Tuesday, January 22, 2008

Confissão .1

Tínhamos passado a manhã e a tarde dentro do colégio. Durante o dia, vimos passar os mesmos rostos que passavam na época em que eu estudava por lá. Já à noite, só restávamos nós duas. Nem sei quem ela era. Só sei que estava comigo, nesse dia tão estranho.

O mais estranho em relação a esse dia é que ele só entrou na minha memória, só foi adicionado aos arquivos de minha lembranças quando eu me forcei a lembrá-lo, dias depois. Quando percebi que havia uma lacuna. Faltavam todo um dia e algumas horas antes e depois dele.

Eu sabia qual era o dia e, mais, eu sabia o que eu tinha feito. Eu a tinha matado. Sabia até como – estrangulada com um cadarço vermelho. Mas não me lembrava. Fechava os olhos e não conseguia me ver apertando o fio cor-sangue. Muito menos enxergava o porquê de tê-lo feito.

Foi quando meu irmão quis me provocar, “Aproveita e leva o seu cadarço p’ra polícia examinar”, que senti meu coração chegar ao estômago. A culpa vinha doendo fraca, mas as palavras dele (que nem sabia que havia acertado) me fizeram achar a lacuna e, nela, a culpa cresceu.

Eu precisava lembrar, precisava saber o que havia me levado a matar aquela garota. Aquela que nem sei quem era.


O prédio em formato de L, com suas paredes revestidas com pastilhas onduladas, num tom de amarelo anêmico. À noite, o lugar tinha ainda menos vida. A iluminação era digna de cena de reconstituição de crime em seriados investigativos. Ao invés do concreto frio, o pátio tinha areia misturada com terra – não sei como ou por quê.

Eu sabia dizer quem havia estado ali horas antes conosco, ainda tinha seus rostos na lembrança tão recente e me sentia indiferente a eles. Eu estava com ela. Quem era ela afinal? Ela que caminhava comigo, no escuro e no silêncio, pelas minhas lembranças. Mesmo sem tê-las vivido, ela se lembrava comigo. E o silêncio que ajudava a manter tornava desnecessárias as palavras.

Caminhávamos sem precisar combinar a direção. Estávamos em sincronia e em paz. Isso foi o mais difícil em meu ato de lembrar esse dia: lembrar do sossego que havia entre nós, e saber que em poucos minutos ele seria quebrado. Junto com o sopro de alegria que saía daquela moça e chegava até mim.

A linha que nos unia se estreitou num nó ainda mais forte: nos demos as mãos. Nossos dedos se entrelaçaram com tal força que eu sentia o sangue pulsando em sua veia, entre sua pele e um dos metacarpos. Como se já não estivéssemos numa cena clichê o suficiente, sorríamos como numa propaganda de margarina.

E foi com alguma frase boba como essa, que fazia piada da nossa situação, que a trouxe p’ra ainda mais perto de mim. Começou assim uma seqüência de tapinhas e empurrões. Por um tempo, foram golpes limitados, já que cada uma só tinha uma mão disponível. Mas não demorou muito até que ela soltasse minha mão para poder acertar um golpe mais eficiente.

Com um tapa, um movimento de pernas e um sorriso enorme, ela me derrubou sobre ela, na terra. O chão era fofo e o ar a nossa volta ficava mais denso, com grãos de areia pulando e caindo a cada novo golpe que dávamos uma na outra. Na verdade, golpe já não explica bem. Caídas sob a areia, nos mexíamos numa mistura de brincadeira infantil e desejo ainda não experimentado.

Seus cabelos longos balançavam como se não estivessem pesados, com areia e terra. Seu sorriso era de quem incentiva e provoca. Suas mãos brincavam de prender-querendo-soltar as minhas. E todo seu corpo se mexia ditando o ritmo do meu. Nós duas sabíamos que o momento do beijo se aproximava, e não sentíamos vontade de apressá-lo. Ele aconteceria.

Mas não foi assim.


A lacuna ainda existe, e toma forma de precipício. Para onde o ar escorrega, me deixando sufocada.

Perco o ar, como a fiz perder também. Não lembro do cadarço saindo de meu bolso, nem de seus olhos pedindo p’ra que eu parasse. Nem sequer lembro como passamos de pernas entrelaçadas, para nó no pescoço.

