre a mentira

- Eu te ligo!

- Eu te liguei a noite toda, mas só dava ocupado.

- Eu ia te chamar, mas não deu tempo.

- Eu queria que você tivesse ido.

- Pensei em te chamar, mas achei que você nem ia querer ir.

- Pode deixar que eu vou.

- Eu fiquei trabalhando.

- Não tem nada a ver com você.

- Eu não fico inventando desculpas!

- Eu sei que fiz mal.

- Eu não mentiria p’ra você!

- Eu te ligo.

Sunday, July 23, 2006

Atualmente

Parados no meio da sala diante um do outro, os dois viviam momentos diferentes.

- Consegue sentir? Todas as vezes, antigamente, quando tentei mostrar, você dizia que não sentia – com as duas mãos, ternas como ele bem reconhecia, ela segurava a mão direita dele contra seu peito -, e agora? Sente?

Não, ele não sentia, mas dessa vez não queria e não iria admitir. Olhava nos olhos dela buscando neles ver o que “todas as outras vezes, antigamente” ela tentava mostrar e ele só enxergava. Mas, dessa vez...

- O coração acelerado, a tontura, a falta de ar,... Pode ter certeza, ainda tem todas essas coisas.

Ele não sabia porquê, mas não conseguia ficar feliz ao ouvi-la repetir aqueles sintomas que “todas as outras vezes, antigamente” o faziam sorrir. Ainda buscava nos olhos dela, mas dessa vez...

- Eu estou olhando nos seus olhos e ainda sinto como se estivesse num lugar muito alto e olhasse p’ra baixo. Sabe aquela sensação de ser sugado?

Eles permaneciam diante um do outro, a distância era do braço dele esticado. Ainda segurando a mão dele aberta contra seu peito, ela abria caminho com seus dedos entre os dele com movimentos delicados mas decididos como das “outras vezes, antigamente”, mas dessa vez...

- Eu seguro sua mão e meus dedos ainda parecem encontrar encaixe perfeito entre os seus. Você percebe isso, eu sei.

Isso, sim, ele percebia. Seus dedos, os dele e os dela, sempre se entenderam bem, se entrelaçavam como se aquele movimento fosse o mais genuíno e certo. Os dedos diziam, as palavras confirmavam, mas os olhos, dessa vez...

- Eu ainda tenho dificuldade em encontrar palavras p’ra falar com você,...

Ele parou de ouvir por um instante, quando ela soltou sua mão, pois só agora notava: ela não estava sorrindo como “todas as outras vezes, antigamente”, não estava sem jeito, ruborizada como “todas as outras vezes, antigamente”. Falava com confiança, sem desviar o olhar... Esse olhar que tantas “outras vezes, antigamente” fugia do dele por simples timidez ou provocação, mas dessa vez...

- Ainda tem tudo isso, mas agora... Agora é por medo.

Sunday, June 11, 2006

Efeito Young

Terça-feira, 06 de junho de 2006. Pela manhã, meu professor profetizou: "Seis, do seis do seis. Um bom para nascer o Anti-Cristo... ou para algum louco fazer alguma grande bobagem."

Se nasceu o Anti-Cristo, o pró-Cristo, se algum louco fez alguma bobagem (grande ou pequena), se algum bobo fez alguma loucura (grande ou pequena) não sei, só sei que... Fernanda Young.

Passei o dia esperando às 6 e meia chegar p'ra pegar o táxi (maldita cidade projetada p'ra pessoas com carro). Chegou... mas o táxi não! O ponto estava vazio. Em minha cabeça uma vozinha sacana repetia: "Murphy, Murphy, Murphy..." E eu sabia que ela não falava do Robocop! Felizmente, meu pessimismo foi derrotado ("quem acha que perder é ser menor na vida"? Perdi com gosto). Em poucos minutos, após superarmos o trânsito de volta p'ra casa, cheguei a Caixa Cultural. Ah, caso um dia estejam em Brasília e quiserem ir a Caixa Cultural, digam ao taxista que vai a Caixa Ecônomica, eles não sabem que o teatro fica na mesma área.

Logo que entrei no prédio: fones brancos no ouvido (provavelmente um IPod. Bundão!), camiseta do "Laranja Mecânica", óculos com armação grossa retangular e escura, All Star pretos com estrelas brancas e aquela cara de tédio, tudo no melhor estilo "mamãe, quero ser cult". Sentei na proltona vaga, ao lado deste ser "indie".

