Ontem choveu! Depois de quase cento e trinta dias de seca, ou melhor de secura, o céu chorou. Pela primeira vez em muito tempo, suas lágrimas não soaram como tristeza p’ra mim.
Parecia um convite p’ra que eu me juntasse à roda e “cirandasse” pela noite. Nem saí do apartamento, mas pelo vidro da varanda meu pensar se juntou aos pingos de água e uivos de vento. Por poucos, mas bons, instantes rodopiei ao gosto do ar úmido e fresco – já fazia mais de cem dias...
De volta à mesa, meu corpo se sentia aliviado do calor, e eu, saciada do ar necessário para uma noite. O relógio ainda não apontava as dez horas, mas o dia poderia ter terminado p’ra mim. Calmo, molhado e no ritmo da chuva.
Eu já não precisava me esticar como uma estrela do mar p’ra aumentar o contato da pele com o ar. Abraçava meus joelhos como se há muito não nos víssemos. Numa noite de reencontros: com o ar, a água, a pele, a ciranda.
2 comments:
Tanto tempo sem chuva! Essa cidade realmente sabe ser estranha.
Ironicamente, o melhor que essa cidade me trouxe não veio dela...
Ironias, ironias...
Caracas, sou fã do seu estilo melancólico, quase surreal de escrever.
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