Algo borrado, sobre um arranhão acidental, surge em minha visão. Mas não consigo acreditar que foi isso que me moveu. Eu a matei. E não sei por quê.

Aperto entre os dedos de minha mão, em meu bolso, o pedaço de linhas vermelhas. Tudo o que sinto são essas linhas, a falta de ar e a culpa. A certeza de não ser descoberta amplifica tudo isso.

Abro meus olhos para a claridade do dia. Só ela pode trazer luz ao precipício...

Wednesday, January 02, 2008

Ah, 2008...






Feliz ano p'ra todos nós!

Monday, December 10, 2007

Thursday, November 22, 2007

Depois do Sol

Eram três garotos e uma garota.

Era uma vez um garoto que sonhava navegar até o amor. Ele tentou reunir uma tripulação que o ajudasse, pois achava que sabia como seriam as travessias. No entanto, o garoto partiu numa viagem solitária: construiu um barco com suas próprias idéias, o qual direcionava com suas próprias visões, enquanto remava com suas próprias desculpas. Era uma embarcação simples, feita de papel e palavras. Somente o timão era de material diferente: um metal comum, mas que facilmente é confundido com um nobre. Uma pena para o garoto: toda luz que deveria nortear sua jornada, caía sobre seu timão, ofuscando sua visão.

Era uma vez um garoto que cantava e dançava como se ninguém estivesse olhando. Num momento de carência, ele tentou um novo repertório. Não durou uma canção. Mas foi num momento de tristeza que o garoto errou na dança e caiu no passado. Canções e passos que ele já sabia de cor, voz e corpo agindo no automático, só reagindo. Na coreografia repetida tantas vezes, o riso do garoto se desfez.

Era uma vez um garoto que esperava, num passe de mágica, roubar, ou melhor, furtar o coração de uma garota. Mas, infelizmente p’ra ele, num raro momento de pouca sorte, seus truques caíram sobre um muro. A sorte, ainda que pouca, estava no fato de que sobre o muro estava uma garota.

Era uma vez uma garota sentada sobre um muro. Mas não era um muro qualquer, era o seu muro. Mais que isso: um conjunto de paralelepípedos escuros que formavam uma pequena torre. Sentada sobre o muro, a garota olhava para os chãos – o de dentro do muro, de um verde escuro à sombra; e o de fora, verde forte, reflexo do sol – com cara de quem tentava lembrar “onde eu estava mesmo?”. Mas logo desistia, mudava a cara p’ra “fazer o quê, né?” e abraçava seus joelhos. O tempo passava.

Por um tempo os quatro estiveram juntos, planejando uma aventura. Mas ainda eram dois garotos e um garoto e uma garota. Nos planos, eles se preocupavam: “preciso construir meu barco. Bom é que já sei como e já tenho um timão”; “quais canções vou cantar? Quero algo novo... mas as letras antigas não saem da minha cabeça”; “eu vou descer... mas p’ra qual lado?”; “qual é mesmo o truque p’ra manter tudo certo?”.

Num dia de muito sol, a garota se amedrontou. Antes de pular de volta p’ra segurança de sua torre, deu uma olhada: um garoto levantava âncora, partindo com o sol às suas costas; um garoto entoava versos como um robô programado.

Ajoelhada à sombra, com a mão contra o muro, a garota puxou um dos paralelepípedos e pediu, num tom que quase não se escuta: “Eu quero sair, eu vou sair. Eu só preciso de alguns instantes aqui”.

Um garoto: não aplaudiu o número musical e pediu por algo novo; escreveu uma carta com instruções de como conseguir ajuda, fechou-a e lançou-a ao mar; ficou (do ponto de vista da garota, emoldurado como numa micro-tela de cinema) ao lado do muro, treinando seus truques, tentando lembrar aquele que faz tudo voltar a ficar bem...

Wednesday, November 21, 2007

Que vontade de cantar...

Katy Perry... Tem uma música ótima, "UR So Gay", e uma versão muito boa de "Your Love".

No seu site, ela diz: "Remeber, this is the season for giving... So give 'UR So Gay' to the person that dumped you!".

