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ingrid"
Sou silêncio. Calo coisas que deveria falar. Calo-me diante de pessoas com quem posso falar. Calo idéias, sensações, impressões. Calo, calo... Calava. Eis minha tentativa - ainda silenciosa - de melhorar.
Esvaziar armários, gavetas; colocar roupas em malas; embrulhar objetos com papel bolha; encaixotar livros, CDs, DVDs;... Carregar caixas e malas andares abaixo, carro adentro, andares acima;... A mudança vem, demora a ir embora, e aproveita cada segundo para esgotar suas energias.
Mas, o cansaço passa. O pior da mudança é ver em quantas caixas sua vida cabe.
Seus livros, os diários que você nunca escreveu. Os CDs que cantam: sua adolescência, seu primeiro passo sozinha, o dia em que você encontrou companhia. Os filmes que permitem que você viva três vezes, as vidas que você nunca terá mas que, ainda assim, não vai desistir de procurar.
Tudo o que você tem, tudo o que é precioso p’ra você reduzido a um empilhamento de cubos de papelão num canto do seu novo cômodo.
O novo cômodo...
Se o antigo, mesmo depois de quase quarenta meses, não dava sensação de “meu refúgio”, um lugar novo tem menos chances ainda. Não por ser novo – não é problema com novidades. É só que... O quarto é frio, no sentido figurado, e absurdamente quente, no sentido “pelamor, um ventilador urgente!”.
Um verso de “The Chain” (linda música!) de Ingrid Michaelson define bem o quarto: “My room seems wrong, the bed won’t fit”. É aqui que estou. Aqui estarei pelos próximos meses. Quantos serão... não posso/quero pensar nisso agora...

Dez de julho. Dia de comemorar. Mas... é triste.
Você está em todas as cidades que vou, em todos os lugares. Em vários momentos, sinto seu cheiro atravessando o ar a minha volta. Além disso, há fotos, ilustrações, balcões, cardápios,... Tudo me faz ter vontade de você!
Quero você. Quero sentir seu cheiro e seu gosto me inebriando aos poucos. Quero lhe morder devagar e sentir você entre meus dentes. Quero me saciar de você!
O garoto começou uma viagem que levaria seus truques p’ra longe. E a garota voltou p’ra sua torre. O buraco que há pouco emoldurava um jardim dançante agora exibia em sua tela o garoto se afastar num grande pássaro branco. A garota ficou. Assistindo. Até que pássaro deixou de ser um minúsculo ponto e desapareceu – como se fosse mais um truque.
Dentro da torre, a garota tinha dificuldade em manter as canções soando. Ela se mexia tanto que o som mais alto era sua inquietação. As flores dançavam numa mistura de recordação e medo: mesmo soando baixo agora, na lembrança as canções ainda tinham volume alto; mas será que demorariam a voltar a ser mais que lembrança?
A garota olhava para as flores e sentia preguiça de dançar. Preguiça não, desânimo. Não queria que o jardim ficasse quieto, só queria ela mesma ficar. Sentou-se no chão, abraçou seus joelhos, como de costume, e desejou que houvesse mais para abraçar do que suas próprias pernas.
Cansada de olhar para a tela vazia, deitou-se junto às flores e tentou não pensar no quase silêncio. Olhava para o chão e para os caules tão verdes que se mexiam num ritmo agradável. A garota sorriu: as canções ainda soavam, no eco protegido pelos paralelepípedos da sua torre.
Sem se esticar muito, a garota levou sua mão à parede. Não havia o frio de pedra, mas um tremor ritmado e quente – mais um truque do garoto, ela teve certeza.