Quinze para às sete. "Que horas vai abrir?", "Às sete", "Obrigado". Por que as pessoas falam tão alto? Por que eu ainda cometo esse erro tolo de sair de casa sem fones no ouvido??? (pretos, viu?). Cinco p'ra sete. "Que horas vai abrir?", "Às sete", "Ah, então falta pouco". Sete e dois. "Que horas vai abrir?", eu olhei no relógio e pensei: o quão cretino será ele responder "Às sete"? E o quão mais cretino será eu retrucar "Então vai daqui a dois minutos atrás!"? "Às sete". Bleh... Deixei passar.

Sentei na terceira fileira, mas a câmera apontada p'ra mim me fez re-escolher meu lugar. Acabei ao lado de uma garota que não sabe ler. Só pode não saber! Entrou com um saco do McDonalds e comeu dentro do teatro logo após passar pelo aviso: "Proiba a entrada com bebidas e alimentos". Hmmm, o "porteiro" além de atrasado é cego? Ou será incompetente mesmo?

Falando em competência, às sete e meia (horário marcado p'ra começar o programa) descobriram que uma das câmeras precisava ser trocada. Troca daqui, troca de lá, troca lente, troca toda a câmera... Claro, voltaram a primeira e ela foi a escolhida.

Pffff... E ainda tive que assistir um videozinho da Caixa falando sobre seus projetos culturais com a última frase: "O melhor do Brasil é o brasileiro". Por isso que o país está como está...

Dez para às oito. A prostituição em Minas Gerais na época do auge da exploração mineradora no Brasil Colonial foi, finalmente, deixada de lado. "Vamos começar?". Tem coisa mais irritante que ficar esperando alguém e quando esse alguém chega pergunta "Então... Podemos ir?". "NÃO, INFELIZ! Quero continuar esperando p'ra ver quanto tempo leva até aparecer OUTRO idiota como você!" P'ra peida...

"Blá blá... Roteirista, escritora, blá blá blá... Fernanda Young"

É ela! Um sorriso de desconforto que só os tímidos que já atravessaram palcos sabem fingir ser espontâneo (malditas formaturas). Um andar rápido de quem sente que sentado a área exposta é menor e, logicamente, a proteção contra tantos olhares é maior. É mesmo ela.
- Boa noite. Desculpem o atraso, não fui eu quem atrasou. EU ODEIO ATRASOS! - É ela, definitivamente.

As caras e bocas, as viradas de olhos, as pausam imprevistas tentando encontrar a melhor palavra, os braços em revolução (no sentido original da palavra, queridas, da astronomia, com ênfase na noção de irresistibilidade), o tom de voz oscilante entre a certeza já muito refletida e a afirmação interrogativa (aquela falada tão logo surge e que, por isso mesmo, pede, em silêncio, concordância,confirmação), ... É ela.

Ela. Aquela personagem criada p'ra aparecer na televisão e impressionar as pessoas com sua tranqüilidade, sua imunidade ao mundo, as pessoas, a vida e suas pequenices. Ok, viu essa personagem? Então, olhe de novo. Não há imunidade, não há o brilho e os sorrisos de "Caras" e "Tititi".

Não sei dizer o quanto a vontade de me reconhecer atrapalha minha visão ("A identificação traz conforto"), mas esses braços com coreografia própria, as alternâncias entre convicção e suspeita (a primeira muito mais freqüente, mas ainda assim...), as "frases de efeito" (repetição causa conforto, dizem no mundo da propaganda) e brincadeiras várias,...

Senti um conforto daqueles de conversa de madrugada que começa na televisão e chega a cor preferida de fogos de artifício. Conforto de verso perfeito na música recém descoberta, de frase de filme que se assiste sozinha quando nenhuma companhia pode salvar sua noite, de página aberta ao acaso num livro descoberto entre as muitas prateleias de uma biblioteca ("É esse que vou levar!"),...

Engraçado. Ela sempre diz que se sente/sentiu deslocada, e suas palavras trazem conforto, através da identificação, p'ra milhares de pessoas. Hoje, pude ver algumas dessas milhares, todas se levantaram ao fim do programa com um brilho como o da personagem cega de "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" quando chega a banca de jornal após ser conduzida pela protagonista.

Se ela é deslocada e nós todos nos reconhemos nela, não seremos nós locados? Mesmo sendo muitos, ainda nos sentimos "diferentes" mas, pelo menos, já não estamos sozinhos nisso.

Diante da escada do metrô, ela solta nossos braços. Já podemos ir.