Thursday, November 15, 2007

I ain't got nothing to say

I'll just dance



Tegan and Sara (cover de Bruce Springsteen) - Dancing in the Dark

Monday, November 12, 2007

Aí, fomos a um videokê

Se ela não canta, eu danço


Lembra que Marilyn Monroe cantou "Happy Birthday" para o JFK? Então, cada loira canta o quê pode e p'ra quem pode...


E o nível ficou assim por um tempo...



Até que eles, os Garotos da Quadra de Trás, arrancaram gritos e aplausos (não só das namoradas!)

Wednesday, October 24, 2007

Procuro

a garota com latas, grafite preto, pregos e rolos fotográficos; a garota que quer libertar duendes de jardim; a garota que as nuvens com cabelo cor de merengue não conseguem beijar; a garota que pula em poças e ri com o barulho dos passos dentro de meias encharcadas; a garota que sente o fim do mundo a cada noite de domingo; a garota que morde mangas de blusas quando fica ansiosa; a garota que se delicia ao não sentir o tempo passar enquanto desfaz as costuras de uma roupa velha; a garota que caminha mais devagar conforme a quantidade de sorvete que ainda tem nas mãos;...

Perdi você em algum lugar, pelo caminho. Desculpe... e volte!

Friday, October 12, 2007

Starálfur

- Você ainda vai estar aqui quando eu acordar?
- Só se você quiser...
- Então... fica.

...

- Você tem medo de escuro?
- Você já me viu com medo?
- Você já me viu correndo?
- Hein?
- Só porque você nunca viu, não quer dizer que não seja possível.
- Engraçado você me perguntar isso. Quando você me criou, não me deu medo.
- Você sabe que não gosto quando você fala que eu...
- Sim, sim, eu sei. Não me deu medo, mas insistiu p’ra que eu me sentisse real, e não falasse como se de outra forma fosse.

...

- Você gostaria de ter medo?

Thursday, October 11, 2007

As surpresas da vida...

Quem diria, hein?

Thursday, October 04, 2007

Na segunda-feira choveu...

Ontem choveu! Depois de quase cento e trinta dias de seca, ou melhor de secura, o céu chorou. Pela primeira vez em muito tempo, suas lágrimas não soaram como tristeza p’ra mim.

Parecia um convite p’ra que eu me juntasse à roda e “cirandasse” pela noite. Nem saí do apartamento, mas pelo vidro da varanda meu pensar se juntou aos pingos de água e uivos de vento. Por poucos, mas bons, instantes rodopiei ao gosto do ar úmido e fresco – já fazia mais de cem dias...

De volta à mesa, meu corpo se sentia aliviado do calor, e eu, saciada do ar necessário para uma noite. O relógio ainda não apontava as dez horas, mas o dia poderia ter terminado p’ra mim. Calmo, molhado e no ritmo da chuva.

Eu já não precisava me esticar como uma estrela do mar p’ra aumentar o contato da pele com o ar. Abraçava meus joelhos como se há muito não nos víssemos. Numa noite de reencontros: com o ar, a água, a pele, a ciranda.

E hoje...


"Hoje eu quero viver sem saber de nada"

Tuesday, September 25, 2007

Esses dias de calor...

Tem Bob Esponja, sorvete com granulado, nada, Coca-Cola, confissões, croissants, brincadeiras com Dalila, oversharing, coincidências nas infâncias, bolacha de coco, blues, molho de tomate acompanhando qualquer coisa, "Oh, you touch my tralala...", nada, requeijão p'ra dar sabor a tudo, "pare de comer os dedos, garotinho", dedos brincando na barba, Alpino, "deixa que eu faço isso, moça", cafuné com cheiro de frutas, puré da Lúcia,...

E ainda sobra tempo p'ra mais:



Ei, nós poderíamos estar roubando, poderíamos estar matando,...

Wednesday, September 12, 2007

Desafio

Encontre, no texto abaixo:
- duas músicas;
- uma banda;
- duas frases "mamãe, quero escrever bonito";
- uma frase "Tão Ana isso";
- um parágrafo pedante;
- X erros de português;
- muita falta do que fazer


Caleidoscópio de cores


Quatro e quarenta e nove minutos. Não é só o calor, nem a monotonia da voz que vem na direção quadro-negro-eu.

As cores ainda pulam em meus olhos, após a manhã passada brincando com fotos. É como enxergar uma canção de Jimi Hendrix.

Ribbons of euphoria sem vento. As paredes e os vidros são uma panela de pressão que impedem que meus gritos escapem. Mudos, meus sorrisos também ficam presos.

No ambiente seco não tenho possibilidades de pular. É o contrário do que canta a banda gelada. Uma rosa sem vitória. Longe do túnel azul.

Tons pastéis voltam aos meus olhos.

Hoje, sou laranja...

Tuesday, September 11, 2007

Uma música p'ra você, garotinha


Helen Sjoeholm - Gabriellas Sång

Det är nu som livet är mitt

It is now that my life is mine

Jag har fått en stund här på jorden

I’ve got this short time on earth

Och min längtan har fört mig hit

And my longing has brought me here

Det jag saknat och det jag fått

All I lacked and all I gained



Det är ändå vägen jag valt

And yet it’s the way that I chose

Min förtröstan långt bortom orden

My trust was far beyond words
Som har visat en liten bit

That has shown me a little bit

Av den himmel jag aldrig nått

Of the heaven I’ve never found



Jag vill känna att jag lever

I want to feel I’m alive

All den tid jag har

All my living days

Ska jag leva som jag vill

I will live as I desire

Jag vill känna att jag lever

I want to feel I’m alive

Veta att jag räcker till

Knowing I was good enough



Jag har aldrig glömt vem jag var

I have never lost who I was

Jag har bara låtit det sova

I have only left it sleeping

Kanske hade jag inget val

Maybe I never had a choice

Bara viljan att finnas kvar

Just the will to stay alive



Jag vill
leva lycklig

All I want is to be happy

För att jag är jag

Being who I am

Kunna vara stark och fri

To be strong and to be free

Se hur natten går mot dag

To see day arise from night


Jag är här och mitt liv är bara mitt

I am here and my life is only mine

Och den himmel jag trodde fanns

And the heaven I thought was there

Ska jag hitta där nånstans

I’ll discover it there somewhere

Jag vill känna att jag levt mitt liv

I want to feel that I’ve lived my life

Monday, September 10, 2007

Onde está, garotinha?

"Not Found

Sorry, but you are looking for something that isn't here."

Friday, September 07, 2007

Crying to the clicking of time...

Wednesday, September 05, 2007

O Varal

Mais um prendedor em mais um papel em seu Varal de Fracassos.

Neste estavam algumas poucas palavras: os primeiros parágrafos de um livro. A estória de uma garota que vivia em um só cômodo. Seu quarto, seu mundo, sua vida.

Com um sorriso de uma criança que, ao ver seu brotinho de feijão morrer no algodão, se lembra dos momentos verdes que teve, ela olhou seu varal. Contou de relance, sem querer exatidão e chegou à marca de uma parede cheia!

Livros começados, filmes velados, cartas não acabadas, fotos tremidas. Suas idéias mais íntimas, todas enfileiradas, lado a lado, se seguravam ao barbante. Com uma resistência descuidada, elas se mantinham firmes – muito mais do que jamais estiveram quando eram ainda só idéias em sua cabeça.

O primeiro de todos, um filme asa 400 completamente preto. Ela riu, lembrando que o erro, dessa vez, foi tão tolo que fez nascer a idéia do varal: um lembrete das tolices que estragam as coisas. Aqui nasceu o Varal do Fracasso. Numa dessas noites iguais a tantas outras: o canto das cigarras ensurdecia e trazia a mente técnicas de tortura (pingos de água na testa, músicas do Barney, episódios de novelas das seis, tudo isso ad nausea), a chuva ameaçava mas não caía, o vizinho fumava junto à janela e a fumaça subia, é claro, até sua sala. Dessa situação só poderia sair uma grande idéia mesmo...

Curioso: o Varal dos Fracassos parece ser sua única idéia que não fracassou. Curioso e quase poético. Talvez chegue a poético numa noite de terça-feira.

Mas, não era terça...

Ela continuou a olhar o varal, mas agora olhava também com os dedos: uma folha tão fina que ao toque lembrava um lençol e ao olhar deixava suas linhas e a letras quase indistintas do fundo branco. Quase não se sentia, quase não se enxergava. Mais uma vez, o riso foi inevitável: essa era a sua lista “Se souber responder essas questões, é você”. Agora, as questões não passavam de traços leves que não mudavam mais nem mesmo a folha na qual estavam escritas.

verba volant, scripta manent... Mas, até quando?

Alguns passos e estava diante de um conjunto de fotos. Pregadas aos pares, elas ocupavam pouco espaço físico, mas muito visual: eram o centro do varal e também, mas não por isso, o ponto que puxava os olhos tão logo se entrava no quarto.

Eram borrões em papel fotográfico. Cortes rápidos e brilhantes. Corpos que se mexiam deixando um rastro. “P’ra onde?” e seus olhos continuavam lá. Talvez fosse a impossibilidade de se enxergar o que pretendiam retratar, mas algo nessas fotos pareciam lançar um desafio de resistência; uma vez aceito o desafio, os olhos eram vencidos, mas as manchas indefinidas continuavam a passar rápidas pela mente.

Modo reprise. Fotos, páginas, letras, idéias agora passavam por sua cabeça como um filme de Jorge Furtado. Seus olhos corriam pelos prendedores, suas mãos estalavam seus dedos até estes se trançarem, seus pés marcavam o ritmo de sua excitação... Estava longe de uma ilha de flores, mas ainda assim sorria:

uma parede cheia, um varal cheio. Um varal cheio de fracassos. E ela não conseguia olhá-los sem sentir seu peito se encher do ar da realização.

Wednesday, August 29, 2007

Conversa com o mar

Um conchinha branca acizentada. Seria pedir demais? Pelo jeito, era!

Nunca gostou muito de praia, mas onde encontrar conchas, certo? Ainda não tinha chegado ao lamentável estágio de resignação. A garota acreditava que ia encontrar. E sua tola crença era reforçada a cada concha branca azulada, a cada brilho entre curvas de nácar, a cada eco de ar vindo correndo por espirras... Se estas conchas a fascinavam por alguns instantes, mal podia esperar até encontrar sua branca acizentada!

Caminhava, havia meses, com grande freqüência pela praia, chegando até a ir a praias que ainda não conhecia – quem sabe seria lá? Seus pés já sentiam os grãos de areia mesmo quando descansando sobre o perfume de lençóis recém-lavados. O cheiro de sal e o som do mar já faziam parte de seus dias, mesmo quando respirava em meio ao concreto. O sol se deitava sobre o azul que balançava, levava a luz, mas não conseguia levar as esperanças da garota. E seus dias passavam.

Dizer “e seus dias passavam” chega a ser uma mentira. Os dias se arrastavam com menos pressa que a maré, as horas escoavam como grãos de areia entre os dedos, os minutos iam embora mais rápido que o eco triste do grasnar das gaivotas. Toda noite, a cada lâmpada de poste que se acendia, a garota não conseguia evitar o pensamento “Mais um dia se foi. Meu tempo está indo embora”.

O tempo ia e a garota ficava. Sempre à espera. Uma espera preta que queria se dissolver em branco e cinza.


O cinza chegou, mas em forma de névoa.

O dia amanheceu nublado e a garota, pela primeira vez em muito tempo, não tinha vontade de sentir grãos sob os pés. Seus olhos pediam algo novo. Algo que parecesse mais puro que água com areia e sal.


Quase não se via o verde por baixo da mistura densa de clara neblina cinza com forte amanhecer amarelo. Fazia frio, mas a garota não conseguiu resistir: tirou seus tênis e meias. Seus pés agora experimentavam uma sensação de maciez que praia alguma no mundo poderia oferecer. As pequenas folhas da grama faziam cócegas, a terra úmida amortecia e o orvalho da manhã lavava suas solas calejadas de areia.

Estes passos pareciam os primeiros após anos. Os primeiros que não doíam. Amortecida pelo frio, pela umidade e pela luz, que crescia sem a violência de um pôr-de-sol sobre o mar, a garota caminhava como se soubesse que ia chegar a algum lugar mágico.

Caminhava devagar p’ra aproveitar cada passo e, também, p’ra prolongar esta espera – tão mais doce que a outra a qual estava acostumada (presa). Olhava p’ra frente confiante de que entre o cinza e o amarelo iria encontrar algo, mesmo sem saber o quê.

Sua expectativa era tão alegre e amena que seu pé direito parou de súbito ao sentir algo duro e mais frio, que contrastava em muito com o tapete verde que vinha pisando. Abaixou-se, rendida à curiosidade. Sua cabeça chegou até onde a visão não é amortecida pela névoa – podia ver perfeitamente.

Parecia uma letra D: quase reta em um lado e no outro, uma curva que se encaixava perfeitamente no dedo indicador da garota quando curvado. Preto com detalhes azuis na curva. Um brilho fosco que prendeu seus olhos.

Já nem lembrava como terminou a caminhada sobre a grama úmida, ou mesmo a que horas o sol venceu a neblina. A caminhada agora era em direção à praia. A vontade de areia voltara, mas não era de senti-la embaixo de seus pés.

Pisou na areia e nem a sentiu arranhar suas solas – toda sua sensibilidade estava no contato entre seu dedo e a pedra, entre sua pele e aquela massa sólida e lisa que não escorregava de sua mão . Deu alguns passos até estar próxima de onde as pequenas ondas da manhã quebravam, mas não o suficiente p’ra se molhar. Sentou-se, deixou cair seus tênis, meias e mochila, e olhou o mar.

Pela primeira vez, a garota conseguiu enxergá-lo não como quem traria aquilo que ela tanto esperava, aquilo branco acinzentado que a encantaria. O mar era p’ra ser visto e ouvido. E como enchia olhos e ouvidos! Há quanto tempo a garota não notava isso?

Tirou a mão do bolso, e com a pedra, como extensão de seu dedo, escreveu:

LONGA ESPERA

Poucas ondas depois, só havia areia. Agora deslizante como papel sob pincel e tinta.

Thursday, August 23, 2007

P'ra você, por mim

Era difícil, mas era preciso equilibrar tudo: a mochila pesada de tantos suprimentos; a máquina fotográfica, que sempre deveria estar à mão; e Dédalo, seu porco cor-de-rosa. Caminhava havia duas horas. O almoço tinha sido pouco, mas suficiente p’ra garantir a etapa final de sua jornada.

Nem parecia que estava viajando há duas semanas. Duas semanas em que tinha como sua única companhia Dédalo. Não fosse a ausência de polegares opositores e de estudo, Dédalo poderia escrever um livro, um longo livro, sobre as confissões da garota. Ora embaraçosas, ora engraçadas, ora patéticas, mas na maioria das vezes, tolas.

- Ai! Quantas vezes já tropecei hoje, hein? Você já nem deve mais se assustar ou achar que vou derrubar você, né? Vá lá, é o cansaço. Já estam... Ei! Não dê de focinho p’ra mim, não, mocinho! Não gosto quando você começa com sua atitude. Pfff... Como se você se importasse...

Duas semanas em que, quando teve oportunidade de conversar com alguém, se viu obrigada a explicar o porquê de carregar um porco.

- Blá blá blá... muita gente passando fome no mundo e eu levando um porco para o alto de um monte. Como se Dédalo fosse suficiente p’ra alimentar milhões de famintos! Como se eu fosse capaz de resolver vários problemas. Ok, desculpe, Deda, sei que sua situação não é um problema. Mas escolhi fazer isto! Mesmo sabendo que não vou ouvir um “obrigado” depois.

Quanto mais alto, mais frio, como é de se esperar.

- Vem, Dédalo, fique assim p’ra poder aproveitar do meu casaco também. Se você ficar se mexendo fica difíc... Dédalo, quieto. Isso, assim. Falta pouco agora. É, eu sei que você preferia ter vindo no verão, mas... Bleh, eu prefiro dias frios e sou eu quem carrega você. A vontade do mais forte, querido. Já contei quando foi que ouvi essa frase pela primeira vez?
Eu tinha uns 6 anos, estava numa fazenda com meus pais e meu irmão. Eu queria andar a cavalo, mas ele quis nadar. Eu estava sob seus cuidados, então nem adiantou eu pedir. Ele devia ter uns 15 anos e soltou essa “É a vontade do mais forte que vence”.
Não, não estou repetindo ações ruins. Meu irmão fez uso de sua “força” p’ra fazer o que ele queria e só. Eu estou aqui por você, Deda. Mesmo que na época melhor p’ra mim, ainda é por você.

O sol começava a baixar, aumentando o frio mas diminuindo a queimação.

- Deda, fica escondido. Esqueceu que vocês são os únicos, além dos homens e dos hipopótamos, que se queimam com sol? Bleh, eu sei que você sabe que isso é mentira. Mas precisa se proteger mesmo assim. “Use filtro solar” diria um grande poeta brasileiro, mas, no seu caso, não é possível.
Poxa, que sorte, hein, garoto? Por um lado, você não pode usar filtro solar, mas por outro, vive livre de ter que ouvir cada coisa. Ah, os poetas...

Seus passos estavam no modo automático, mas seus olhos estavam atentos. O fim de tarde se aproximava e com ele a escuridão. A garota começava a ficar ansiosa, o momento se aproximava. Já o porco... este continuava a aproveitar o embalo de ser carregado. Seu focinho às vezes parecia procurar algo a cheirar, mas o ritmo de acalanto o fazia perder a atenção e piscar mais vezes e por mais tempo que o normal.

- Deda, será que você se acostumaria a morar numa cidade? Comigo, eu digo. Apartamento, calor, concreto, barulho,... Não parece muito tentador, né? Bom... Eu arrumo uma cama confortável p’ra você. Ah, acho que poderia ser divertido.

O cair da noite, a escuridão, o momento, tudo isso se aproximava. Mas, também, o fim da viagem. A garota já sentia por isso, e ficava chateada por saber que Dédalo não iria corresponder. Por alguns instantes, a garota desejou que Dédalo a olhasse e que seus olhos dissessem “Eu também”. “Que bobagem!”, riu, mas precisou esconder de si mesma que o desejo não iria passar.
Não era resultado das duas semanas sem conversar com alguém. Era resultado de uma vida a espera de alguém que a acompanhasse em decisões que parecem sem sentido, em atitudes simples que parecem inúteis, em empreitadas bobas que parecem não levar a nada,... Alguém que precisasse de ajuda e pudesse ajudar. Alguém que a fizesse sentir que pode ajudar.

- Chegamos, e bem a tempo. Você pode ver o céu, Deda! Tá vendo esse azul todo? Isto é o céu. Eu fiquei bem impressionada quando aprendi que porcos não conseguem erguer a cabeça, por causa da musculatura do pescoço. Não consegui imaginar como seria uma vida sem o céu. Eu trouxe você aqui, Dédalo, p’ra isso. Este é o céu. Está azul agora, na verdade, consegue ver quantos tons de azul? Lindo, não? Daqui a pouco vai escurecer. Aí, você vai ver estrelas.
Ah, vai poder falar com elas, também, se quiser. Lembra de Olavo Bilac? “E conversamos toda a noite, enquanto a via láctea, como um pálio aberto, cintila”. Você vai ver como é bom e fácil. “Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas."

Tinham chegado ao topo do monte. Num lugar plano, onde a garota estendeu sua toalha quadriculada, deixou cair sua mochila e libertou Dédalo. Ela ficou sentada, respirando o ar gelado que parecia encher seus sentidos com o cheiro de sonho realizado, enquanto olhava p’ra seu companheiro, amigo e motivador. Este, por sua vez, cheirou a toalha por alguns segundos e se rendeu: o ritmo da caminhada o tinha ninado, se aproximou da garota e seu casaco e, dobrando seus joelhos, se aninhou.

Juntos e quietos, eles esperavam a noite chegar.

- Ok, confesso: foi por mim, também, que vim. Por você e por mim. Lembra de “New Deep” de John Mayer? Aquela que mais ouvimos nestes últimos dias. Então, e os versos que eu canto mais alto, lembra quais são? Isso, “look at the stars, don’t it remind you just how feeble we are? Well it used to, I guess”.
Lá embaixo, junto com todos os outros, nem eu conseguia mais ver as estrelas. Precisei subir até aqui p’ra lembrar o quão pequena sou. Você veio junto p’ra me fazer enxergar que, ainda que pequena, posso levantar alguém, fazer alguém enxergar além.

A noite chegava...

- Tá vendo ali, Deda? Aquele é Vênus, é um planeta, mas é chamado de primeira estrela do dia, ou Estrela d’Alva. Os judeus contavam o começo do dia quando avistavam a primeira estrela. Por isso aquele mito de que apontar p’ra estrela faz aparecer verrugas.
Lembra? Eu já contei p’ra você! Os adultos diziam isso p’ra crianças, p’ra elas não apont...